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Contribuição para o estudo da aglomeração(clusters) de Economia Popular e Solidária






Personagens da capa (De cima para baixo e da esquerda para a direita)

1. Sigmund Freud 2. Muhammed Yunus 3. Max Weber 4. John Stuart Mill 5. Saymour Melman 6. Joseph Schumpeter 7. Jean-Baptiste Say 8. Robert Putnam 9. Michael Porter 10. Paul Singer 11. Friedrich Nietzsche 12. Milton Santos 13. Karl Marx 14. Maria da Conceição Tavares 15. John Mainard Keynes 16. Jeffrey Sahcs 17. Ignacy Sachs 18. Albert Hirschman 19. Gunnar Myrdal 20. Émile Durkheim 21. Friedrich Hayek 22. Adam Smith 23. Alvin Toffler 24. Amartya Sen 25. David Ricardo 26. Vasquez Barquero 27. Índia 28. João Cardoso de Mello 29. Antonio Gramsci 30. Friedrich Engels 31. Celso Furtado 32. Boaventura de Souza Santos 33. Jeremy Bentham 34. Barão de Münchhausen 35. Miséria 36. Chê Guevara 37. Erich Fromm 38. Darcy Ribeiro 39. Andrew Oswald 40. Edward Diener 41. D. Mira


JOÃO CLÁUDIO TUPINAMBÁ ARROYO




A INSERÇÃO DE EMPREENDIMENTOS DA ECONOMIA POPULAR E SOLIDÁRIA NO EMERGENTE AGLOMERADO DA MODA EM BELÉM DO PARÁ





Belém 2008

UNIVERSIDADE DA AMAZÔNIA PROGRAMA DE MESTRADO EM ECONOMIA


JOÃO CLÁUDIO TUPINAMBÁ ARROYO



A INSERÇÃO DE EMPREENDIMENTOS DA ECONOMIA POPULAR E SOLIDÁRIA NO EMERGENTE AGLOMERADO DA MODA EM BELÉM DO PARÁ

Dissertação submetida ao Programa de Mestrado em Economia da Universidade da Amazônia - UNAMA, como parte dos requisitos para a obtenção do título de Mestre em Economia (M.Sc.), sob a orientação do Prof. Dr. José Otávio Magno Pires.


Belém 2008















A779i ARROYO, João Cláudio Tupinambá A inserção de empreendimentos da economia popular e solidária no emergente aglomerado da moda em Belém do Pará, 2007. / João Cláudio Tupinambá Arroyo. – Belém: UNAMA, 2008 294 f. : il

Dissertação (Mestrado em Economia) – Universidade da Amazônia, 2008. Orientador: Dr. José Otávio Magno Pires

      1. ECONOMIA. 2. ECONOMIA SOLIDÁRIA. 3. COOPERATIVISMO. 4. ROUPAS, Confecção, Pará. I. Título.                                               

CDD 330


JOÃO CLÁUDIO TUPINAMBÁ ARROYO



A INSERÇÃO DE EMPREENDIMENTOS DA ECONOMIA POPULAR E SOLIDÁRIA NO EMERGENTE AGLOMERADO DA MODA EM BELÉM DO PARÁ

Dissertação submetida ao corpo docente do Programa de Mestrado em Economia da Universidade da Amazônia como parte dos requisitos necessários à obtenção do grau de Mestre em Economia e submetido à banca examinadora composta pelos professores:


________________________________________ Prof. Dr. José Otávio Magno Pires (Orientador)


________________________________________ Prof. Dr. Hélio Raymundo Ferreira Filho (Examinador Interno)


________________________________________ Prof. Dr. Paul Singer (Examinador Externo)


Conceito: ________________

Data: ______/______/______











À minha esposa, Betânia, por seu amor, dedicação e competência. À minha mãe, Argemira, melhor economista que conheci.



AGRADECIMENTOS

À minha esposa, Betânia, por sua força e fé, pelo amor, auxílio e encorajamento em todos os longos momentos desta jornada, além de ter me matriculado neste mestrado, contra minha vontade.

À minha família: minha irmã Catti, meu cunhado Célio Vasconcellos. Minha sogra, Vera, meu sogro Raimundinho (em memória), meus cunhados, Antônio, Júnior, Vera e Paulinho e todos os sobrinhos. Por serem a principal demonstração científica, da mais importante pretensão desta dissertação, a de que sem cooperação e solidariedade qualquer relação humana, inclusive a econômica, perde eficácia e sentido. Além do grande amor a mim sempre dispensado.

Em especial minha mãe, D. Mira, que além de amor e proteção, me elevou com ensinamentos morais e éticos, a partir de seu próprio exemplo de vida, nos momentos mais difíceis que tivemos, o que, seguramente, me fizeram ser o que sou e sonhar chegar onde, um menino que começou como office-boy aos 11 anos de idade, se fosse outro, jamais sonharia.

Aos empreendedores da economia popular e solidária, razão maior deste trabalho.

À Diretoria da FAP (Faculdade do Pará), na pessoa da Dra Maria Sônia Rodrigues Gluck Paul, pelo apoio financeiro durante todo o curso. Aos colegas da FAP, pelo apoio e compreensão nos momentos em que houve a necessidade de priorizar a finalização deste estudo. Particularmente, o Prof. M.Sc Hélcio Monteiro, que com Betânia Fidalgo me deram grande auxílio na revisão do texto final, além de estarem sempre dispostos a, gratuitamente, trocar reflexões sobre os desafios da ciência econômica.

Ao meu orientador, Professor Dr. José Otávio Magno Pires, pelas descobertas teóricas, esclarecimentos e pela agradável maneira com que conduziu esta orientação, sempre buscando uma relação de cooperação e integração. E aos Profs, Dr. Hélio e Dr. Carlos Augusto pelo apoio e por aceitarem fazer a qualificação desta dissertação.

Aos Professores e amigos, Francisco Costa, o Chiquito, e Antônio Cordeiro de Santana que, como Betânia, me ins(piraram) profundamente a tomar a carreira acadêmica.

À Joana Mota, Vera, Sr. Miguel, Carlos Raposo e todos os empreendedores populares com quem aprendi, nestes últimos seis anos, que economia é muito mais do que aparece na televisão e na maioria dos livros, que o principal fator de produção é gente, em sua integridade indivisível, com tudo o que isso significa.

E, a todos os outros que, contribuíram para que a Economia Solidária passasse a ser, além de objeto de pesquisa, opção de vida.


















Creo que la unidad del hombre, a diferencia de otros seres vivientes, se debe a que el hombre es la vida consciente de sí misma. El hombre es consciente de sí mismo, de su futuro, que es la muerte ; de su pequeñez, de su impotencia. Es consciente del otro en cuanto otro. El hombre está en la naturaleza, y sometido a sus leyes, aunque la trascienda con el pensamiento. Erich Fromm


RESUMO


A Sociedade brasileira dá sinais cada vez mais nítidos de estar assumindo a responsabilidade por seus destinos. Um dos consensos estabelecidos é com relação ao absurdo da concentração de renda e poder no Brasil, como fator perverso do crescimento econômico e avesso ao desenvolvimento. Outro consenso, importante é o de que já não basta aguardar, nem mesmo apenas reivindicar soluções estruturais das esferas e lideranças políticas – algo precisa ser feito no espaço público da sociedade, sem que seja uma iniciativa totalmente estatal. As pessoas se juntam espontaneamente procurando soluções alternativas a partir de sua contribuição direta particular. Estamos assistindo o surgimento de uma nova cultura política que após acumular vitórias no campo social, ambiental e dos direitos cidadãos, começa a avançar na direção da economia – esfera cabal da efetivação prática, ou não, dos direitos conquistados para além do marco político-jurídico. No entanto, o desafio da transformação dos problemas em oportunidades de desenvolvimento humano, exige mais do que uma consciência teórica. Está a exigir a capacidade de materializar novas relações políticas, sociais e econômicas. Do conjunto das alternativas visíveis hoje, consideramos que há uma discreta tendência a construção de uma síntese possível – menos na academia ainda, e bem mais na política e na prática cotidiana da economia da maioria das pessoas. A Economia Popular e Solidária é uma das dimensões desta síntese possível. Neste estudo, o central está em indicar o processo emergente da aglomeração econômica da moda no qual se insere o setor de confecção da Economia Popular e Solidária, identificar os processos que colocam a cooperação no centro das estratégias competitivas que aos poucos vai mudando profundamente as relações entre os agentes socioeconômicos e criando uma alternativa que já conquistou merecimento de maior respeito como alvo de políticas públicas econômicas e lugar certo na estratégia de um novo modelo de desenvolvimento, justo e sustentável. Ao fim, oferecemos sugestões tanto de políticas públicas quanto de estratégias mercadológica para que os empreendedores populares, protagonistas deste processo, tenham mais alternativas de se viabilizar econômica e como seres humanos dignos que são.

Palavras-chave: Economia Popular e Solidária; Aglomerado; Cooperação;

                             Competitividade.





ABSTRACT


Brazilian society are sending signs that is getting the responsibility for their own destiny. One of the established consensuses is with regard to the nonsense of the concentration of income and power in Brazil, as perverse factor of the economic growth and against to the development. Another important consensus is that it is not enough to wait anymore, not even to demand structural solutions of the spheres and politic leaderships - something needs to be made in the public space of the society, without it is a total state initiative. The people are joining each other spontaneously looking for alternative solutions from its particular direct contribution. We are expecting the dawn of a new politic culture witch after getting great victories in the social, environmental and right fields, goes ahead toward the economics conditions of living – exactly where the rights become a reality, or not, even when the law says yes. However, the challenge of the transformation of the problems in chances of human development, demands more than what a theoretical conscience. We need, today, the capacity to materialize new relationships - politics, social and economic. Of the set of the visible alternatives today, we consider that it has a discrete trend to the construction of a possible synthesis – less in the academy and much more in the practical politics and the daily one of the economy of the majority of the people. The Solidary and Popular Economy is one of the dimensions of this possible synthesis. In this study, the central office is in indicating the increasing process of the economic fashion agglomeration where sector of confection of the Popular and Solidary Economy is in, to identify the process that place the cooperation in the center of the competitive strategies that, step by step, goes deeply changing the relations between the social and economics agents and creating an alternative who already conquered merit of bigger respect as aim of economic public policies and certain place in the strategy of a new model of development, fair and sustainable.To the end, we offer such a way of suggestions of public policies and strategies marketing so that the popular entrepreneurs, protagonists of this process, have more alternatives to make possible them selves successful in the real economy as worthy human beings that they are.


Keywords: Popular and Solidary Economy; Cluster; Cooperation;

                  Competitiveness.





LISTA DE TABELAS


TABELA 1 : FORMAS DE ORGANIZAÇÃO DA ECONOMIA SOLIDÁRIA . . . . . . . . . 23

TABELA 2 : ESTRUTURA-AÇÃO DAS SOCIEDADES CAPITALISTAS NO SISTEMA MUNDIAL . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 78

TABELA 3 : VALOR AGREGADO PELA COOPERAÇÃO. . . . . . . . . . . . . . . . . . . 119

TABELA 4 : EMPREENDIMENTOS SOLIDÁRIOS NO BRASIL – ATLAS DA ECONOMIA SOLIDÁRIA NO BRASIL. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 138

TABELA 5 : BALANÇO DA EMPREGABILIDADE NO SETOR TEXTIL-CONFECÇÕES 2007. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 146

TABELA 6 : PARTICIPAÇÃO DO NORTE NA PRODUÇÃO FÍSICA NACIONAL TÊXTIL-CONFECÇÕES. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 156

TABELA 7 – A ORIGEM ESPACIAL DA PRODUÇÃO DOS INSUMOS DAS EMPRESAS DA ASCOOP. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 177

TABELA 8 : PERCEPÇÃO DOS EMPREENDEDORES DE CONFECÇÃO POPULAR QUANTO AOS FATORES LIMITANTES DO DESENVOLVIMENTO DO AGLOMERADO, EM BELÉM DO PARÁ. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

265

TABELA 9 : PRINCIPAIS AGENTES DO AGLOMERADO DE CONFECÇÃO DA ECONOMIA POPULAR E SOLIDÁRIA EM BELÉM. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 267

TABELA 10 : PRODUTOS DEMANDADOS E MOTIVAÇÕES DECLARADAS PELOS CLIENTES DA CONFECÇÃO POPULAR. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 267




LISTA DE ILUSTRAÇÕES

Figura 1 Mapa de atuação da ASCOOP e Pólos, em Belém do Pará, maio de 2007. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 38 Figura 2 Hierarquia dos sistemas segundo Bertalanffy (1977) . . . . . . . . . . . . . 61 Figura 3 O Diamante de Porter – vantagem competitiva das nações . . . . . . . . 85 Figura 4 O efeito H de de . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 86 Figura 5 Fontes da vantagem competitiva da localização. . . . . . . . . . . . . . . . . 88 Figura 6 Complexo Congressual, Industrial, Militar de Seymour Melman e outros . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 91 Figura 7 Globalização e domínio território em Milton Santos. . . . . . . . . . . . . . . 122 Figura 8 Diagrama evolução dos modos de produção. . . . . . . . . . . . . . . . . . . 125 Figura 9 Rede de Relações Institucionais da Economia Solidária no Brasil 139 Figura 10 Mapa da concentração territorial dos EES no Brasil. . . . . . . . . . . . . . 140 Figura 11 Gráfico da evolução do número de EES de 1979 a 2005. . . . . . . . . . 141 Figura 12 Gráfico da evolução do número de EES por região territorial . . . . . . 141 Figura 13 Gráfico do número de EES por atividade . . . . .. . . . . . . . . . . . . . . . . . 142 Figura 14 Gráfico do percentual de EES por faixa de remuneração . . . . . . . . . . 142 Figura 15 Gráfico dos investimentos na Ind. têxtil-confecções 1990/2001 . . . . . 145 Figura 16 Diagrama da cadeia produtiva têxtil-confecções no Brasil . . . . . . . . . 148 Figura 17 Tabelas do Complexo Têxtil-Confecções . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 150 Figura 18 Diagrama novos formatos institucionais e financeiros para promoção de sistemas de PME´s . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 153 Figura 19 Modelo do aglomerado têxtil-confecções do Vale do Itajaí-SC . . . . . . 154 Figura 20 Tipos de atividades dos empreendedores da ASCOOP. . . . . ... . . . . 166 Figura 21 Faturamento bruto mensal dos participantes da cooperativa . . . . . . . 167 Figura 22 Ocupações diretas por empresa da cooperativa. . . . . . . . . . . . . . . . . 168 Figura 23 Ocupações diretas temporárias por empresa da cooperativa . . . . . . . 169 Figura 24 Meio físico em que opera suas atividades . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 170 Figura 25 Tempo de funcionamento dos empreendimentos da cooperativa. . . . 171 Figura 26 Mapa da concentração geográfica da atuação da ASCOOP . . . . . . . . . 173 Figura 27 Principais insumos demandados pela concentração de empresas semelhantes da atividade têxtil e da produção de acessórios. . . . . . 176 Figura 28 Cadeia produtiva textil e de acessórios, à montante, em Belém. . . . . 179 Figura 29 Freqüência das parcerias entre os empreendimentos da ASCOOP e seus fornecedores. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 180 Figura 30 Tipos de parcerias mais freqüentes entre os empreendedores da ASCOOP e seus fornecedores . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 181 Figura 31 Freqüência com que os empreendimentos da ASCOOP tomaram iniciativas para parcerias com seus fornecedores. . . . . . . . . . . . . . . . 184 Figura 32 Principais clientes dos empreendimentos da ASCOOP em Belém . . 185 Figura 33 Cadeia produtiva têxtil e de acessórios, à jusante, em Belém. . . . . . . 186 Figura 34 Freqüência das parcerias entre os empreendimentos da ASCOOP e seus clientes . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 187 Figura 35 Tipo de parcerias entre os empreendimentos da ASCOOP e seus clientes . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. . . . . . . . 190 Figura 36 Freqüência com que os empreendimentos da ASCOOP tomaram iniciativas para parcerias com seus clientes. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 192 Figura 37 Freqüência de parcerias entre os empreendedores da ASCOOP. . . . 194 Figura 38 Tipos de parcerias entre os empreendedores da ASCOOP . . . . . . . 195 Figura 39 Iniciativa para parcerias com outros empreendedores da ASCOOP . 196 Figura 40 Fluxograma da cadeia vertical da produção têxtil e de acessórios de Belém . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 197 Figura 41 Setores componentes da cadeia horizontal de setores . . . . . . . . . . . . 204 Figura 42 Logo da grife criada pela ASCOOP . . . . . . . . . . . . . .. . . . . . . . . . . . . 209 Figura 43 Roupas da grife 100%Amazônia no Amazônia Fashion Week, 2007 . . 210 Figura 44 Percentual dos produtores da ASCOOP que reconheceram a existência de elos entre os setores de cadeias horizontais de setores 211 Figura 45 Percentual das vezes que empreendedor da ASCOOP entendeu ter tomado iniciativa para estabelecer elos com os setores da cadeia horizontal de setores . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

212 Figura 46 Cadeia vertical das empresas têxteis e de acessórios da ASCOOP e cadeia horizontal . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 213 Figura 47 Instituições percebidas como sendo de apoio às empresas da ASCOOP . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 217 Figura 48 Cadeia vertical das empresas têxteis e de acessórios da ASCOOP e cadeia horizontal de setores articulada a estas empresas e instituições de apoio a estas formações . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

222 Figura 49 Arroyo,Joana Mota e Sr. Miguel, presidente da ASCOOP . . . . . . . . . 226 Figura 50 Sede da ASCOOP em 2005 e, depois da reforma, em 2007. . . . 231 Figura 51 Delegados da Amazônia no I Encontro Nacional de Empreendedores Populares: Distrito Federal, 2004 . . . . . . . . . . . . . . 232 Figura 52 Desfile coleção Justa Trama no Amazônia Fashion Week 2007 . . . . 233 Figura.53 Cadeia vertical das empresas têxteis e de acessórios da ASCOOP e cadeia horizontal de setores articulada a estas empresas, com instituições de apoio a estas formações e órgãos coletivos das empresas e órgãos coletivos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .


234 Figura.54 Cadeia vertical das empresas têxteis e de acessórios da ASCOOP e cadeia horizontal de setores articulada a estas empresas, com instituições de apoio a estas formações, órgãos coletivos das empresas e órgãos de regulação . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .


241 Figura 55 Dificuldades da cooperação . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 253 Figura 56 Vantagens na cooperação . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 256 Figura 57 Círculo vicioso da ASCOOP . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. . . . 260 Figura 58 Círculo virtuoso da ASCOOP . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 261


SUMÁRIO


1 INTRODUÇÃO. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 19

2 METODOLOGIA. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 29

3 TEORIA DE BASE. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 41

3.1 A CAUSAÇÃO CIRCULAR ACUMULANTE E OS FATORES NÃO-ECONÔMICOS EM MYRDAL. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 41 3.1.1 Equilíbrio dinâmico: a circularidade espiral da interação dos vetores econômicos. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 44 3.1.2 A premissa irrealista dos fatores não-econômicos. . . . . . . . . . . . . . 46 3.1.3 A abordagem complexa da economia e a lógica da distribuição de renda e riqueza. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 49 3.1.4 Desenvolvimento local e desenvolvimento endógeno. . . . . . . . . . . . 54 3.2 EFEITOS EM CADEIA, EM HIRSCHMAN. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 58 3.2.1 Cadeia produtiva, visão sistêmica e complexidade. . . . . . . . . . . . 59 3.2.2 Efeitos em cadeia. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 61 3.3 AGLOMERADOS (CLUSTERS), EM PORTER. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 75 3.3.1 Espaço e território. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 77 3.3.2 Aglomerados e setores. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 81 3.3.3 Ambiente de negócios e competitividade. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 83 3.3.4 O diamante de Porter. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 85 3.3.5 A competitividade da localidade. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 87 3.3.6 Estratégia coorporativa. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 90 3.3.7 A materialização do valor trabalho no preço pago no mercado . . . 93 3.3.8 Liderança, investimento, compatibilidade e gestão da informação. 97

4 REVISÃO DA LITERATURA. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 100 4.1 COOPERAÇÃO ECONÔMICA E COMPETITIVIDADE. . . . . . . . . . . . . . 100 4.1.1 A divisão do trabalho social e a desumanização da economia. . . . . 103 4.1.2 Cooperação e Competitividade. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 110 4.2 ECONOMIA SOLIDÁRIA. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 124 4.2.1 Breve histórico. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 124 4.2.2 Economia solidária no Brasil. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 127 4.2.3 Conceitos. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 129 4.2.4 Princípios da economia solidária no Brasil . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 133 4.2.5 As dimensões da economia popular e solidária no Brasil. . . . . . . . . 136 4.3 O SETOR TÊXTIL-CONFECÇÕES. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 143 4.3.1 A Cadeia Têxtil-Confecções (CTC) e os mercados. . . . . . . . . . . . . . . 146 4.3.2 A formatação geral da CTC (Cadeia Têxtil-Confecções) . . . . . . . . . . 148 4.3.3 As tendências do mercado têxtil mundial e o Brasil. . . . . . . . . . . . . . 151 4.3.4 A indústria têxtil de confecções e a estratégia de desenvolvimento. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 151 4.3.5 O papel das Pequenas e Micro Empresas (PME’s) e da economia popular solidária na indústria têxtil de confecções. . . . . . . . . . . . . . 152 4.3.6 A indústria têxtil de confecções no Pará. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 156 4.3.7 A questão da moda como fator econômico. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 157 4.3.8 A indústria têxtil de confecções e o potencial dos aglomerados. . . 161 5 O PONTO DE PARTIDA: EMPRESAS SEMELHANTES CONCENTADAS ESPACIALMENTE . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 164

6 A CADEIA VERTICAL: A PARTIR DOS EMPREENDIMENTOS DE CONFECÇÕES E DE ACESSÓRIOS DA ASCOOP . . . . . . . . . . . . . . . . 175

7 A CADEIA HORIZONTAL DE SETORES A PARTIR DOS EMPREENDIMENTOS DE CONFECÇÃO E DE ACESSÓRIOS DA ASCOOP . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

199

8 AS INSTITUIÇÕES DE APOIO AOS EMPREENDIMENTOS . . . . . . . . 216

9 OS ÓRGÃOS REPRESENTATIVOS DOS EMPREENDEDORES . . . . . 223

9.1 O FÓRUM DE EMPREENDEDORES POPULARES E SOLIDÁRIOS DO PARÁ. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 225 9.2 O DESEPARECIMENTO DO BANCO DO POVO . . . . . . . . . . . . . . . . . . 229 9.3 AVANÇOS DA ECONOMIA SOLIDÁRIA. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 231

10 ÓRGÃOS REGULADORES DAS ATIVIDADES ANALISADAS . . . . . . 236

11 A INSERÇÃO DAS EMPRESAS DA ASCOOP NO EMERGENTE AGLOMERADO DA MODA. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 243

12 AGLOMERADO: UMA NOVA ABORDAGEM PARA A SOLIDARIEDADE ECONÔMICA. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 251

13 POLÍTICAS PÚBLICAS PARA O DESENVOLVIMENTO DO AGLOMERADO DE CONFECÇÃO DA ECONOMIA POPULAR E SOLIDÁRIA . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .


263 CONCLUSÃO . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 270

REFERÊNCIAS. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 276

ANEXOS . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 284






1 INTRODUÇÃO

Realidades sem teoria são realidades inexistentes. Ou, quando se trata de realidades sociais, são existentes ‘apenas’ na lide real-concreta dos que as conformam, luta cotidiana que por vezes não tem outro sentido que o da razão imediata e primária da existência enquanto problema de cada um; ou, para os que as observam, existem como representações místicas de outro fantasmagórico, imaterial, obviamente não-igual, reveladamente não-antagônico. Talvez incômodo – como tal, entulho a ser removido. Talvez má presença – a qual se evita, da qual se esconde. No melhor dos tratamentos, um reconhecimento na condição de marginal, seja porque desprezível, seja porque rumo à degradação – lumpen.

Francisco Costa

Este estudo pretende se somar a tantos outros que recentemente têm lançado luzes sobre a realidade de, pelo menos, 20 milhões de brasileiros e brasileiras definidos pelo IBGE como “economia informal”, “trabalhadores por conta própria”, “micro e pequenos empresários”.

Segundo o SEBRAE (2000) – Serviço Brasileiro de Apoio à Pequena e Micro Empresa, este é o único segmento econômico que tem gerado 80% dos postos de trabalho do país – dentre os quais 95% dos novos postos de trabalho – e que movimenta algo em torno de 30% do Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil.

Na Amazônia, os cálculos criteriosos do Prof. Dr. Francisco Costa (ARROYO; SCHUCH, 2006, p.108), ratificam seu peso econômico, estimando uma participação da Economia Popular no PIB da região de 21%. No Pará, 22% do PIB é relativo à esta economia que, por ter pouca visibilidade estatística e sofrer com os preconceitos dos “grandes” tomadores de decisão públicos e privados, padecem com a ausência de políticas públicas adequadas para lhe colocar em sinergia positiva com a economia de escala.

Portanto, um segmento vital para o conjunto da economia que precisa ser tratado adequadamente para que suas potencialidades sejam otimizadas, cumprindo um papel estratégico para a construção de um novo modelo de desenvolvimento que seja justo, solidário e sustentável. Em que o significado de “mercado” se confunda com o de “sociedade”, não se restringindo mais apenas aos que “podem pagar”. Onde a idéia de “riqueza” esteja associada a “distribuição” e não a “acumulação”. Enfim, onde o “trabalho” presida o “capital”. O que coloca a Economia Popular como segmento central para a construção do projeto de Economia Solidária, e esta sim, como solução global.

Aqui propomos compreender a economia a partir de sua unidade atômica, a troca. A troca é um fenômeno humano – que preside inclusive a relação com o meio ambiente. Um processo baseado na identificação de objetivos comuns ou complementares entre as partes e, na confiança de que ambos serão satisfeitos com a troca. Ou seja, comprar e vender significa a mesma coisa: trocar.

Em última instância, a troca envolve o mesmo objetivo dos dois lados: a melhoria da qualidade de vida – claro que segundo as referências de cada um. Daí propormos concluir que a motivação original da interação econômica é a solidariedade: objetivos comuns e confiança.

Acontece que esta motivação original sofreu, e sofre, distorções à medida que as relações humanas deixam de ser livres para se basearem em condições de dominação. O monopólio, e seus derivados, são exemplos de relações econômicas que distorcem o fundamento solidário, obrigando uma das partes a uma condição sem o direito de escolha.

Na Economia Popular, apesar do conjunto do sistema econômico ser hegemonizado por complexas situações de dominação, o principal capital é a credibilidade, em função de quase sempre se tratar de mercados concorrenciais. Na Economia Popular a solidariedade é, portanto, uma forte tendência intrínseca.

Quando nos referimos à Economia Popular estamos tratando de um segmento da economia caracterizado, entre outros aspectos, por negócios que se estruturam a partir do atendimento direto das demandas da população e por estabelecerem giro local – movimentando majoritariamente seus insumos e produtos em um determinado território.

Corroborando com o dinamismo que alimenta as diversas cadeias do aglomerado produtivo local, além de se comunicar com cadeias que extrapolam aquele arranjo econômico estão, por exemplo, a feira, a padaria, a mercearia, a danceteria, a papelaria, a loja de tecidos, a loja de móveis e eletrodomésticos, a costureira, o mecânico, o médico, o professor, a cabeleireira, o taxista, o advogado, a cooperativa etc. todos e todas empreendedores (as) populares que além de gerarem a sua própria inserção na economia, proporcionam a de muitos outros.

Geram uma massa de renda e salários que alimentam o consumo no mesmo bairro, tanto no que diz respeito à parte dos insumos produtivos – já que outra parte importante interage com outros segmentos econômicos incluindo a indústria e a agricultura – quanto em relação aos produtos e serviços ofertados por eles e elas.

Já o termo Economia Solidária tem se colocado com dois significados articulados entre si:

a) segmento econômico formado pelos empreendimentos de base cooperativa em associações, redes, empresas autogestionárias e cooperativas propriamente ditas ou;

b) projeto político-econômico global, erigido sobre a lógica da solidariedade como dimensão fundamentalmente humana que deveria estabelecer o centro ético a partir do qual toda engenharia institucional social, econômica, política e cultural deveria respeitar e reproduzir.

Portanto, neste estudo, pretendemos trabalhar na interface da Economia Popular e da Economia Solidária, denominando-a Economia Popular e Solidária, tal com tem sido adotado por diversos segmentos do Fórum Brasileiro de Economia Solidária.

Para tanto, adotamos como ferramental teórico as categorias de análise de Gunnar Myrdal, Nobel de economia em 1976, principalmente a “Causação Circular Cumultiva”; as de Albert Hirshman, principalmente a “Efeitos em Cadeia (Produtivas)”; e, de Porter, principalmente, “Competitividade” e “Aglomerados Econômicos”. Além, obviamente, do conceito de Economia Solidária, em Paul Singer.

A concentração de renda no Brasil, como fator perverso do crescimento econômico, é hoje um amplo consenso acadêmico e político. Outro consenso, decorrente do primeiro, é que a concentração de renda gera exclusão social, descaracterizando o crescimento (econômico/PIB) como sinônimo de desenvolvimento (humano/IDH).

No entanto, as divergências sobre as causas e as conseqüências destes dois consensos, percebemos, estão polarizadas majoritariamente por três campos do pensamento político-econômico: a) A dos que trabalham com a lógica da tendência ao Equilíbrio Estável, em que as forças de mercado são os protagonistas do processo econômico; b) A dos que trabalham a lógica do Equilíbrio Instável, considerando que as forças do mercado por si, levam às desigualdades e desequilíbrios, demandando permanentes intervenções reguladoras do Estado e a consciência econômica do consumo, sobretudo; e, c) a dos que trabalham a lógica de que é possível uma Sociedade “sem mercado”, já que este seria ontologicamente avesso ao humanismo.

Embora polarizado pelo segundo campo de pensamento, consideramos que há uma discreta tendência a construção de uma síntese possível – menos na academia e bem mais na política. A Economia Solidária é uma das dimensões desta síntese possível.

A Economia Popular é um segmento da economia composto por trabalhadores/empreendedores da economia informal, trabalhadores por conta própria, profissionais liberais, pequenos e micros empresários, de acordo com a nomenclatura adotada pelo IBGE. Portanto, não importando renda nem a situação jurídica do empreendimento, desde que não signifique a quebra do código penal: pirataria, narcotráfico entre outros e, correlatos.

Já a noção de Economia Solidária, implica no Projeto de Sociedade onde a economia se sustentaria majoritariamente a partir de relações econômicas baseadas na cooperação, tanto na produção quanto no consumo, em um contexto de humanização do conjunto das relações mantidas na Sociedade. Enquanto Projeto político, portanto, a Economia Solidária é também movimento social, empenhado pragmaticamente na utilização dos parâmetros e princípios adotados, em práticas cotidianas que já sustentam centenas de milhares de pessoas através do cooperativismo, de empresas auto-gestionárias, associações, redes, grupos entre outras formas de expressão da solidariedade na economia no mundo.

Vale frisar que aqui, “solidariedade”, se diferencia de caridade. Implicando, não em uma relação vertical – entre quem tem e quem não tem – mas, em uma relação horizontal entre sujeitos que se reconhecem e identificam objetivos comuns, partilhando estratégias de sucesso e resultados, equilibradamente (ALAIN CAILLÉ in: MEDEIROS e MARTINS, 2002, p.59).

A Economia Popular e Solidária é o segmento que mais emprega no Brasil, alcançando, por sua capilaridade, 95% dos novos postos de trabalho e 65% da mão de obra efetivamente ocupada no Brasil, segundo SEBRAE e IBGE. Ademais, é aquele que apresenta a menor demanda de capital (os bancos do povo têm gerado trabalho direto a 700 reais cada).

No Brasil, o Sistema Nacional de Informações da Economia Solidária (SIES) do Ministério do Trabalho e Emprego, levantou, considerando estritamente os empreendimentos de produção cooperada, os dados da tabela abaixo: TABELA 1: FORMAS DE ORGANIZAÇÃO DA ECONOMIA SOLIDÁRIA FORMAS DE ORGANIZAÇÃO QUANTIDADE Grupo informal 5.086 Associação 8.281 Cooperativa 1.634 Sociedade mercantil por cotas de responsabilidade limitada 52 Sociedade mercantil em nome coletivo 52 Sociedade mercantil de capital e indústria 101 Outra 113 TOTAL 15.319

     Fonte: SIES, 2005.

Por sua vez, na Amazônia, segundo cálculos de Costa (ARROYO; SCHUCH, 2006, p. 108),

ratificam seu peso econômico, estimando uma participação da Economia Popular no PIB da região de 21%. No Estado do Pará, esta participação atinge 22% do PIB, mas que, por ter pouca visibilidade estatística, sofre com os preconceitos dos “grandes” tomadores de decisão públicos e privados e padecem com a ausência de políticas públicas adequadas para lhe colocar em sinergia positiva com a economia de escala.


No entanto, existem muitos problemas culturais, políticos e econômicos para o resgate da cultura da solidariedade – que não se confunda com caridade. Tal resgate é central para construirmos as condições fundamentais do novo modelo de desenvolvimento, estimulando os formatos associativos entre os empreendedores populares, como cooperativas, associações, fóruns, conselhos, grupos de compra conjunta, clubes de troca etc.

Ademais, o sistema financeiro nacional ainda apresenta muitos óbices para a constituição de um Sistema de Finanças Solidárias, que combine diversos produtos financeiros dirigidos aos empreendedores populares como crédito popular/microcrédito, poupança, seguro, cartão de crédito, troca de cheque etc. é um instrumento indispensável que deve vir umbilicalmente associado à formação e à organização dos empreendedores populares.

Também é ainda muito precária a atenção com a pesquisa que gere tecnologias adequadas à natureza e à escala dos negócios populares, para que os produtos e serviços do segmento ganhem qualidade e competitividade.

A adaptação do instrumental mercadológico também é fundamental para que se tenha parâmetros científicos para dialogar com a cultura de consumo, inserindo novos paradigmas culturais e éticos.

Acima de tudo, são pouco identificadas as cadeias produtivas locais e ocorre uma baixa compreensão da interação destas em arranjos econômicos locais. Assim, torna-se indispensável desenvolver metodologias que considerem o empreendedor popular como sujeito protagonista do processo organizativo econômico e social.

A análise da Economia Popular e Solidária também requer reflexões sobre como os empreendimentos da Economia Popular conseguem sobreviver, e eventualmente até crescer, nas condições dadas para suas operações. A observação direta revelou que há muito a Economia Popular recorre a estratégias de cooperação com empreendedores do mesmo ramo, para superarem barreiras que sozinhos não teriam capacidade. As feiras e outras aglomerações revelam que a partilha do espaço de comercialização, a sinergia na relação com fornecedores e clientes, bem como a atratividade de empreendimentos correlatos e instituições públicas e privadas de assessoria e capacitação, são registros imemoriais de que a aglomeração econômica tem sido uma estratégia vitoriosa. Fato vivenciado desde as primeiras cooperativas da localidade britânica de Rochedale, passando pela mega estrutura cooperativa de Mondragon na Espanha e pela revolucionária iniciativa financeira de Muhamed Yunus, em Bangladesh.

Recentemente, Porter apontou que alguns dos grandes pólos de desenvolvimento na face da Terra apresentam como forte semelhança o fato de que se organizam em “aglomerados”, um sistema no qual as empresas, o governo e outras instituições não governamentais competem, mas, principalmente, cooperam, para a promoção da eficiência. Alguns destes aglomerados seriam o complexo da informática no Vale do Silício, o complexo médico-hospitalar em Boston e o Farmacêutico em New Jersey e New York.

Assim, Porter aponta que a cooperação é um elemento que eleva a competitividade das empresas e, portanto, do sucesso econômico corporativo, o qual possuiria direta relação com a capacidade de promoção da simultaneidade entre esta e a competição. Esta última deveria florescer dentro de um mesmo setor, enquanto a cooperação permitiria inúmeras outras relações ascendentes entre as empresas, entre as empresas e instituições e entre as empresas e o governo.

Em Belém, desenvolveu-se, nos últimos anos, uma série de pequenos empreendimentos da atividade de confecções, com desdobramentos que se anunciam promissoras. No entanto, mesmo assim, para uma avaliação melhor das perspectivas destes negócios e, acima de tudo, para que se venha a elaborar políticas públicas que melhor permitam o sucesso dos mesmos, foi realizada investigação que queria saber se estes empreendimentos de confecção já estariam fazendo parte de um aglomerado, ou “cluster”, como coloca Porter. Assim, a pergunta utilizada por esta pesquisa foi exatamente a seguinte: Existem elementos suficientes para afirmar que os empreendimentos de confecção e acessórios da ASCOOP estão inseridos em um emergente aglomerado da moda, em Belém?

Para nortear a busca da resposta para a indagação desta pesquisa, foi estabelecida como resposta provável, ou hipótese, a seguinte afirmativa: Já haveria elementos suficientes para afirmar que os empreendimentos de confecção e acessórios da ASCOOP participam de um emergente aglomerado da moda, em Belém.

Foi também utilizada uma sub-hipótese que supôs que a não visibilidade e, principalmente, falta de identificação da emergência de um aglomerado da moda pelos órgãos de políticas públicas tem impedido que o governo não esteja apresentando mecanismos de remoção dos obstáculos ao crescimento, portanto, de melhoria deste aglomerado.

Assim, o objetivo geral desta pesquisa foi realizar um estudo exploratório, investigativo/analítico, visando verificar a existência de elementos suficientes para caracterizar que o conjunto de empreendimentos de confecção e acessórios da ASCOOP participa de um emergente aglomerado da moda, em Belém.

E para alcançar tal objetivo foram estabelecidos os seguintes objetivos específicos:

a) caracterizar o conjunto de empreendimentos de confecção popular, em Belém;

b) levantar a cadeia vertical de empresas em relação ao conjunto de empreendimentos de confecção popular, em Belém;

c) levantar os setores correlatos à atividade de confecção popular e solidária;

d) identificar o apoio de instituições governamentais e não governamentais ao conjunto de empreendimentos de confecção popular, em Belém;

e) demonstrar que, claramente, o governo não apoiou, nem buscou iniciativas que permitissem a remoção de obstáculos ao crescimento do aglomerado de confecção popular, em Belém.

Por todos os elementos até aqui levantados, desde a percepção da magnitude que a Economia Popular e Solidária possui na economia nacional e regional, até os impactos que se pode proporcionar através dela sobre o conjunto da sociedade na perspectiva da distribuição de renda, equilíbrio dos fundamentos macroeconômico e na qualidade das relações sociais, políticas e econômicas que travamos, justifica-se a realização de pesquisa sobre a possível conformação de um aglomerado a partir do conjunto de empreendimentos de confecção e moda popular, em Belém.

Também, justifica-se pela novidade do objeto e da abordagem. Um objeto que ainda precisará muito mais esforços para desvelá-lo e torná-lo elemento do cotidiano do conjunto de investigações que de alguma forma de dirigem a contribuir com o desenvolvimento humano. E, uma abordagem inovadora que procura se adaptar às condições originais do objeto ousando assumir riscos metodológicos medidos para poder concluir com máxima simplicidade a cerca de um elemento básico, porém fundamental para oferecer suporte para investigações futuras, digo da constatação da existência do aglomerado de moda em Belém do Pará. Perfil que torna esta iniciativa científica inédita.

Além do autor deste trabalho tomar a economia popular e solidária como a questão central de seu trabalho profissional e militância, entende-se que esta pesquisa pode contribuir para melhor desenhar políticas promovendo a Economia Popular e Solidária, para que, assim, possam ser incluídas nos Plano Plurianual (PPAs), do governo federal e do governo estadual do Pará, não apenas por uma questão moral, mas também por sua competência em incluir pessoas e distribuir renda pela própria via da economia e não pela exclusiva via das políticas sociais com que se trata os segmentos econômicos populares. No entanto, além de uma nova teoria e uma nova estratégia é preciso construir uma nova percepção social da Economia Popular e Solidária.

Neste estudo, foi reforçada, cientificamente, a importância do papel a ser cumprido pela Economia Popular e Solidária para o sucesso do processo de desenvolvimento. Se trabalhada adequadamente em sinergia com outros segmentos, a Economia Popular, urbana e rural, poderá contribuir até mesmo para com as exportações, fortalecendo a moeda e, portanto, equilibrando o câmbio.

O incremento da Economia Popular traz um sincronismo entre a geração de empregos e de produtos/serviços, tendendo a estabelecer uma relação entre oferta e demanda que proporcione o equilíbrio dos preços, evitando a inflação. Portanto, a Economia Popular é uma das peças importantes para melhorar o perfil dos fundamentos macroeconômicos do país.

No entanto, é preciso destacar que a Economia Popular se diferencia de outros segmentos da economia por estabelecer a possibilidade mais nítida de inverter a ordem entre o econômico e o social, ao mesmo tempo em que reforça a relação dialética entre o social e o econômico: o econômico é o social e, ao mesmo tempo, o social é o econômico.

Finalmente, mas não menos importante, a Economia Popular está diretamente ligada à segurança alimentar da população, ao usufruto de direitos básicos, à inserção econômica do cidadão ou cidadã, à conquista de uma vida com dignidade e à melhoria da qualidade de vida.



2 METODOLOGIA

É impossível totalizar pela razão este país. Como alguém poderia explicar teoricamente os acontecimentos que vi?... Em 1959, Celso Furtado publica Formação Econômica do Brasil . Já tinha lido Caio Prado Júnior. Fui ler então Raízes do Brasil, do Sérgio Buarque de Holanda e Casa Grande e Senzala, do Gilberto Freyre. Aí não entendi mais nada, porque tudo era verdade: a nação, a aliança operário-camponesa, os senhorios cordiais, o tropicalismo. Não dá para pensar este país com as categorias européias. O Brasil não suporta teses definitivas, é sempre recorrente: quando se pensa que uma coisa acabou, ela volta. Maria da Conceição Tavares

O presente estudo buscou, através de uma pesquisa exploratória, identificar o fenômeno da “aglomeração”, clusters, em empreendimentos populares e solidários de confecção e assessórios, em Belém do Pará, partindo da teoria dos Aglomerados, de Michael Porter, apoiada pelas teorias da Causação Circular Cumulativa, de Gunnar Myrdal, e dos Efeitos em Cadeia, de Albert Hirshman. Estes estudos são fundamentais para que se possam estabelecer políticas públicas para os referidos empreendimentos, voltadas para a promoção de suas competitividades econômicas e sociais, estas últimas voltadas para a avaliação de suas capacidades de contribuir para a melhoria da qualidade de vida da população local.

A opção pela pesquisa exploratória deveu-se ao fato de que a temática não possui um volume bibliográfico com ampla cobertura do tema, no Brasil, especificamente, sendo seu objeto raramente alvo de pesquisas anteriores, com o mesmo foco, ou seja, o estudo de “aglomerados” rigorosamente de acordo com a teoria de Michael Porter existem um número crescente de estudos utilizando teorias similares, principalmente aquela chamada de “redes” e ainda “arranjos produtivos locais”, daí a caracterização deste estudo como pesquisa exploratória e inédita (apud SELLTIZ et al, 1967, p.63 ). Apesar disto, ousou-se trabalhar com hipóteses definidas, cuja elaboração baseou-se, apenas, na própria metodologia definida por Porter para a “identificação” dos “aglomerados”.

Inspirado em Babbie (1986), entendemos que a pesquisa exploratória, ou estudo exploratório, tem por objetivo conhecer a variável de estudo tal como se apresenta, seu significado e o contexto onde ela se insere. Pressupõe-se que o comportamento econômico é mais bem compreendido no contexto social onde ocorre.

Assim, tem por finalidade evitar que as predisposições não fundadas no repertório que se pretende conhecer influam nas percepções do pesquisador e, conseqüentemente, no instrumento de medida. Não corrigido, este tipo de tendência poderá conduzir o pesquisador a perceber a realidade segundo sua ótica pessoal.

Esta compreensão nos obrigou a ter como objetivo de nossa pesquisa a verificação sistemática, a partir da concentração de empreendimentos semelhantes (confecção e moda popular) da existência ou não de um “aglomerado”, a la Porter. Aliás, assumir a sua existência, mesmo sem estudos comprobatórios anteriores, seria fazer uma investigação a partir de uma simples conjectura, o que esvaziaria qualquer caráter científico do trabalho. Assim, a tarefa principal da pesquisa é a busca da identificação de elementos suficientes para a caracterização do “aglomerado”, o que, dada a rigorosa e detalhada metodologia de Porter, já é, por si, um estudo de muito fôlego, dificuldade agravada pela inexistência de literatura brasileira utilizando, de forma “pura”, tal método. No entanto, a investigação ainda teve fôlego para elaborar, a partir da identificação do “aglomerado”, um capítulo indicando “novos papéis” do governo diante deste fenômeno, particularmente os de elaboração de políticas públicas voltadas para a “remoção dos obstáculos ao crescimento” e para a “melhoria” do aglomerado estudado.

Portanto, o uso da pesquisa exploratória teve por finalidade o refinamento dos dados da pesquisa, aumentando o seu grau de objetividade, tornando-a mais representativa da realidade, ajustando suas percepções à percepção dos entrevistados, sem ser refém absoluto de paradigmas anteriores.

A ousadia deste estudo em tentar desvelar e corroborar teoricamente a respeito do objeto definidor da pesquisa encontra no princípio exploratório, a possibilidade científica de edificar o pensamento lógico do estudo, principalmente quando um fato é reproduzido de forma recorrente e controlado.

Tratar a temática “Estudo da Aglomeração Econômica como Estratégia de Cooperação para a Competitividade de Empreendimentos Populares e Solidários de Confecção em Belém do Pará”, nos levou a empreender caminhos teórico-analíticos que vão para além da causalidade proveniente de um sistema quantificador de pessoas, em que se gerenciam processos de sustentabilidade humana dentro da lógica do acaso econômico do mercado.

Para tanto, sustentar uma pesquisa de empreendimentos econômicos sobre princípios conceitualmente “populares e solidários” também nos remeteu para uma abordagem metodológica qualitativa e quantitativa inovadora, como fonte geradora de entendimentos empírico/analíticos provocadores de compreensões diversas que venham a sustentar o leque das possibilidades com que tratamos o objeto.

Como abordagem qualitativa, podemos apontar o processo de dinamismo e contradições reproduzidas pela realidade imposta no e pelo cotidiano que se impõe, que ora reproduz a realidade, ora parte da atividade prática da totalidade dos fatos, tal como percebidos abstratamente. As contradições reveladoras do conhecimento do fenômeno estudado estão explícitas no seio da própria teoria de Porter (mesmo que a força reveladora das contradições permaneça um processo apenas implícito no texto daquele autor), tais como: insumo / produto; local / global; concentração / dispersão; dentro da empresa / fora da empresa; dentro do setor /fora do setor; unidade de negócios;/ ambiente de negócios; nível microeconômico / nível macroeconômico; privado / público; inovação / imitação; análise vertical / análise horizontal; cadeia vertical / cadeia horizontal; unidade de negócios / órgãos coletivos; urbano / rural; setores tradicionais / setores modernos; aglomerados reconhecidos / aglomerados não reconhecidos; aglomerados de pequenas e micro empresas / aglomerados de médias e grandes empresas e, principalmente, cooperação / competição e colaboradores / competidores.

Entendemos, portanto, que quando constituímos a abordagem qualitativa a pesquisa exploratória torna-se instigadora e propícia a uma práxis reveladora de um cotidiano, intrinsecamente contraditório, permitindo à investigação visualizar o fenômeno em toda sua complexidade.

Portanto, entendimentos como, percepção; significados; processos; trajetórias; percursos; saberes; conhecimentos e práticas gerados qualitativamente vieram engendrar valores substanciais para a revelação do fenômeno causador desta pesquisa.

Oliveira (2005, p.41), aponta a abordagem qualitativa como:

(...) sendo um processo de reflexão e análise da realidade através da utilização de métodos e técnicas para compreensão detalhada do objeto de estudo em seu contexto histórico e / ou segundo sua estruturação.


No caso, mais do que o contexto histórico, tal metodologia apoiou sistematicamente a revelação da classificação dos diversos elementos da realidade, comparada, vis-a-vis, à noção de “aglomerados” de Porter, permitindo inferir se a estrutura empírica se assemelha á estrutura teórica, sem amarras quantitativas e tecnológicas, mas, apenas, como uma busca de semelhanças e dessemelhanças, em diversos graus, em um processo interdisciplinar, não restrito ao jogo de variáveis econômicas e não econômicas, mas apenas variáveis e, acima de tudo, sem um único padrão possível, como irrepreensivelmente aquele autor elabora seus conceitos. Em determinado momento de seu texto “Aglomerado e Competitividade” (1999), Porter afirma que talvez o aspecto mais decisivo do desenvolvimento de um “aglomerado” sejam, até mesmo, as relações pessoais entre os diversos agentes em, uma concentração de empresas e instituições, o que reforça o caráter qualitativo de sua abordagem.

Fazenda (1994) ao se reportar sobre a importância de uma pesquisa qualitativa como fonte de validação de um estudo proposto, diz que: A pesquisa qualitativa descreve-se e determina-se com precisão conceitual rigorosa a essência genérica da percepção ou das espécies subordinadas, como a percepção da coisalidade etc. Mas a generalidade mais elevada está na experiência em geral, no pensamento em geral, e isto torna possível da natureza da coisa. (p.58 )

Ainda segue, esclarecendo que: Na pesquisa qualitativa, uma questão metodológica importante é a que se refere ao fato de que não se pode insistir em procedimentos sistemáticos que possam ser previstos, em que passos ou sucessões como uma escada em direção à generalização. ( idem )

Ao adotar-se a idéia de que economia e sociedade devem ser analisadas sobre pontos de vistas isolados e, portanto, previstas suas ações e influências no campo das relações separadamente, passa-se a deixar de assumir interpretações e posturas equivocadas. Fazenda (1994), quando esclarece o fato em questão sobre a ótica da pesquisa, aponta para o cuidado com estudos generalistas, sem um foco muito claro, um objeto claramente definido, quando o referencial metodológico é a abordagem qualitativa. No caso, a pesquisa teve um único foco, identificar a existência de um determinado tipo de fenômeno e o nível de manifestação do mesmo, se existente.

Com vistas à estruturação dos aspectos qualitativos dispensados ao estudo, buscamos como enfoque a leitura crítica analítico, pois o mesmo ofereceu ao pesquisador subsídios metodológicos que estão pautados em processos de representação social; sócio-histórico, que permitirá emitir ecos que venham ao encontro do objeto que envolve a percepção do fenômeno em estudo: a aglomeração econômica, como estratégia de cooperação para a sobrevivência de empreendimentos populares e solidários de roupas e acessórios em Belém do Pará, condição central desta pesquisa.

Portanto, fazer uma análise histórico-crítica do cotidiano, discutir práticas, refletir trajetórias, cartografar movimentos coletivos, discutir estratégias, propor mudanças etc. passaram a ser o retrato de uma realidade prevista e desejada por quem se utiliza os saberes constituídos por grupos que pretendem alcançar um posicionamento sustentável diante da realidade sócio-econômica.

Tratar o fenômeno da economia sobre o prisma dialético como uma das tendências do estudo da sociedade nos remeteu a contextualizá-lo a partir da aplicação de pesquisas que sustentam o processo dicotômico entre o pensar e o agir, fruto do objeto em questão.

Por outro lado, além de buscarmos suporte teórico ao fenômeno em pesquisa, realizamos complementarmente uma abordagem quantitativa, por entender ser necessário estabelecer uma leitura a partir das informações provindas do campo.

Oliveira (2005), afirma que combinar técnicas de análise qualitativa com as de entendimentos quantitativos: “Proporciona maior nível de credibilidade e validade aos resultados da pesquisa evitando-se, assim, o reducionismo por uma só opção de análise” (P.43-45).

Nesta linha de pensamento, Duffy (1987 apud OLIVEIRA 2005, p. 44) apresenta os seguintes benefícios quanto ao emprego conjunto de técnicas quantitativas e qualitativas na análise de dados:

a) possibilidade de congregar controle dos vieses (pelos métodos quantitativos) com compreensão da perspectiva dos agentes envolvidos no fenômeno (pelos métodos qualitativos); b) possibilidade de congregar identificação de variáveis específicas (pelos métodos quantitativos) com uma visão global do fenômeno (pelos métodos qualitativos); c) possibilidades de completar um conjunto de fatos e causas associadas ao emprego de metodologia quantitativa com uma visão da natureza dinâmica da sociedade; d) possibilidade de enriquecer constatações obtidas sobre condições controladas com dados obtidos dentro do contexto natural de sua ocorrência; e) possibilidade de reafirmar a validade e confiabilidade das descobertas pelo emprego de técnicas diferenciadas.


Sobre o contexto acima citado, percebemos ser coerente e seguro a utilização da combinação de um estudo pautado em concepções oriundas de aspectos quali/quantitativos, por favorecer o processo de fundamentação teórico-prático.

Inicialmente, buscando-se a contextualização do presente estudo, optou-se em um primeiro momento para o encaminhamento metodológico do presente estudo, pela pesquisa bibliográfica ou fontes secundárias, visto que a mesma dá oportunidade para o pesquisador analisar e compreender o objeto de estudo, através do contato direto com o que foi escrito, dito e documentado sobre o assunto em questão, ainda que insuficiente para caracterizar uma teoria da Economia Solidária.

Definida a primeira fase, passou-se então à segunda fase: elaboração de um plano de trabalho. Nesta fase, procurou-se, através de um planejamento prévio, dar sentido à iniciação da pesquisa. Para tanto, buscou-se problematizar com máxima objetividade o tema em questão, ou seja, a existência de elementos suficientes que possam caracterizar a formação de um aglomerado de confecção popular (ACPop), em Belém.

Inquietados com a exigência imposta pelo problema e na necessidade de esclarecê-lo, passamos então à identificação e ao reconhecimento do assunto. Adotamos como método, os critérios estabelecidos por Porter (1999) para a caracterização de aglomerados. Traduzido nos seguintes passos:

a) a identificação das partes constituintes do aglomerado exige que se adote como ponto de partida uma grande empresa ou uma concentração de empresas semelhantes;

b) em seguida, busca-se analisar a montante e a jusante a cadeia vertical de empresas e instituições;


c) nesta etapa são identificados setores horizontais que: utilizam distribuidores comuns; fornecem produtos ou serviços complementares; usam insumos ou tecnologias especializadas semelhantes; Identificar as cadeias horizontais de setores tendo como base o uso de insumos ou tecnologias especializadas semelhantes ou através de outros elos com fornecedores comuns;

d) isolar as instituições que oferecem: qualificações especializadas; tecnologias; informações; capital ou infra-estrutura; órgãos coletivos envolvendo os participantes do aglomerado;


e) procurar as agências governamentais e outros órgãos reguladores que exerçam influências significativas sobre os participantes do aglomerado.

Na pesquisa de campo, visando à aplicação da metodologia para caracterização de aglomerados elaborada por Michael Porter, utilizamos a observação sistemática, entrevistas preparatórias seguidas da elaboração e aplicação de questionários fechados e a realização de entrevistas analíticas abertas como procedimentos metodológicos de coleta de dados.

A partir do conhecimento sobre o objeto, que tem sido observado desde 2001, mesmo antes do início desta pesquisa, definiu-se três grupos para realizar entrevistas que pudessem produzir a estratégia e o conteúdo adequados dos questionários a serem aplicados.

O primeiro grupo, formado por costureiras articuladas formal e informalmente com a ASCOOP (Cooperativa de Confecção de Roupas e Assessórios do Pará – em legalização), que não possuem participação sistemática nos fóruns políticos dos empreendedores popular e solidários embora a eles se filiem. Empreendedoras que fazem a base da cooperativa e que se dedicam diuturnamente ao trabalho de confecção popular, com alguma noção sobre a construção de uma economia de natureza solidária.

O segundo grupo foi formado por empreendedores dirigentes do Fórum de Economia Solidária e do Fórum de Empreendedores Populares e Solidários do Pará. Pessoas com a identidade de empreendedores, mas possuem como principal atividade a coordenação política do movimento de empreendedores populares por uma economia solidária. Sujeitos estratégicos que possuem grande clareza dos propósitos do movimento e dos percalços políticos e econômicos, particularmente no que tange às políticas públicas.

O terceiro grupo abordado foi formado por dirigentes de instituições correlatas, públicas e particulares que têm atuado nos últimos três anos, no mínimo, prestando assessorias de diversas naturezas aos movimentos de economia solidária e aos empreendimentos solidários.

O roteiro-base das entrevistas, que foi comum aos três grupos, foi composto por três questões fundamentais:

a) a caracterização das relações mantidas com / entre os elos da cadeia;

b) a caracterização do impacto econômico vertical e horizontal (correlato), particularmente sobre a geração de ocupações econômicas;

c) a percepção da aglomeração como estratégia de competitividade, sobretudo em sua dimensão econômica e política, particularmente às políticas públicas.

Com o apurado nas entrevistas formulamos quatro questionários semi-abertos específicos por segmento:

a) atores centrais da atividade da confecção de caráter popular e solidária, bem como;

b) fornecedores;


c) clientes mais importantes;

d) empreendimentos e instituições correlatas – relações horizontais.

Após análise do material coletado por estes questionários foram elaboradas e realizadas três entrevistas analíticas abertas com personagens estrategicamente posicionados na observação do objeto, principalmente por sua posição profissional e/ou acadêmica e que possuem grande poder de análise e síntese sobre o mesmo. Com estes, partilhou-se os dados coletados e foram auscultadas impressões que foram incorporadas no bojo do capítulo de análises.

A observação direta foi realizada na ASCOOP – Cooperativa de Roupas e Acessórios do Pará. Criada em 2003, a partir de uma associação denominada Associação de Empreendedores Populares de Confecção e Acessórios do Pará (ASCAPA), formada em 2001, que se estabeleceu com o objetivo de reunir empreendedores já em atividade, em uma experiência de economia solidária, a ASCOOP possui 46 associados e está organizada em 3 pólos:

a) Pólo Sede (Água Cristal, Marambaia) 20 cooperados;

b) Pólo Tapanã 14 cooperados;


c) Pólo Sacramenta 12 cooperados.

Figura 1: Mapa da atuação da ASCOOP e pólos, em Belém do Pará, maio de 2007.

Além da observação de elementos que pudessem caracterizar o ACPop, trabalhou-se com os seguintes pontos na observação:

• as estratégias utilizadas para a organização do processo de aglomeração pelos empreendedores;

• os momentos em que as relações de cooperação para a competitividade, entre os empreendedores, acontecem e como se dão;

• os entraves no processo de cooperação para a competitividade em empreendimentos populares.

No processo de aplicação dos questionários aos empreendedores da ASCOOP, foram entrevistados 100% da base da cooperativa, quarenta e seis empreendedoras/es, sendo vinte no pólo sede, 14 no pólo Tapanã e 12 no Pólo Sacramenta, que compõem a cooperativa estudada. O modelo de questionário semi-aberto, buscou conduzir o processo de forma a permitir flexibilidades quando criteriosamente necessárias.

Alguns dos principais pontos dos questionários foram: 

• Percepção da cadeia, da aglomeração, e seus efeitos Análise dos elementos de caracterização de Aglomerado • Utilização da cooperação como estratégia de competitividade – Impactos na Renda e geração de ocupação econômica Cultura da Cooperação como prática recorrente para auferir competitividade • Acesso a recursos institucionais e Políticas públicas Conformação de Capital Social • Perfil de ocupação econômica e faturamento bruto na atividade empreendida isoladamente Perfil Econômico dos Agentes envolvidos

Este mesmo arcabouço, ajustado para a especificidade de cada segmento foi aplicado em:  62 clientes da confecção popular, sendo 32 consumidores individuais, 17 pequenos/as lojistas e 13 feirantes/camelôs;

 9 fornecedores da confecção popular, sendo 4 de tecidos, 3 de máquinas e 2 de armarinho;


 45 correlatos da confecção popular, sendo 33 empreendimentos, 6 instituições públicas e 6 instituições particulares.

Os dados foram tabulados e daí gerados os gráficos que estão integralmente no capítulo de resultados deste estudo, a disposição para uma leitura mais detalhada.









3 TEORIA DE BASE

Ao que tem, se lhe dará e terá em abundância, mas ao que não tem será tirado até mesmo o que tem. Mateus, Cap. 13, vs 12.


3.1 A CAUSAÇÃO CIRCULAR ACUMULATIVA E OS FATORES NÃO-ECONÔMICOS EM MYRDAL

Já na primeira frase da introdução de A Riqueza das Nações, Adam Smith argumenta que é “O trabalho anual de cada nação (que) constitui o fundo que originalmente lhe fornece todos os bens necessários.” (SMITH, 1988).

E segue afirmando, que: essa proporção deve em cada nação ser regulada ou determinada por duas circunstâncias diferentes; primeiro, pela habilidade, destreza e bom senso com os quais seu trabalho for geralmente executado; em segundo lugar, pela proporção entre o número dos que executam trabalho útil(à sociedade) e o dos que não executam tal trabalho. Qualquer que seja o solo, o clima ou a extensão do território de uma determinada nação, a abundância ou escassez do montante anual de bens que disporá, nessa situação específica, dependerá necessariamente das duas circunstâncias que acabamos de mencionar.(SMITH, 1988, p 11)

Considerando que a introdução de uma obra é, quase sempre, a última coisa escrita pelo autor, pois terá que se referir ao que foi escrito, é razoável supor que apresente nela, com alta densidade, o seja, o cerne de seu pensamento. Se for assim, já seria algo surpreendente que ao se referir à riqueza das nações, o “pai do capitalismo” não mencione o capital com a importância com que se refere ao trabalho. Ou, que considere que o único capital, de fato, gerador de riqueza seja o “capital” trabalho – capaz de gerar a produção necessária para satisfazer os que trabalham e os que não trabalham, embora estes muitas vezes consumam “a produção correspondente a 10 ou até 100 vezes a que é consumida pela maior parte dos que trabalham”, como ilustrou Smith, que nunca esteve no Brasil.

No entanto, para amenizar os riscos de interpretação, a leitura plena do conjunto da obra que fizemos, ratifica o destaque dado para o papel central do trabalho em sua teoria.

Se isso não bastasse, as obras de autores, fortemente influenciados por Smith, da estatura de Ricardo (1982, p 39) e Marx (1859), desenvolvem teses a partir do mesmo ponto em comum. Trata-se da idéia de que a partida para a acumulação de capital implica na prévia acumulação de trabalho, tanto na forma de trabalhadores organizados produtivamente, contratados ou cooperados, quanto na forma de conhecimento concentrado da tecnologia embutido nos equipamentos e metodologias produtivas.

Não pode haver produção sem um instrumento de produção, nem que seja simplesmente a mão; não pode haver produção sem haver um trabalho acumulado no passado, mesmo que esse trabalho consista na habilidade que, pelo exercício repetido, se desenvolveu e concentrou na mão do selvagem. O capital também é um instrumento de produção; o capital também é um trabalho passado, objetivado. (MARX, 1859 p. 6/7)

As construções teóricas que daí decorrem, tanto na obra do próprio Marx, como na de pensadores como Weber, Gramsci, Foucault e Habermas, para não mencionar os economistas, entre tantos outros da mesma magnitude, trabalham com a lógica de que se é o trabalho a “mola mestra” da riqueza, da acumulação de capital e da melhoria da qualidade de vida dos indivíduos, grupos sociais e nações, e, se o fenômeno do trabalho é intrínseco ao trabalhador, logo estamos tratando de gente, seres Humanos.

Isso nos remete a pensar que o processo econômico é apenas uma das dimensões do amalgama humano, que se consolida com a própria vida, vida esta, em sociedade, portanto, parte inseparável de um conjunto, interagindo permanentemente com processos sociológicos, antropológicos - cultura, linguagem e política sobretudo, psicológicos, além dos processos biológicos e ecológicos que ambientam a existência humana.

Vale ressaltar, que todas essas dimensões que compõem o todo do ser humano, não podem ser tratadas com cunho meramente didático-metodológico, já que no processo de geração de conhecimento, a estanquização em qualquer das referidas áreas, distorce e parcializa a realidade.

Desta forma, apontando para o consumo, Marx afirma:

...na medida em que o consumo cria a necessidade de uma nova produção, por conseguinte, a condição subjetiva é o móbil interno da produção, a qual é o seu pressuposto. O consumo motiva a produção e cria também o objeto que, ao atuar sobre ela, vai determinar a sua finalidade. Verdade que a produção fornece, no seu aspecto manifesto, o objeto do consumo; mas também é evidente que o consumo fornece, na sua forma ideal, o objeto da produção; este surge na forma de imagem interior, de necessidade, de impulso e finalidade. O consumo cria os objetos da produção, mas sob uma forma ainda subjetiva. Sem necessidade não há produção; ora, o consumo reproduz as necessidades. (1859, p. 10)

Marx enfatiza, ainda, o caráter subjetivo, histórico e cultural das “necessidades” em sua Teoria do Valor.

Em flagrante contraste com a materialidade palpável da mercadoria, não existe um único átomo de matéria que entre no seu valor. Podemos, pois, dar voltas e mais voltas a uma certa mercadoria: enquanto objeto de valor, ela permanecerá inapreensível. No entanto, se nos recordarmos que as mercadorias só possuem valor enquanto são expressão da mesma unidade social - trabalho humano -, que, portanto, o valor das mercadorias é uma realidade puramente social, torna-se evidente que essa realidade social também só se pode manifestar nas transações sociais, nas relações das mercadorias umas com as outras. (MARX, 1859, p.8)

Para não restar dúvidas dos desdobramentos econômicos possíveis do que estamos tratando recorremos a Keynes e sua lei psicológica da expectativa dos agentes econômicos. Embutida, por exemplo, na categoria “propensão marginal a consumir” que implica na decisão dos agentes para alcançar um resultado futuro esperado, baseado em fatos apenas como histórico, e limitado à percepção/informação subjetiva do porvir. Efeito que, no entanto, segundo Keynes, perde importância à medida que se trabalha com decisões no curto prazo.

(ii) Dada a psicologia confusa que frequentemente prevalece (no mercado), o programa do Governo pode, através de seus efeitos sobre a ‘confiança’, aumentar a preferência pela liquidez ou diminuir a eficiência marginal do capital, o que também contribui para retardar outros investimentos se não houver medidas que o contrabalancem. (KEYNES, 1988, p. 91)

É neste sentido que trabalharemos com o nosso primeiro pilar teórico. Gunnar Myrdal, 1898/1987, economista sueco premiado com o Prêmio Nobel de Economia em 1974 (dividido com Friedrich Hayek), por sua “teoria da moeda e flutuações econômicas e pela análise da interdependência dos fenômenos econômicos, sociais e institucionais", destacando os fatores até então tidos como “não-econômicos” – contribuição ainda de grande atualidade.


3.1.1 Equilíbrio dinâmico: a circularidade espiral da interação dos vetores econômicos

A inovadora teoria do desenvolvimento de Myrdal, parti da constatação empírica de que efetivamente os países ricos, mais ricos ficam e os mais pobres, mais pobres ficam. Sintetizando o diagnóstico da seguinte maneira:

a) que há um grupo pequeno de países prósperos e um grupo muito grande de países extremamente pobres. b) que, em geral, os países do primeiro grupo se encontram em processo de desenvolvimento econômico contínuo, enquanto no segundo o progresso médio é mais lento, uma vez que muitos países estão sob ameaça permanente de não poderem sair da estagnação e até mesmo de retrogradarem; c) que, de modo geral, nas últimas décadas, as desigualdades econômicas entre os países desenvolvidos e os subdesenvolvidos têm aumentado. (MYRDAL, 1965, p. 23)

Myrdal, constata ainda que após a II Guerra Mundial muito países deixaram a condição de colônia e, alcançando a liberdade passaram a buscar igualdade de oportunidades – juntando-se ao grupo de nações que já postulavam por isso antes da grande guerra. Este processo, que ficou conhecido como “Grande despertar” trouxe à pauta global o tema do desenvolvimento econômico. Por causa deste movimento, os países pobres deixaram de ser classificados como “atrasados” e passaram a ser considerados “subdesenvolvidos” e, mais recentemente “em desenvolvimento”.


O significativo desta mudança não é o termo e sim o conceito. Do conceito estático de “atrasado” migrou-se para um conceito mais dinâmico como “subdesenvolvido” ou “em desenvolvimento” – o termo mais usado atualmente, “emergentes”, embora seja aplicado a um número bem mais restrito de países, ratifica a tendência do sentido do conceito. O sentido de que se trata de uma condição transitória ou, pelo menos, superável.

O uso do conceito ‘países subdesenvolvidos’ envolve o juízo de valor de que a política governamental dos países assim designados deva ser orientada no sentido do desenvolvimento econômico. É com essa conotação que se usa o termo nos países mais pobres e se impõe seu uso nos países mais ricos. (MYRDAL, 1965 p. 25/26)

Corajoso, Myrdal denuncia que a Teoria do Comércio Internacional, bem como a teoria econômica em geral, de seu tempo, por não tratarem da questão do desenvolvimento, não servem para explicar as relações de causa e efeito que geram as grandes desigualdades econômicas entre as nações, e muito menos para explicar porque esta desigualdade se aprofunda ainda nos dias de hoje.

A denúncia recai sobre a noção de “equilíbrio estável”. De que o sistema econômico possui uma tendência imanente ao equilíbrio, ainda que as perturbações sobre ele o retardem. Induzindo a duas leituras mais visitadas: a) a de que a desigualdade é passageira e, portanto, será superada naturalmente pela tal tendência ao equilíbrio estável sem que seja necessário intervir para induzir, “de fora” ou “de cima” se referindo ao Estado, a superação do quadro de pobreza. B) A desigualdade faz parte do equilíbrio global e é o custo indesejado para que, pelo menos parte da humanidade possa desfrutar das condições de gerar o ótimo da humanidade para que estes avanços possam ser repassados aos poucos aos demais que sobreviverem.

Curioso é que estas duas interpretações se depreendem da retomada neoliberal liderada academicamente pelo mesmo Hayek, com quem Myrdal dividiu o prêmio Nobel em sua controvertida edição de 1974. Hayek foi autor de The Socialist Calculation: the competitive solution onde fundamentou a falência da opção comunista e sustentou a supremacia do mercado no auge da guerra fria.

Em nossa tradição, a pressuposição do equilíbrio estável tem-se tornado uma forma de pensamento geral: aliás, esse conceito é a essência do ponto de vista que está ligado à existência de uma teoria econômica única e básica... mostro que essa noção está impregnada de intenção teleológica e se relaciona com poderosas preferências, todas radicadas fortemente nas tradições da teoria econômica desde a sua primitiva origem e nas filosofias que foram e continuam a ser a base lógica dessa teoria. (MYRDAL, 1965, p. 28)


3.1.2 A premissa irrealista dos fatores não-econômicos

A premissa irrealista da tendência ao equilíbrio estável da economia, como cunhou Myrdal (1965, p.27), conduz a uma metodologia de análise que especifica determinados fatores como “econômicos” pressupondo que estes são suficientes para entender e explicar o funcionamento do sistema econômico.

A imperfeição desta metodologia fez surgir uma categoria complementar para tentar dar conta da realidade, os chamados “fatores não-econômicos”. É precisamente no âmbito dessa grande parte da realidade social que a análise econômica deixa de fora pela abstração dos fatores “não-econômicos”, que a premissa do equilíbrio cai por terra. Esses fatores não-econômicos não podem ser tidos como consumados e estáticos; as suas reações se fazem normalmente por meio de desequilíbrios... A análise realista de problemas nunca se pode deter nessas linhas demarcatórias... A distinção entre fatores “econômicos” e “não-econômicos” é, de fato, um artifício inútil e absurdo do ponto de vista da lógica. (MYRDAL, 1965, p. 28)

Para Myrdal, o recomendável como metodologia de análise da realidade econômica e social é a articulação do conjunto das ciências sociais, hierarquizando os fatores quanto à relevância dos mesmos em relação ao fato estudado, seja de que origem o conhecimento for.

Aplicando esta visão metodológica, Myrdal considera as referências ao círculo vicioso de determinadas situações de desenvolvimento, particularmente as que envolvem a relação recíproca entre saúde e pobreza. Evoluindo no conceito, Myrdal apresentou o Princípio da Causação Circular e Acumulativa apoiando-se na conferência do Prof. Ragnar Nurkse, proferida em 1952:

(...)um homem pobre talvez não tenha o bastante para comer; sendo subnutrido, sua saúde será fraca; sendo fraco, sua capacidade de trabalho será baixa, o que significa que será pobre, o que, por sua vez, implica dizer que não terá o suficiente para comer; e assim por diante. Uma situação dessas, aplicada a todo um país, pode reduzir-se a uma proposição truística: um país é pobre porque é pobre. (MYRDAL, 1965, p. 32)

O processo espiral acumulativo da causação circular pode ser positivo ou negativo, resultando em desigualdades entre regiões com processos contemporâneos de desenvolvimento porém diferentes em sinal, magnitude e/ou velocidade.

Mais uma vez, aqui, a idéia de que o sistema econômico tende ao equilíbrio e a estabilização pelas próprias forças do mercado é vencida pela constatação empírica de que na história das nações, fatores negativos combinam-se com fatores negativos acumulando negatividade ainda maior, ocorrendo o oposto se o sinal for positivo. Ou seja, a ocorrência de uma perturbação negativa no sistema econômico não gera uma reação em direção oposta – como poderia se supor partindo de situações microeconômicas específicas envolvendo oferta e procura. em situação de concorrência perfeita. Na prática, o que ocorre é que a combinação de fatores tende ao aprofundamento ainda mais e, mais rapidamente, do quadro econômico, se positivo ou negativo. Na prática, a teoria é outra, a teoria da Causação Circular Acumulativa. Ou seja, a conquista do equilíbrio do sistema econômico, nunca foi e, provavelmente não será, obra “natural” e exclusiva das forças do mercado. As forças do mercado para concorrerem ao equilíbrio econômico necessitam determinados estímulos e regulações.

É possível que se dêem mudanças exógenas com a direção e a força necessárias para estabilizarem o sistema. ...(em uma) posição, além disso, instável. Qualquer nova mudança exógena iniciará por sua vez, um processo acumulativo, que se moverá a partir dessa posição, em direção de posterior mudança... Por outro lado, é possível atingir posição estável mediante interferências políticas planejadas e aplicadas com a intenção de sustar (ou acelerar, ou corrigir) o movimento. (MYRDAL, 1965, p. 34)

Aplicando estes conceitos no estudo sobre “O Problema do Negro nos EUA, Myrdal constata que a discriminação racial interage com o processo histórico que os trouxe àquela sociedade na condição de egressos da escravidão, combinando o preconceito racial com o social. Os negros americanos, tal como no Brasil, foram ainda deserdados pelo sistema econômico que, por sua vez, interagiu perversamente com o processo político que resultou em sua abolição – majoritariamente em função dos compromissos assumidos pelas elites brancas do norte, para atraí-los como força de combate na Guerra de Secessão. Com isso, os negros passaram a formar a ampla maioria das camadas empobrecidas e segregadas da sociedade americana.

(...) o baixo padrão de vida dos negros é mantido pela discriminação dos brancos, enquanto, por outro lado, a pobreza, a ignorância, a superstição, as más condições de habitação, as deficiências sanitárias, a sujeira, o mau cheiro, a indisciplina, a instabilidade nas relações familiares e a criminalidade dos negros, estimulam e alimentam a antipatia dos brancos... O preconceito dos brancos e o baixo padrão de vida dos negros são, reciprocamente, causa e efeito. (MYRDAL, 1965, p. 38)

A sucinta descrição da causação circular cumulativa acima, encaixa-se como uma luva, para descrever o processo em que se dá a relação entre ricos e pobres no Brasil – de cunho ligeiramente mais social do que racial, dada nossa história e composição étnica (RIBEIRO, 1995).

Realidade atual que, adianto, subjaz ao ambiente em que encontramos o objeto deste trabalho entre as cooperativas populares de Belém aqui estudadas.

Ao se referir a “qualidade de vida”, Myrdal refere-se a um conjunto de variáveis que se inter-relacionam cumulativamente fundindo processos sociais, econômicos, políticos, ambientais e culturais, pelo menos: emprego, salário médio, moradia, alimentação, vestuário, saúde, educação, estabilidade nas relações familiares, responsabilidade social e legal, anseio, valores éticos e morais etc.

Aqui começa a fazer sentido a referência de Adam Smith a “habilidade, destreza e bom senso”, na citação supra. Bem como a de Marx quando afirma que “o consumo cria a necessidade de uma nova produção, por conseguinte, a condição subjetiva é o móbil interno da produção” ou quando diz, sobre a mercadoria, que “não existe um único átomo de matéria que entre no seu valor” (supracitado). Ou ainda, quando Keynes apresenta sua solução macroeconômica à Grande Crise, baseado na “teoria da expectativa”. Ou seja, não faltaram pistas e advertências dos pensadores originais, diversos no tempo e nas ideologias, quanto à complexidade e transdisciplinaridade do fenômeno econômico.

(...) as “atitudes” em geral sempre são fenômenos multicausais: uma combinação de crenças, verdadeiras e falsas, e os mais diversos juízos de valor. E, como fenômeno multicausal, é igualmente instável. (MYRDAL, 1965, p.39).



3.1.3 A abordagem complexa da economia e a lógica da distribuição de renda e riqueza

Há crenças, verdadeiras e falsas, em relação às variáveis e estatísticas adotadas cientificamente. Portanto, se há uma componente subjetiva, ainda que minoritária, na percepção e escolha da metodologia e das variáveis usadas para explicar uma dada realidade pelo cientista, é preciso lê-lo em seu contexto histórico, geográfico, político e cultural. Assim é Myrdal, para quem,

o ideal científico não consiste em decompor os fatores em seus elementos e organizá-los deste modo, mas em dar a cada a cada um deles as medidas quantitativas de sua capacidade de influenciar os outros e de ser influenciado pelas mudanças dos demais elementos dentro do sistema ou por mudanças nas forças exógenas. (MYRDAL, 1965, p. 41)

Com isso, a abordagem científica do problema também passa a fazer parte do composto estratégico de um determinado modelo de desenvolvimento.

Quanto mais conhecermos a maneira pela qual os diferentes fatores se interrelacionam – os efeitos que a mudança primária de cada fator provocará em todos os outros – mais seremos capazes de estabelecer os meios de obter a maximização dos resultados de determinado esforço político, destinado a mover e alterar o sistema social. (MYRDAL, 1965, p. 43)

Essa amplitude de visão, permite conexões inéditas entre os fenômenos econômicos, políticos e sócio-culturais. “Fenômeno” no sentido kantiano do termo, que revela que a teoria é capaz de motivar os decisores transformadores, públicos e privados, ao novo. E, se for capaz de gerar políticas cujos efeitos finais tenham magnitude muito maior do que os custos das reformas poderão, de fato, alavancar mudanças substantivas e sustentáveis.

Esta mesma amplitude de visão nos brinda com uma percepção, mesmo hoje, genial, em que:

obaixo status do negro (americano) é, por exemplo, tremendo desperdício que se perpetua a si mesmo; o baixo padrão educacional conduz à diminuta produtividade, à deficiência de saúde e rendas reduzidas, estas, por sua vez, deprimem os níveis educacionais, e assim por diante...o custo da melhoria do status do negro não importa em “custo real líquido”, mas, ao contrário, resulta em grandes “ganhos sociais” para a sociedade. (MYRDAL, 1965, p. 43)

A colocação do observador neste novo ângulo de abordagem do problema econômico, inspira a percebermos a pobreza, nos dias de hoje, como elemento sistêmico e fator de instabilidade política e social, além de redutor da qualidade de vida de qualquer indivíduo nesta sociedade, seja de que faixa de renda for.

A questão da segurança, que segundo o IBOPE(2007), é hoje o centro das preocupações entre os brasileiros, e a questão ambiental da poluição e endemias, estão diretamente ligados a questão da pobreza. Ainda que em graus diferentes, estes fatores depreciam a qualidade de vida de todos. A poluição e as endemias afetam a todos, embora prejudiquem mais os mais pobres. Já a violência, ameaça a todos, mas tem vitimado mais a classe média alta e alta – não só pela consumação da violência em si, mas pelo custo crescente com segurança, a perda de mobilidade e privacidade dos que, por exemplo, contratam guarda-costas.

A pobreza, ao contrário da riqueza que neste sistema econômico, concentra-se cada vez mais , distribui seus efeitos por toda a sociedade, embora de maneira obviamente desigual. Dentre os meios de distribuição, podemos destacar os seguintes:

a) além da baixa qualidade da mão-de-obra reduzir a produtividade e a lucratividade dos empresários, a pobreza reduz a qualidade de vida dos consumidores, principalmente com produtos e serviços (atendimento, por exemplo) aquém do desejado;

b) as demandas sociais por políticas públicas, geradas pelas condições da pobreza, oneram o erário público que pressiona a tributação, cujo aumento, mesmo que seja apenas repassado, totalmente ou parcialmente, pelo empresário ao consumidor, o prejudica porque reprime o consumo pelo aumento de preços, diminuindo faturamento;

c) a pressão sobre os fundos públicos para o atendimento de políticas sociais, diminui os investimentos em infra-estrutura e outros incentivos básicos à atividade produtiva, contribuindo para a perda de competitividade do conjunto da nação;

d) a exclusão de milhões de pessoas do mercado pelo processo de empobrecimento forçado pelo sistema econômico que temos, desestimula a entrada de capitais, diminuindo ainda mais os capitais disponíveis para investimentos produtivos;

e) as condições gerais da pobreza, particularmente a baixa renda, baixa escolaridade, insalubridade e desagregação familiar, combinadas cumulativamente, constroem o ambiente fértil da corrupção política e do crime comum e organizado que a todos e todas afeta de alguma forma, seja pela penetração incontida das drogas, principalmente entre jovens das camadas mais abastadas, pelo aliciamento para o tráfico, pela prostituição ou pelas quadrilhas que se formam para subtrair o patrimônio público;

f) assim, de volta às políticas públicas, assistimos, na sucessão dos governos, a decrepitude de um Estado que agoniza com respostas parciais às demandas da sociedade;

g) a generalizada sensação de insegurança, quer pelo desemprego quer pela violência, entre outros fatores, interage com a cultura individualista do sistema filosófico-econômico que temos, reduzindo as expectativas para o curtíssimo prazo, apequenando os horizontes das estratégias políticas e de desenvolvimento em função da busca por resultados imediatos;

h) a generalização da insegurança se estende para as relações institucionais e individuais submetendo-as a tendência de supor a má intenção do outro como justificativa prejudica-lo primeiro, rebaixando as expressões de solidariedade em volume e qualidade;

i) a baixa da tendência à cooperação – que, veremos, está sendo contrariada por ação consciente por grupos sociais crescentes – induz, por sua vez, à exacerbação da desconfiança como primeiro parâmetro, dos relacionamentos utilitários, do imediatismo, do consumismo como compensação para desequilíbrios emocionais e da perda de valores fundamentais como a própria vida, que se têm espalhado pelo conjunto da sociedade e ganhado as páginas policiais com um número crescente de indivíduos de classe média e alta que se envolvem em crimes, não mais por carência material. (...) temos o dever indiscutível de libertar de preconceitos não apenas nosso pensamento, mas também o do público em geral. (MYRDAL, 1965, p. 45)

Os “homens práticos” já se libertaram da teoria do equilíbrio estável, sustentáculo da doutrina liberal, nas questões monetárias, particularmente desde Keynes (que os observou), e sobrevivido ao neoliberalismo. Precisamos nos livrar do preconceito que exclui milhões dos nossos, diminuindo nossa capacidade produtiva.

A solução proposta por esta teoria, que por aqui já vimos ao longo das décadas de 80 e 90 explicitamente através do receituário do FMI (Fundo Monetário Internacional) para os países como o Brasil – baseado, sobretudo, nos sacrifícios internos, como a meta de superávit, mais recentemente –, é a de que as nações empobrecidas em função de processos históricos coloniais, portanto “exógenos”, agora têm que reverter sua condição a partir de sua própria capacidade de poupança e competitividade produtivo-tecnológica, sem tocar em um tostão das obrigações com suas dívidas, aí sim, assumidamente, externas.

A ilustração sobre isso feita por Myrdal, lembra a situação em que o Barão de Munchausen – personagem de Terry Gilliam e Charles McKeown, baseado em livro de Rudolph Eric Raspe, imortalizado no cinema em 1988 – ao se ver afogando, salva-se a si próprio, puxando-se pelos próprios cabelos.

A impossibilidade da estratégia de Munchausen, na questão econômica, está na base dos processos que geram a desigualdade entre as nações e, no seio destas. As desigualdades econômicas regionais em um país, que implicam no princípio da interdependência entre o conjunto das relações sociais, é circular e cumulativa, dentro do contexto da causação circular formando “círculos virtuosos” (MYRDAL, 1965) ou, no sentido oposto círculos virtuosos. Mas, para que esta segunda situação ocorra é necessário que haja regulação ético-jurídica e a elevação de uma cultura política que faça da ação cidadã cotidiana um propulsor da qualidade dos serviços públicos em suas mais diversas funções.

Contudo, é preciso deixar claro que neste circuito dendrítico das relações sócio-culturais e político-econômicas, as forças do mercado – produtores e consumidores – possuem papel central no processo de desenvolvimento. A iniciativa particular, sem ônus à sociedade, de articular, reunir e organizar produtivamente capital humano, social e financeiro para a abertura de um empreendimento, de qualquer dimensão, tende a gerar diversos potenciais atrativos como trabalho, emprego, outras oportunidades de negócio, aumento de poder aquisitivo, novos investimentos e mais produção, mobilizando infra-estrutura, qualificação profissional e melhoria da qualidade de vida em geral no território em que está situada economicamente – e não apenas, fisicamente.

No entanto, estas mesmas forças de mercado, por suas “imperfeições” como dizem os neoclássicos, na medida em que a energia produtiva gira no circuito social, por sua assimetria específica, vai acumulando em alguns pontos e rareando em outros, acabando por reproduzir diferenças e desigualdades. A principal idéia, que desejo veicular, é que o jogo das forças do mercado tende, em geral, a aumentar e não a diminuir as desigualdades regionais (MYRDAL, 1965, p.51)

Neste ponto, a questão da localidade econômica ganha especial relevância e remete a uma brevíssima digressão histórica do caso brasileiro: Vivemos no país, ainda hoje, dois grandes dinamismos sócio-econômicos distintos: o do Norte-Nordeste-Centro-Oeste e, o do Sul-Sudeste – ambos com diferenciações internas que aqui não serão tratadas para enfatizarmos as desigualdades e suas premissas históricas.

O primeiro dinamismo regional, marcado por uma baixa atratividade econômica, grosso modo, crescente em longitude e decrescente em latitude, baixo IDH e alta emigração. O segundo, marcado por alta atratividade de investimentos, IDH relativo entre as nações desenvolvidas e alta imigração.


3.1.4 Desenvolvimento local e desenvolvimento endógeno

O conceito de “localidade econômica” ganha relevância para além das peculiaridades naturais com potencial econômico, que eventualmente possua. Cada vez mais, interpretamos que, o conceito de localidade se coloca como o ponto de encontro entre os fatores que giram no circuito da causação circular cumulativa – no seio do qual interagem sinergicamente vetores externos e internos – conceito que tende a se flexibilizar geograficamente com o avanço da globalização e da integração do comércio virtual, via internet, por exemplo.

Em paralelo, atualmente, o conceito de desenvolvimento endógeno, tem sido trabalhado como possibilidade de articulação de vetores para a superação da desigualdade regional, partindo das potencialidades internas, sem abrir mão das interações estratégicas com fatores exógenos.

Las empresas compiten en los mercados juntamente con el entorno productivo e institucional del que forman parte. Por ello, puede hablarse de la competencia entre las ciudades y regiones, y de que la división internacional del trabajo es un fenómeno urbano y regional. La mejora de la productividad y competitividad de las ciudades depende de la introducción de innovaciones en las empresas, de la flexibilidad y organización del sistema productivo, y de la existencia de instituciones que favorecen el funcionamiento de los mercados. La formación de redes de empresas, la introducción de formas más flexibles de organización de las grandes empresas y la externalización de los sistemas de producción han permitido mejorar la productividad y competitividad de las ciudades y regiones urbanas innovadoras. (VASQUEZ BARQUERO, 2001, p. 3)

Destacamos aqui a menção a organizações flexíveis e redes de empresas, principalmente como inovação produtiva, embora de caráter gerencial ampliando a noção do conceito, até aqui muito apegado, em sua utilização mais comum, à estruturas e equipamentos físicos. Também consideramos ser muito importante perceber a contribuição deste tipo de inovação para a competitividade do empreendimento e da região – chamando especial atenção para a introdução do elemento “cooperação” que é feita a partir da idéia de redes, conforme a citação acima. El desarrollo económico se produce como consecuencia de la utilización del potencial y del excedente generado localmente y la atracción, eventualmente, de recursos externos, así como de la incorporación de las economías externas ocultas en los procesos productivos. Para neutralizar las tendencias al estado estacionario es preciso activar los factores determinantes de los procesos de acumulación de capital, como son la creación y difusión de las innovaciones en el sistema productivo, la organización flexible de la producción, la generación de economías de aglomeración y de diversidad en las ciudades y el desarrollo de las instituciones. (VASQUEZ BARQUERO, 2001, p.5)

Consideramos importante a associação do conceito da causação circular (MYRDAL, 1969), com o do desenvolvimento endógeno (BARQUERO, 2001) e o da inovação (SCHUMPETER,1982) para que se visualize operacionalmente tanto possibilidades de políticas públicas quanto de mercado. Este é o ambiente teórico mais fértil para a compreensão da importância de se internalizar os fatores não-econômicos para compreender e operar sobre o jogo de mercado.

Tal como considerar a interatividade econômica da infra-estrutura, da saúde, da educação, e ainda, de processos endêmicos de desagregação familiar, violência, corrupção, baixa auto-estima, obscurantismo religioso, entre outros que afetam qualitativamente as expectativas de mercado. Tarefa complexa da qual a econometria se aproxima cada vez mais e com mais precisão (MANKIW, 1990), mas ainda um desafio.

Somente a incorporação destes fatores, na causação circular cumulativa, como efetivamente econômicos, poderá dar visibilidade estratégica dos efeitos regressivos, já citado, e dos efeitos propulsores (spread effects) adequados ao desenvolvimento de um território específico.

As mudanças nas condições econômicas gerais sempre foram tratadas como “problema do ciclo econômico” e essa tradição continuou (e continua) a ser observada mesmo depois de terem elas perdido todo caráter cíclico...A investigação do ciclo econômico tem sido dominada pelas séries cronológicas: o interesse se tem concentrado nas mudanças globais de um ponto ou período de tempo a outro, sem considerar as diferenças no espaço geográfico e mesmo as mudanças temporais dessas diferenças espaciais. (MYRDAL, 1965, p. 68)

Consideramos que o desenvolvimento local se coloca como possibilidade de síntese desta articulação de conceitos e assim o adotaremos no âmbito deste trabalho.

No contexto do conceito de desenvolvimento local que adotaremos, é preciso focar em um ponto especial, o Estado. Cristalização institucional da sociedade, de natureza política – jurídica, ética e cultural – dotada de equipamentos, orgânicos e estratégicos, que regulam a sociedade como um todo, não como corpo estranho, mas absolutamente como parte fundida ao conjunto de suas relações internas e externas, apenas mais adensada e dirigida sob a hegemonia político-filosófica da parte da sociedade, ou bloco histórico como em Gramsci, que a construiu e conquistou (a hegemonia) no jogo político dado.

(...) todos os países ricos da Europa Ocidental evoluíram, nas gerações recentes (década de 50), para o “Estado do Bem-Estar”. Nesses países, iniciaram-se políticas estatais que visavam a maior igualdade regional: as forças do mercado que provocam “efeitos regressivos” foram anuladas e as que promovem “efeitos propulsores” apoiadas...Em muitos dos países pobres, a inclinação natural para as desigualdades foi reforçada por instituições de caráter feudal e discriminatório e, por estruturas de poder que ajudaram os ricos a explorar os pobres...No sistema de causação, os dois tipos de influência – forças do mercado e medidas políticas – são interdependentes... (MYRDAL, 1965, p.70/71)

Fica claro que a idéia não é recuperar a autoritária e ilusória perspectiva do Estado que pode tudo, que jamais existiu. Mas de reconhecê-lo como parte intrínseca da sociedade e produto de suas interações históricas e conjunturais. E, portanto, como recurso legítimo e incontornável para a elaboração de estratégias de desenvolvimento local, particularmente as que devem enfrentar o desafio da desigualdade regional.

Particularmente responsável pelo ambiente (latu-sensu) do desenvolvimento econômico, o Estado deve agir articulando a curto e longo prazo, interesses majoritários da sociedade atual com a abordagem estratégica mais promissora para as futuras gerações, às vezes de expressão minoritária, no presente. Nos países mais ricos.

(... ) o progresso econômico e os níveis ascendentes de renda oferecem oportunidades para todos e, portanto, dão mais força aos ideais de generosidade consciente. Quando se desfruta uma vida mais confortável e se tem maior segurança, há mais disposição para renunciar a privilégios... e a suportar o preço de sacrifícios comuns. Este processo, por sua vez, fortalece os fundamentos de um progresso econômico contínuo. (MYRDAL, 1965, p. 71)

Em que pese haver certa inocência na citação acima – até porque o autor não analisou o recente período de hegemonia neoliberal em que os valores liberais, como o individualismo, foram exacerbados – há ainda validade atual. A importância da citação está em testemunhar uma possibilidade latente como fator de desenvolvimento econômico: a solidariedade. Que, trabalhada como elemento cultural do ambiente econômico, serve de fermento aos efeitos propulsores de uma causação circular cumulativa de caráter positivo, por seu caráter econômico distributivo e social inclusivo que reforça o mercado em quantidade e qualidade.

(...) a cultura do consumismo vende a vergonha. Se a propaganda puder envergonhar alguém, terá um consumidor em potencial. As pessoas se envergonham de não ter algo. E correm às compras para cobrir essa vergonha imediatamente. Dessa forma, nossa cultura vende vergonha e sentimento de inferioridade. E ninguém quer ser inferior aos outros(... ) Quando você compra o que é necessário para sobreviver, há muita alegria em relação ao valor gasto. Quando é por conforto, a alegria é menor. Depois de certo ponto, comprar não dá mais felicidade. Tudo será lixo - coisas que você compra, mas que não lhe dão nada. Pode ser até mesmo uma casa. (ROBIN, 2006,p. 45)

Segundo o relatório do Banco Mundial (2007), há no mundo 4 bilhões de pobres, com renda inferior a 3 mil dólares por ano, estes, na presente condição, constituem um mercado consumidor de 5 trilhões de dólares por ano. Enquanto que os 793 bilionários, rankeados pela revista Forbes, formam um mercado consumidor de apenas 2,6 trilhões.

Ora, se o trabalho consiste no único fator de produção capaz de gerar riqueza e se o trabalho é inerente ao ser humano, a concentração de renda nas mãos de poucos e a exclusão social de muitos, enfraquecem o mercado tanto pelo lado da oferta quanto da demanda, diminuindo a produção e tirando consumidores do varejo. A Sociedade/Estado precisa pisar no chão de hoje com o bico do sapato já voltado para o caminho do futuro, escolhido estratégica e conscientemente, como possibilidade em permanente regulagem.


3.2 EFEITOS EM CADEIA, EM HIRSCHMAN

O conceito de cadeia produtiva foi desenvolvido como instrumento de visão sistêmica. Parte da premissa que a produção de bens pode ser representada como um sistema, onde os diversos atores estão interconectados por fluxos de materiais, de capital e de informação, objetivando suprir um mercado consumidor final com os produtos do sistema. (CASTRO, 2007).

As idéias de Myrdal encontram nas idéias de Hirschman uma possibilidade de especificação bastante adequada à Teoria da Causação Circular Cumulativa (MYRDAL, 1969). O contexto em que Hirschman formula o conceito de Efeitos em Cadeia é claramente tributário da Teoria de Sistemas (BERTALANFFY,1977). E, tal como Myrdal, segue enveredando pela interdisciplinaridade no hercúleo esforço de alcançar a complexidade da realidade econômica.

Primeiramente, tem-se a revelação de que existem fenômenos que não se consegue explicar. O próprio ser humano é um deles, o universo também, a vida e a morte, o amor, o ódio (a reaproximação da filosofia e da ciência - Moles, 1971). Depois, descobre-se que o mundo pode ser um sistema (Von Bertalanffy, 1977), um ecossistema, e que suas partes (fragmentos) não estão nem podem ser vistas e estudadas sem a compreensão e aceitação do todo onde figuram. Claro que não se pode explicar de maneira lógica as relações e inter-relações deste todo e de suas partes e vice-versa. É por isso que se chama pensamento complexo, pois parece não haver uma lógica para estas relações aparentemente sistêmicas, é o que Morin (1999a; 2002a) denomina a “ordem dentro da Desordem” ou a “certeza da incerteza”, e é justamente por este motivo que se chama complexidade. (FRANCELIN, 2003, P.52)


3.2.1 Cadeia produtiva, visão sistêmica e complexidade

Nesta direção, Hirschman assume uma conceituação que se afasta do Reducionismo, apesar de enquadrado, algumas vezes como neoclássico. Attempts to confine me to a specific area make me unhappy. When it seems that an idea can be verified in another field, then I am happy to venture in this direction. (HIRSCHMAN,1998 apud BIANCH, 2004, 35)

O Reducionismo não é suficiente para explicar todos os fenômenos, notadamente àqueles que envolvem a atuação concomitante de mais de uma causa, que são explicáveis apenas pela atuação conjunta das variáveis. A existência de interações entre múltiplos fatores causais tem sido uma das dificuldades enfrentadas pela escola reducionista na busca do conhecimento dos fenômenos. Tal situação impede que determinados fenômenos mais abrangentes, como os que envolvem conhecimentos interativos de ciências humanas, biológicas e exatas, possam ser compreendidos na sua plenitude.

O reducionismo metodológico tem como referência os recortes conceituais e as idealizações da realidade que os cientistas fazem com o intuito de torná-la mais acessível à nossa razão e com a plena consciência de que se tratam de simplificações artificiais, que podem levar a compreensões mais elaboradas. Já em suas formas epistemológicas e filosóficas, o reducionismo é considerado um princípio pertencente à própria ordem da natureza, no qual diferentes níveis de descrição são hierarquizados em termos de seu caráter mais ou menos fundamental. (ZYLBERSZTAJN, 2007).

Na economia, a aplicação do Reducionismo impulsionou várias teorias, inclusive a de Marx, apesar de ser uma ferramenta mais sistemática entre os neoclássicos. No entanto, é preciso admitir que há situações específicas onde o reducionismo é um recurso válido e, às vezes, difícil de contornar – como na elaboração de Políticas Públicas. No entanto, o que aqui pretendemos é firmar a idéia de que entendemos a economia como uma abordagem necessariamente inter e transdisciplinar, focada em perceber a resultante do fenômeno que não pode ser tomado como a manifestação do somatório aritmético de apenas algumas de suas partes.

A contribuição da Teoria Geral dos Sistemas (BERTANLANFFY, 1977) ajuda a perceber que o conhecimento da suas complexas relações e interações é condição obrigatória para o tratamento adequado do fenômeno econômico, já quando enuncia seus pressupostos básicos: tendência para a integração das várias ciências; necessidade de estudar os campos não físicos do conhecimento científico, especialmente as ciências sociais; e, a tendência em que a teoria dos sistemas busca a unidade da ciência.

Pela teoria dos sistemas, o todo, ou o sistema, é o produto de partes interativas, cujo conhecimento e estudo deve acontecer sempre relacionando o funcionamento dessas partes em relação ao todo.

Contudo, metodologicamente, a dificuldade de explicitar a complexidade de um fenômeno, fez surgir à noção de Limite de Sistema, para, sem negar a complexidade, limitá-la ao que for possível, e de interesse, expressá-la. Como a natureza econômica é, em geral, um enorme complexo de componentes interativos, e esta abrangência nem sempre é de interesse de um determinado estudioso, a idéia de estabelecer limites permite a apreciação de conjuntos menores de componentes interativos, facilitando o entendimento do seu funcionamento .

Complementar a este conceito, surge o de Hierarquia entre aspectos do mesmo fenômeno. Encurtando, recorre-se a técnicas reducionistas tentando não desfigurar a percepção complexa enquanto filosofia.


O conceito de hierarquia de sistemas Célula > Comunidade > Tecido > Organismo > População

Figura 2: Hierarquia dos Sistemas segundo Bertalanffy (1977)

Na economia, portanto, Cadeia Produtiva é uma noção que exige a compreensão que de todos os componentes estão em inter-relações diretas e/ou indiretas. Por definição, supõe que todos os tomadores de decisão possuem as mesmas informações e percepções, para que formulem políticas e estratégias com maior previsão e máxima eficiência. Sendo que daí decorre o grau de competitividade, ou seja, ao aumento da eficiência nas cadeias produtivas.


3.2.2 Efeitos em cadeia

Além das implicações metodológicas já vistas, Hirschman, pessoalmente, contextualiza sua teoria dos Efeitos em Cadeia no contexto das teorias sobre o desenvolvimento econômico.

Partindo das elaborações lançadas a partir de 1950, reforça a crítica a Teoria do Comércio Internacional em que Paul Samuelson preconiza a tendência à “natural” equalização dos rendimentos entre as nações envolvidas, dizendo que esta idéia se apresenta justo no momento em que se aguçam as desigualdades entre os países.

De um lado, recupera a Teoria do Crescimento na versão de Harrod-Domar, baseado primordialmente na injeção de capital, porém consciente da limitação de sua aplicabilidade. De outro, resgata a assertiva revolucionária de Paul Baran, que argumenta que as condições sócio-políticas dos países pobres e suas relações com os centros da expansão capitalistas, tornavam os investimentos inócuos (HIRSCHMAN, 1976).

Passando pelos autores que defendiam a alavancagem econômica partindo da renda, sejam Galeson e Leibenstein que defendiam investimentos capital-intensivos, ou seja Baldwin que defendia a distribuição de renda igualitária, o economista Hirschman, destaca o sociólogo Bert Hoselitz que rompeu com o paradigma da renda e apresentou fundamentos para se pensar a alavancagem econômica pelo lado da produção.

O desenvolvimento é acelerado através de investimentos em projetos e indústrias com acentuadas repercussões em cadeia (ou efeitos de repercussão) retrospectivos e prospectivos... as decisões empresariais, tanto no setor público quanto no privado, não é unicamente determinada pela atração dos rendimentos e da demanda, porém responde a especiais fatores de pressão, tais como os efeitos em cadeia pelo lado do produto. (HIRSCHMAN, 1976, p. 85)

Então, a partir desta contextualização no pensamento científico da economia, Hirschman(1976) anuncia seu compromisso com as economias subdesenvolvidas, através da afinidade com o que denominou “micro-marxismo,” e com a tentativa de estudar os efeitos em cadeia a partir de uma análise insumo-produto de maneira dinâmica, considerando sua variação de comportamento no tempo.

Dessa forma, só faz sentido referir Efeitos em Cadeia, se tomada uma linha de produto específica, em que definida esta, o estudo dos desequilíbrios nas relações insumo-produto apontará quais forças geradoras, pressionarão os atores da cadeia, à jusante ou à montante, por investimentos.

Tal como Myrdal, Hirschman (1976) também entende que o Estado possui papel importante no processo econômico, particularmente nas economias subdesenvolvidas, ainda que não deva ser totalitário. Retomando a tese do “produto primário de exportação” de Harold Innis, em que argumenta que uma estratégia deste tipo pode propiciar o surgimento de novas atividades econômicas incluindo a indústria, desde que o Estado, exogenamente, promova mecanismos fiscais transportando renda auferida com a atividade primário-exportadora para setores estrategicamente definidos. Trata-se de Efeitos em Cadeia de Natureza Fiscal.

No entanto, outros mecanismos um pouco mais distantes do Estado, também se apresentam. As exigências e influências do padrão de qualidade estabelecido pelo comércio internacional já conseguem influir para a abertura de novas atividades econômicas que corroborem com tal padrão de qualidade, ainda que residualmente e com alto grau de dependência do setor exportador.

Quando a demanda por algum insumo antes importado, promove o encontro entre o investidor e as oportunidades de negócios surgem empreendimentos que promovem a substituição das importações, ainda que ponto-a-ponto. O mérito de Hirschman, ao articular estes mecanismos, é o de demonstrar a possibilidade de alavancagem econômica mesmo a partir de economias primário-exportadoras, desde que se considere a constelação de efeitos em cadeia, específicos. (HIRSCHMAN, 1976).

Buscando entrelaçar as interações entre produção, consumo e política fiscal, Hirschman (1976) sugere que a importância de se colocar em sinergia os “capitais” auferidos em cada um destes flancos da economia em uma dada cadeia específica, particularmente em relação aos produtos primários de exportação típicos de economia de Enclave, como Petróleo e Mineração. Enclave, “é definido pela ausência de envolvimento com o restante da economia”, ou seja, sem elos em cadeia com a economia de uma dada região ou localidade.

O enclave é um corpo estranho, frequentemente de propriedade de estrangeiros, com o fim exclusivo de tirar proveito, e poucos dentre eles tomarão a defesa de seus interesses uma vez que o Estado tenha adquirido a disposição e autoridade para reapropriar-se de parte do fluxo de rendimentos, originário do enclave, para seus próprios objetivos. (HIRSCHMAN, 1976, p.96).

Consideramos, que os enclaves de hoje, ainda que busquem mecanismos de responsabilidade social para mitigar o desgaste com a sociedade do entorno, permanecem sem compromissos locais importantes e com suas motivações enraizadas em realidades distantes ou globais. Assim, desde que não afete sua competitividade, considerando o padrão de remuneração global, por exemplo, tende a buscar caminhos de negociação secundária ou simples indiferença nas relações com o território e seus atores.

Já quando Hirschman (1976) considera possibilidades de efeitos em cadeia de atividade produtiva com muitos elos com a economia local, escolhe como exemplo, a economia do café tanto no Brasil quanto na Colômbia. Menciona a importância deste produto na criação dos padrões de ocupação da terra, redes de transporte e repercussões do consumo.

Porém, não deixa de registrar que do ponto de vista de efeitos fiscais, só muito mais tarde é possível localizar impactos que geraram novas atividades. Isto é, à revelia do Estado, então dominado pelas elites cafeeiras, como no Brasil, o que gerava um protecionismo que em vez de auferir receita tributária ainda despendia recursos para uma balança cambial vantajosa aos cafeicultores.

Isso significa, que os Efeitos em Cadeia de Natureza Fiscal podem, e o foram, minimalizados ou maximizados a partir do posicionamento político-estratégico do Estado, no caso Brasileiro, minimalizados com o protecionismo exacerbado em favor dos cafeicultores e em detrimento de produtos de outras regiões o país.

Refletimos então, já articulando categorias de Myrdal e Hirschman, que o mesmo efeito fiscal que pode ter impacto propulsor, em função das pressões do desequilíbrio da matriz insumo-produto, pode contrariar tal tendência a partir de pressões de natureza política, operando agora em uma causação circular negativa, ou círculo vicioso, que projetou os interesses de um setor em detrimento da tendência “natural” da economia e do resto da nação. O que permite questionar então, portanto, que: As pressões de ordem política podem ser consideradas qualitativamente superiores aos fatores econômicos “stritu sensu”? Já que apenas não subjugariam estes por uma questão de intensidade, ou seja, quantidade?

Não sustentaremos esta indagação, por não estar entre os objetivos deste trabalho, mas deixamos pontuado, mais uma vez, a necessidade de se internalizar na análise econômica, fatores como a política, entre outros, já que as evidências propõem a consideração desta dimensão como determinante da história econômica dos povos, dramaticamente inclusive, quando se trata de povos do chamado terceiro mundo.

A dificuldade com tal situação de falta de equilíbrio é não ser auto-corrigível: a burocracia, os serviços sociais, mesmo os investimentos públicos improdutivos podem continuar a se expandir por longo tempo, enquanto quase nenhuma pressão é exercida sobre o governo... (HIRSCHMAN, 1976, p. 99)

Ora, chegamos a um ponto muito interessante, em que Myrdal fundamentou a importância do Estado para “reparar” a tendência do livre jogo do mercado, que leva a Sociedade para desigualdades que se aprofundam. Agora, Hirshman demonstra com o clássico caso do café que, deixar ao Estado tal missão, corre o risco de vê-lo na sinergia negativa do aprofundamento das desigualdades, invocando “pressões” capazes de reverter o quadro se incidirem sobre o Estado. Porém, não caracteriza tais “pressões” deixando em aberto se elas viriam do “jogo de mercado” ou de outra fonte.

Considerando o ambiente teórico e geopolítico em que Hirshman desenvolve suas análises, supomos mais adequado considerar que tais “pressões” devem vir de uma instância matriz, politicamente importante ainda que difusa. Trata-se da Sociedade Civil (GRAMSCI, 2000a), no seio da qual o Estado e as forças do mercado destacam-se, às vezes, descolados dos interesses da maioria, que, quando entra em processo de mobilização social, de baixo para cima, confere à Sociedade uma identidade própria que, aí sim, poderá vir a pressionar o Estado em uma direção inovadora, diferente e autônoma em relação aos interesses dos atores do mercado, embora “dialogando” com eles. Quase 20 anos mais tarde, Hirschman diria: O conflito é uma característica da sociedade de mercado pluralista... Em sociedades com liberdade de expressão e associação, a preocupação com tais problemas tende a mobilizar tanto as pessoas imediatamente afetadas, quanto cidadãos sensíveis a sentimentos mais ou menos comuns de justiça social... A sociedade produz, assim, uma dieta regular de conflitos que precisam ser tratados; e que ela deve aprender a administrar. (HIRSCHMAN, 1974, p.76)

Percebemos, então, que a adoção da idéia de Sociedade Civil, tal como em Gramsci e de mais disciplinas como a Comunicação, tal como em Habermas e o Marketing, tal como em Drucker, a serem internalizadas pela economia.

Isolando os efeitos em cadeia de natureza fiscal, segundo Hirschman(1976), se considerarmos a diferença entre o tamanho do mercado e o tamanho econômico da instalação industrial (capacidade produtiva instalada) como a variável-chave dos efeitos em cadeia, poderíamos ter aí uma fonte importante de “pressões” capazes de induzir os empreendedores públicos e privados.

Contudo, suas análises o levaram a considerar uma variável que se atravessa, obstaculizando possíveis pressões positivas. Trata-se do grau de estranheza dos agentes econômicos instalados no cotidiano de uma dada atividade econômica, com relação à outra, nova, que se está introduzindo.

Tal grau de estranheza pode frear ou até impedir o avanço de uma inovação que por ventura tenha sido introduzida em elo anterior ou posterior da cadeia específica.

Caso típico das economias agrosilvo-exportadoras no Brasil. Tanto no caso do Café quanto da Borracha, a alta lucratividade, real ou artificial, combinada a simplicidade das operações, majoritariamente de coleta e ensacagem, amorteceram os cafeicultores e seringalistas que se colocaram como obstáculo à modernização econômica e tecnológica, principalmente a vinda de fora, das condições e exigências do mercado externo, mas também do padrão de consumo que sua própria riqueza gerava, preferindo, asssim, repassar para os agentes externos, etapas produtivas de maior valor agregado, bem como, preferindo consumir ou fora ou por importação direta. Operando, dessa forma, nas duas pontas como uma muralha que impediu a endogeneização (VASQUES BARQUERO, 2001) da riqueza gerada no próprio território pelo seu povo, que assim assistiu seu trabalho, enquanto riqueza produzida, embarcar sem caminho de volta.

A ausência de desenvolvimento cumulativo, que marcou a carreira de tais produtos primários de exportação como a cana-de-açúcar, a castanha e o algodão,... cortou o seu produtor de qualquer participação com as fases posteriores da carreira do produto. (HIRSCHMAN, 1976, p.20)

Portanto, o estudo dos efeitos em cadeia, coloca-se como um ângulo de observação capaz de refletir sobre interferências estratégicas exógenas, para que, a partir de um dado momento, combinarem-se com os fatores endógenos, ou vice-versa, contanto que entrem em causação circular cumulativa positiva entre eles, promovendo a propulsão do desenvolvimento a partir de sua localidade econômica e seu posicionamento no mercado, fazendo por fim com que a riqueza gerada seja endogeneizada na forma de melhoria da qualidade de vida da maioria.

Em detalhamento da conceituação em torno dos efeitos em cadeia, Hirschman(1976) trabalha com a noção de efeito em cadeia interior para designar os processos onde as novas atividades econômicas são empreendidas pelos próprios responsáveis pela atividade anterior, neste caso teríamos a integração vertical da cadeia ou como designada hoje amplamente, “verticalização”.

No entanto, se em função do grau de estranheza dos empreendedores instalados, a nova atividade econômica for empreendida por ator externo, público ou privado, teremos um efeito em cadeia exterior.

Já, os efeitos em cadeia interiores tendem a contribuir para uma endogeneização, mais pronunciada ou mais rápida, do trabalho convertido em riqueza pela cadeia produtiva. Enquanto que os efeitos externos tendem a conferir um salto tecnológico/gerencial de maior envergadura e/ou mais rápido, pela maior familiaridade do agente com o novo padrão produtivo. Além disso, o novo ator externo tende a dividir poder, e com isso, diminuir a concentração econômica e política. Isto quando não submete o restante da cadeia por seu peso e influência.

Assim, para Hirschman (1976), o Estado além da realocação estratégica do apurado na tributação sobre uma determinada atividade econômica em favor de novas atividades econômicas associadas a mesma cadeia(modernização, verticalização, etc.) ou não, pode ainda promover repercussões exteriores a partir da oferta estratégica de provisões de bens públicos que agreguem valor diretamente na atividade econômica(crédito, infra-estrutura, etc.) ou em seu ambiente (educação, saúde, segurança etc.). Destacamos aqui, que concebendo a normatização um insumo público necessário às mediações das relações econômicas na democracia, o papel regulador do Estado pode incidir diretamente e/ou no ambiente e concorrer sobremaneira para a alavancagem da cadeia.

O principal impulso para que o Estado “entre” na cadeia, explica Hirschman (1976, p.25), vem da demanda por serviços que os atores da cadeia não podem obter individualmente e nem que cooperem para tal fim. Mas, que podem obter se cooperarem politicamente, demandando do Estado.

No entanto, consideramos importante registrar, já aqui, que nossa experiência e observação direta, apontou para a relação estabelecida entre Estado e setor econômico atendido por provisões de bens públicos como de fundamental importância para a cumulação positiva e a sustentabilidade do investimento público. O investimento público apenas entrará em causação circular cumulativa positiva, se for engendrada por uma relação que não deprecie a autonomia, a capacidade empreendedora e a auto-estima dos atores econômicos da cadeia – diríamos, relações equilibradas, já que seria ilusório impor como condição o não envolvimento político dos atores econômicos da cadeia específica.

Por outro lado, se as relações forem desequilibradas, gerando dependência política dos atores econômicos em relação do Estado, ou, porque estes, conquistaram postos públicos para colocar os fundos públicos a serviço de seus interesses econômicos imediatos, as provisões são ofertadas majoritariamente como mediação de interesses políticos ou, pior, eleitorais, então seu impacto positivo poderá ser reversível negativamente quando a hegemonia dada então sobre o Estado ou sua porção executiva, o governo, simplesmente mudar – algo comum em uma democracia.

...a democracia se constituiu, de modo geral, não porque as pessoas desejassem tal forma de governo, ou porque tivessem alcançado um amplo consenso sobre ‘valores básicos’, mas sim porque vários grupos estiveram na garganta um do outro por tempo suficiente para reconhecer, finalmente, sua incapacidade mútua para dominar um ao outro e a necessidade de alguma acomodação. (HIRSCHMAN, 1994, p.38)

Tal afirmação, de um Hirschman mais maduro, nos leva a compreender que embora se dirija à história que passou, talvez seja ainda uma desejável profecia, principalmente para nós, que vivemos onde a história todavia é outra.

Voltando ao desenvolvimento conceitual dos efeitos em cadeia, antes de entrar nas considerações metodológicas de Hirschman, registramos uma passagem argumentativa, algo contraditória com o conjunto de seu discurso. Referindo-se a formatos de repercussão positiva de intervenção do Estado em dada cadeia, Hirschman (1976, p. 26) considera a capacidade do Estado em induzir a estabilização de preços, via política cambial, como “particularmente interessante” e, mais, cita o caso do café sem fazer qualquer ressalva do caso brasileiro onde esta política se deu a custa da desigualdade regional, embora admita, na seqüência (p. 27), que isto é “o reverso exato do processo de extração de proventos fiscais sobre produtos primários”, parando por aí.

Sobre suas considerações metodológicas, Hirschman (1976) considera sobre a abordagem da repercussão em cadeia que é preciso identificar as propriedades dos produtos primários, não em sua especificidade botânica ou climatológica, mas em sua característica própria de interação com o processo de desenvolvimento.

(...) é, obviamente, mais revelador saber que seu produto primário de exportação é o centro de uma constelação de efeitos de repercussão em cadeia, do que a informação de que o produto primário é um produto agrícola tropical, por exemplo. (HIRSCHMAN, 1976, p. 29)

Advertindo ainda que, a sua teoria, embora tenha caracterizado os produtos primários e os efeitos de repercussão em suas cadeias, a partir de arranjos aparentemente compreensíveis, era “resultado da observação da experiência concreta”. (HIRSCHMAN, 1976)

Duas elaborações teóricas precedentes mereceram especial atenção de nosso autor, a Tese do Produto Primário de Exportação e a tese neomarxista do Desenvolvimento do Subdesenvolvimento.

Quanto a primeira, Hirschman (1976, p. 30) admite “íntima relação” e oferece sua teoria dos efeitos de repercussão em cadeia como arcabouço para os “insights, de algum modo desorganizados” daquela. Ou seja, admite ter trabalhado também na perspectiva de dar melhor acabamento e fundamentação à Tese do Produto Primário Exportador, ainda que não seja “um esquema explanatório completo”.

Quanto à segunda, que sustenta que o “capitalismo e o imperialismo na periferia tem se exercido no sentido de extrair o excedente e, no processo, empobrecer a nação, destruir a indústria local, exaurir o solo e o subsolo, emascular e corromper as elites locais.” Hirschman (1976, p. 31) comenta que sua elaboração incorpora esta, mas não como única alternativa e sim, como uma das possibilidades ocorridas, afastando-se “bastante” neste ponto, da teoria clássica do Comércio Internacional de Paul Samuelson. E, afastando-se dos neomarxistas, critica a teoria do Desenvolvimento do Subdesenvolvimento por não tratar o conjunto das contradições dialéticas, admitindo inclusive o efetivo desenvolvimento ocorrido em alguns casos a partir dos investimentos feitos pelo “centro do capitalismo”.

Desta maneira, os efeitos em cadeia e seus desdobramentos alcançariam um distinto grau de significação, pois se delineariam em um corpo com a capacidade de oferecer análises...tanto nos casos em que estes estivessem levando a caminhos do desenvolvimento, como nos casos em que estivessem levando a trajetórias do subdesenvolvimento...Este seria, portanto, o sentido prático da idéia de que o “registro” da maneira como um evento leva a outro seria basicamente, a “memória” do próprio desenvolvimento.” (HIRSCHMAN, 2005, p. 51)

Hirschman também se refere, metodologicamente, a sua aproximação do Marxismo e seu Materialismo Histórico, demarcando esta proximidade, no entanto, ao que denominou Micromarxismo, que seria a aplicação da noção de modos de produção, tal como Marx usou para estudar o escravismo e o feudalismo em uma escala maior de tempo e espaço, à observação efetuada sobre uma dada linha de produto em um determinado país e em um lapso de tempo mais reduzido. Contudo, tal como Marx, articulando elementos tecnológicos, sociais e políticos daquele específico desenvolvimento econômico.

Assim, ao avançar sobre uma realidade específica, utilizando o mesmo ferramental teórico de Marx (Infra-estrutura, superestrutura, relações de produção e forças produtivas) passa a revelar diferenciações no interior de um mesmo modo de produção, que o próprio Marx tratara como homogêneo para sustentar suas conclusões gerais (HIRSCHMAN, 1976, p.35/34).

(...) o aparecimento de um novo modo de produção está mais intimamente ligado à existência, no tempo apropriado, de uma atividade econômica específica, que apresente uma afinidade mais forte com este modo de produção do que é constatado mais tarde quando este modo de produção já se tornou ubíquo e dominante(....) parafraseando Marx, (a atividade econômica é) a parteira de um novo modo de produção.... (HIRSCHMAN, 1976, p.37)

Para calçar tal conclusão, nosso autor trabalha com duas observações empíricas: a relação de produção entre a cana-de-açúcar e a escravidão, assim como, a relação entre a indústria têxtil e a Revolução Industrial, cada qual em seu momento histórico e o conjunto de relações sociais e políticas dadas, respectivamente.

Reforçando mais ainda, argumenta em seguida que estudos anteriores notaram que pequenas mudanças técnicas, como as ocorridas com a substituição dos poços tubulares pela moderna irrigação, podem propiciar mudanças substantivas nos papéis dos atores econômicos e, complementarmente, nas relações sociais de uma determinada cadeia produtiva.

Um dos méritos da nossa maneira de olhar o problema... é o de estimular o analista a estar sempre alerta para o aparecimento de qualquer ‘novidade’ tecnológica que possa ter consideráveis repercussões econômicas e sócio-políticas. (HIRSCHMAN, 1976, p.37)

Concluindo,

Fica claro, então, que Hirschman estaria mostrando que diversos tipos de relações de produção poderiam estar tendo uma associação de sustentação mútua e de ‘cumplicidade’ com um mesmo conjunto de forças produtivas, utilizando uma linguagem marxista... por estar distante de querer criar uma nova categoria de “Reducionismo” ou “Determinismo”, tal conclusão seria muito satisfatória. Afinal, os estudos sobre a teoria dos efeitos em cadeia teriam tido uma pretensão muito menor do que a sua discussão acabou delineando. (PIRES, 2005, p.56)

Para efeito deste trabalho, em que pretendemos contribuir com o estudo do papel econômico da cooperação, três passagens da elaboração hirschmaniana, nos parecem faróis que brilham intensamente, ora nos atraindo para seu arcabouço teórico, ora iluminando o caminho que temos pela frente.

Destacamos por primeiro, a consideração lateral, mas positiva, do papel que a cooperação desempenha entre os elos da cadeia.

Já citamos anteriormente, que Hirschman (1976,p.25) faz referência à importância da organização dos atores da cadeia para se auto-suprir ou demandar provisões de bens públicos do Estado. Agora, citaremos o artigo publicado quase duas décadas depois, em que articula conflitos sociais, mercado e democracia.

É possível distinguir entre duas variedades de conflito social – os que desprendem um resíduo positivo de integração (da cadeia), e os que dividem a sociedade?... os analistas soviéticos fizeram uma maravilhosa invenção semântica...”contradições antagônicas”(as do capitalismo) e as “contradições não-antagônicas”(as do socialismo real)... Aconteceu, naturalmente, que as sociedades consideradas afligidas por contradições antagônicas resistiram muito bem a elas, e sobrviveram aos regimes que, supostamente, experimentavam apenas contradições não-antagônicas... Portanto, surge aqui um problema com a atraente idéia de Gauchet-Dubiel de que os conflitos fornecem à sociedade o capital social (para usar o termo de Robert Putnam) de que ela precisa para se manter coesa. (HIRSCHMAN, 1994, p. 38/39)

Iluminando um caminho a ser investigado, já nos provoca a refletir criticamente que nesta passagem, nosso autor, cai no mesmo viés mágico da tal mão invisível de que tratou Adam Smith para explicar dogmaticamente o que não compreendia, não por limitações pessoais, mas em função do contexto histórico.

Diante da impossibilidade de investigar sobre o efeito da cooperação entre os atores da cadeia, por não estar entre seus objetivos e outras razões – certamente justas, mas sem poder ser indiferente, Hirschman resvala pelo mesmo doutrinarismo no qual se abrigaram os soviéticos, ficando na superfície empírica da história, esquecendo que o seu forte é a observação empírica porém, de fenômenos pontuais. E, revelando desconforto, busca em Nietzsche uma saída charmosa para aquilo que não dava conta, citando do filósofo a máxima “o que não me destrói, fortalece-me”. Idéia que ganhou domínio popular, na versão, “o que não mata, engorda”. Assim, vamos levantar alguns elementos que pretendemos tratar de melhor maneira em parte específica deste trabalho.

Ora, o que não mata, em referência ao que ingerimos como suposto alimento, segundo o adágio popular, pode, em vez de engordar, enfraquecer, adoecer, viciar, dependendo de uma combinação entre quantidades e qualidades dos elementos que entram no sistema, ou organismo. Ou seja, há de haver determinadas condições em que os conflitos sociais levam para o fortalecimento do capital social e outras para que funcionem como “solvente” das ligas que nos unem em sociedade. Nos parece fundamental, conhecer estes determinantes, para que efeitos externos provocam ganhos de valor na cadeia para o conjunto dos atores envolvidos.

Retomando a Hirschman (1976), a segunda passagem que destacaremos, refere-se a relação entre as exigências tecnológicas de uma dada produção importante e o conjunto das relações sociais e políticas estabelecidas entre os atores da cadeia.

Se nossa conjectura é correta, o aparecimento de um novo modo de produção seria evidência imediata de que uma atividade econômica com essa afinidade especial, múltipla e intelectualmente suspeita, por esse mesmo modo de produção, deve estar exigindo no momento – de outra maneira o novo modo não teria conseguido surgir... Por depender das condições técnicas exatas da produção, esta conexão está intimamente ligada a um tempo e espaço particular. (HIRSCHMAN, 1976, p.37)

Nosso autor assim, nos faz lembrar do determinismo da infra-estrutura sobre a superestrutura em Marx. No entanto, se considerarmos a possibilidade de uma espécie de mão-dupla entre estes fatores, poderemos questionar que se a hegemonia da economia de escala for abalada e outra modalidade assumir papel primaz, teremos então as condições para o surgimento de um novo modo de produção, pós capitalista? De onde surgiria? Já existe e está em fermentação social, econômica, política e cultural?

Como pretendemos aqui avançar análises sobre a Economia Popular e Solidária, tal afirmação nos serve de especial inspiração, que, já informamos, pretendemos tratar adiante, em item específico.

Corroborando com os questionamentos acima e, igualmente inspiradora, aponta a terceira passagem que destacaremos.

(...) encontramos no outro extremo da escala atividades econômicas que apresentam um grau muito baixo de compatibilidade com certos quadros sócio-políticos – por exemplo, certos frutos e vegetais que requerem “cuidado amoroso”, parecem ser pouco adequados para uma agricultura de tipo coletivista. (HIRSCHMAN, 1976, p. 39)

Sem resistir à poesia, diríamos que a Economia Popular e Solidária exige cuidados amorosos, principalmente por cultivar pessoas. Se a suposição é válida para “frutos e vegetais”, não o seria nesta nova perspectiva que apresentamos?

No entanto, buscaremos a todo custo à demonstração da ciência, ainda que com limitações metodológicas, entre outras possibilidades, para validar nossa suposição. Até porque concordamos com nosso autor, quando diz que “não é legítimo descartar a hipótese de que o fenômeno possa existir verdadeiramente só porque podemos invocar boas razões psicológicas para querer acreditar em sua existência.” (HIRSCHMAN, 1976, p.36).





3.3. AGLOMERADOS (CLUSTERS), EM PORTER

O acumulado teórico que colhemos, em Myrdal (1969) e Hirschman (1976;1995), encontra em Porter (1988;1999) a possibilidade de uma complementação que apura e avança a capacidade de análise de fenômenos econômicos muito adequadamente às condições dos empreendimentos da economia popular, pequenas e micro empresas, nas dadas condições que temos no Brasil, considerando ainda a ambientação global, feitas as aproximações necessárias.

Com este tópico, sobre o pensamento de Porter, completa-se a tríade de referências teóricas deste trabalho. Na verdade, as noções de Competitividade e de Aglomerado em Porter, ganham maior densidade quando articuladas às categorias teóricas de Myrdal, como a Causação Circular Cumulativa e os chamados Fatores Não-Econômicos e de Hirschman, como no caso dos Efeitos em Cadeia , de Cadeias Produtivas, Elos e Dada Área Geográfica – esta ultima uma adição teórica ao trabalho de Hirschman, sugerida por Pires (2005). Adiante pretendemos trabalhar as possibilidades que surgem com esta articulação de conceitos e teorias.

Porter (1999) anuncia que o tripé básico de sua formulação teórica assenta-se em 3 categorias: Estrutura Setorial (cinco forças), Vantagem Competitiva e Localização. De fato, ao longo de seu pensamento as demais categorias articulam-se diretamente a essas, quando não são tributárias das mesmas.

Aqui, como nas revisões de Myrdal e Hirschman, procura-se fazer uma leitura de Porter focado no desafio de descrever um fenômeno econômico de natureza pouco estudado, ainda sem muitas referências, que é a Economia Popular e Solidária, que por miopia ou preconceito sofre de uma invisibilidade atroz, que lhe deixa à margem na academia e no Estado, padecendo de dados e políticas públicas. Quando muito, tratada como problema social, quase nunca faz parte de propostas sócio-econômicas e ambientais na elaboração de estratégias do desenvolvimento regional.

O meio ambiente, a pobreza urbana, (...) e as desigualdades de renda em geral são encaradas como problemas sociais. No entanto,(... ) cada um deles está vinculado de forma indeslindável com a economia e, mais especificamente, com a competição. (PORTER, 1999, p. 9)

Citação que nos alenta e já coloca a promissora amplitude e adequação da escolha de Porter, considerando as motivações deste trabalho. Mais adiante, olhando agora a partir da economia, Porter ratifica sua idéia afirmando que:

As atividades econômicas são vistas como algo “intrínseco” aos relacionamentos sociais contínuos... o seu ‘capital social’(do aglomerado) facilita e muito o acesso a importantes recursos e informações. (PORTER, 1999, p. 239)

Além da relação “indeslindável” e “intrínseca” entre aquilo que compreende-se como sócio-ambiental e aquilo que entende-se como econômico-político, em geral apartados pela análise acadêmica, observamos detidamente, em Porter, importantes flancos da categoria competitividade, para auferir a relação com a natureza solidária e cooperativa supostamente presente no aglomerado que nos dispusemos estudar.

Desta vez, se não foi possível encontrar citações diretas e cabais, nos foi possível perceber que há nítidos contornos na categoria que permitem supor que esta se coloca no marco ético societário e da sinergia cooperativa entre os agentes sócio-econômicos locais.

Os vínculos sociais mantêm a adesão dos aglomerados, contribuindo para o processo de criação de valor. Boa parte da vantagem competitiva dos aglomerados depende do livre fluxo de informações... de alinhar agendas... Os relacionamentos, as redes e o senso de interesse comum são os pilares de sustentação dessas circunstâncias (PORTER, 1999, p. 239)

Portanto, as categorias de Porter, articuladas às teorias de Myrdal e Hirschman, que destacamos – dialogando com outras elaborações – julgamos serem capazes de operar, até mais que o necessário, aquilo que precisamos e estabelecemos como objetivo neste trabalho.


3.3.1 Espaço e território

Começaremos pelo que consideramos ser um dos fios condutores da articulação de nossa tríade teórica, a noção econômica de territorialidade onde está embutida a de localidade, ou local. No entanto, outra noção vem se colocando como de fundamental importância, particularmente com o avanço da globalização: a de espaço. Para não confundi-las solicitamos o diálogo com Milton Santos, para quem “o espaço é a acumulação desigual de tempos”.

(No período tecnológico em que vivemos)...o sistema funcional em que as novas forças produtivas se inserem não é nem local nem regional, nem tampouco nacional. Tendo-se tornado internacional, é à lógica das firmas multinacionais que esse sistema obedece... Essa forma de universalização altera as dimensões geográficas da atividade humana. Quando a divisão do trabalho, e a cooperação perversa por ela ocasionada se estendem à escala do planeta, o mundo como espaço se torna o espaço global do capital... Mas a universalização não suprime os particularismos (SANTOS, 1982, p.15)

Apreendemos, então, que o contrário de universal, não é o local, mas o particular. Portanto, a noção de espaço guarda uma diferença de natureza teórica em relação à referência territorial.

Com o advento de uma sociedade mundial, também o espaço se tornou mundial... Hoje, o espaço humano compreende as áreas que permaneceram como espaço biológico, incluídas porém na rede de relações que, em nossos dias, já não são estritamente econômicas, senão também políticas, etc., relações efetivas, mas também potenciais. Se existem espaços vazios, já não existem espaços neutros. (SANTOS, 1982, p.16/17)

Entendemos que é preciso compreender o Espaço como conjunto complexo de relações humanas. No entanto, que se materializa, diferenciadamente em territórios específicos superpostos ou não.

Hoje, quando se fala de espaço total fala-se de uma multiplicidade de influências superpostas: mundiais, nacionais, regionais, locais; no entanto, o espaço é maciço, contínuo, indivisível. Tão indivisível quanto a sociedade total, de que ele é território e com a qual sua relação é igualmente indivisível. A Região aparece como um espaço de conveniência, um quadro a utilizar para a reprodução das relações sociais. Lugares, subespaços, nada mais são de que espaços funcionais. Só a consideração do espaço total permite apreender o papel da paisagem no movimento global da economia e da sociedade. (SANTOS,1982, p.17/18)

Após esta argumentação visceral em sustentação à incorporação dos Fatores Não-Econômicos pela análise econômica, recorremos ao caudaloso e denso Boaventura de Souza Santos para compreendermos melhor o conceito de Espaço com que estamos trabalhando:

TABELA 2: ESTRUTURA-AÇÃO DAS SOCIEDADES CAPITALISTAS Dimensões e Espaços estruturais Unidade de prática social Instituições Dinâmica de Desenvolvimento Forma de Poder Espaço Doméstico Diferença sexual e geracional Casamento, família e parentesco Maximização da afetividade Patriarcado Espaço da Produção Classe e natureza enquanto “natureza capitalista” Fábrica e empresa Maximização do lucro e da degradação da natureza Exploração e “natureza capitalista” Espaço de Mercado Cliente-consumidor Mercado Maximização da utilidade, da mercadorização das necesidades Fetichismo das mercadorias Espaço da Comunidade Etnicidade, raça, nação, povo, religião Comunidade, vizinhança, região, organizações populares, igrejas Maximização de identidade Diferenciação desigual Espaço da Cidadania Cidadania Estado Maximização da lealdade Dominação Espaço Mundial Estado-Nação Sistema inter-estatal, organismos e associações internacionais, tratados internacionais Maximização da eficácia Troca Desigual Fonte: Santos. (2002, p.273)

(...) é a caracterização dos espaços estruturais como matriz das múltiplas dimensões de desigualdade e de opressão nas sociedades capitalistas contemporâneas e no sistema mundial como um todo, e, consequentemente, como matriz das lutas emancipatórias mais relevantes. Como o poder é sempre exercido em constelação de poderes, os lugares privilegiados de produção de desigualdade e de opressão, tomados isoladamente, são instáveis e incompletos, já que nenhum deles dispensa o concurso dos demais para ser eficaz. (SANTOS, 2002, p.274)

Do estudado, nas citações acima, depreendemos, portanto, ser o Território o lócus da concretude do espaço, onde pessoas concretas e suas instituições concretas materializam suas abstrações e subjetividades através das relações sociais, políticas e econômicas que vivem e efetivam no seu cotidiano específico, amalgamadas culturalmente de diversas formas e naturezas.

O entrelaçamento teórico da abordagem geo-histórica de Milton Santos com a abordagem política de Boaventura de Sousa Santos, apesar de colocadas em perspectivas acadêmicas diferentes, nos ajuda a conferir profundidade à abordagem de Michael Porter, às vezes acentuadamente objetiva e pragmática.

(...) a localização afeta a vantagem competitiva através da influência sobre a produtividade e, em especial, sobre o crescimento da produtividade. Produtividade é o valor agregado por dia de trabalho e por unidade de capital ou por recurso físico utilizado. (PORTER, 1999, p.221/222)

Mas antes, um degrau acima em sua teorização, elabora:

A economia da aglomeração salienta a minimização dos custos dos insumos, sua especialização, viabilizada pela amplitude do mercado local, e as vantagens da localização perto dos mercados... o desenvolvimento focaliza a indução da demanda e da oferta... A implicação normativa... enfatiza a necessidade de desenvolver setores que mantenham vínculos com muitos outros. (PORTER, 1999, p.219)

Relacionando o Espaço econômico com as implicações territoriais de sua materialidade, Porter, na citação, aprofunda sua abordagem retomando sua complexidade, recorrendo à política e ao poder, portanto, quando menciona a “implicação normativa” com relevância.

Em Porter (1999), a localização ganha uma aplicação efetiva. Considera a relativa autonomia do Espaço sobre o Território na economia em globalização, porém firmando que a territorialidade permanece como diferencial competitivo importante.

Num mundo de competição global crescente, os países se tornam mais, e não menos, importantes. À medida que os fundamentos da competição se deslocam cada vez mais para a criação e assimilação do conhecimento, aumenta a importância dos países. A vantagem competitiva é gerada e sustentada através de um processo altamente localizado. (PORTER, 1999, p.167)

Há ainda duas diferenciações conceituais importantes para aumentar a clareza metodológica com que pretendemos trabalhar a perspectiva estratégica do desenvolvimento como política consciente dos atores econômicos, públicos e privados. A primeira trata da diferença entre o que é local e o que é endógeno.

A teoria do desenvolvimento endógeno considera que a acumulação de capital e o progresso tecnológico são, indiscutivelmente, fatores-chave no crescimento econômico. Além do mais, identifica um caminho para o desenvolvimento auto-sustentado, de caráter endógeno, ao afirmar que os fatores que contribuem para o processo de acumulação de capital geram economias de escala e economias externas e internas, reduzem os custos totais, e os custos de transação, favorecendo também as economias de diversidade. A teoria do desenvolvimento endógeno reconhece, portanto, a existência de rendimentos crescentes no tocante a fatores acumuláveis, bem como dá ênfase ao papel dos atores econômicos, privados e públicos, nas decisões de investimento e localização.” (VÁZQUEZ BARQUERO, 2001, p.18/19)

Daqui, e de outras passagens da mesma fonte, a Teoria do Desenvolvimento Endógeno coloca-se na esteira do processo de globalização e tributária da noção de Inovação, tal como em Schumpeter (1982), mas ampliada às inovações incrementais e gerenciais “endógenas ao sistema produtivo, à economia e à própria sociedade” (p. 20), que somadas às “decisões de investimento e localização” por parte dos atores econômicos, comporiam sua dimensão de estratégia de desenvolvimento.

Ou seja, “como instrumento de análise e ação” (p.13), a teoria de Vázquez Barquero dialoga mais com a noção de Espaço do que com a de Território, quando sintetiza sua natureza estratégica de desenvolvimento na expressão “de dentro para fora”. Já a abordagem deste autor sobre desenvolvimento local permite deduzir que se trata de uma noção mais vinculada ao Território e seus atores intrínsecos, do que ao Espaço, uma natureza estratégica que poderia ser sintetizada como “de baixo para cima”.

Parece dispensável, mas apenas para registro, como a materialidade do desenvolvimento se concretiza no local, desenvolvimento endógeno e desenvolvimento local são estratégias e noções bastante próximas, às vezes de difícil particularização entre um e outro já que a diferenciação fundamental está no plano da abstração da elaboração. A segunda trata da diferença conceitual entre setor e aglomerado que veremos a seguir. 3.3.2 Aglomerados e setores Destacamos que, segundo Proter (1999) os aglomerados:

...são concentrações geográficas de empresas inter-relacionadas, fornecedores especializados, prestadores de serviços, empresas em setores correlatos e outras instituições especificas (universidades, órgãos de normatização e associações comerciais), que competem, mas também cooperam entre si... O escopo geográfico varia de uma única cidade ou estado para todo o pais ou mesmo uma rede de paises vizinhos... ocorrem em muitos tipos de setores, em campos maiores ou menores e mesmo em alguns negócios locais, como restaurantes, revendedores de carros e antiquários. Estão presentes em economias grandes e pequenas, em áreas rurais e urbanas..


Vê-se que a noção de setor é relativa à cadeia de um ramo de negócio, já aglomerado implica no Espaço de articulação de várias cadeias e setores em um determinado Território.

A literatura sobre o desenvolvimento econômico focaliza a indução da demanda e da oferta, certamente um elemento da formação dos aglomerados. A implicação normativa do conceito de elos para frente e para trás, contudo, enfatiza a necessidade de desenvolver setores que mantenham vínculos com muitos outros... Assim a perspectiva setorial ou de áreas mais restritas tende a distorcer a competição, ao passo que a abordagem do aglomerado se concentra em acentuar a competição. (PORTER, 1999, p. 219 e 221)

Aglomerado, aplicado então à realidade da economia popular e solidária, é a articulação entre empreendimentos colocadas no mesmo espaço econômico e localizadas próximas uma das outras, onde as suas atividades são relacionadas e vão desde iniciativas produtoras de insumos básicos até as que produzem o produto ou serviço final, passando pelos produtos complementares, setores correlatos, instituições de pesquisa e fomento, além da infra-estrutura do território respectivo.

Os aglomerados, além de proporcionar sinergia para atração de novos empreendedores engajados e capacitados, proporcionam ”acesso à informação, sobretudo às técnicas (inovação), desenvolvimento de complementaridades, acesso a instituições e bens públicos, incentivos e mensuração do desempenho.” (PORTER, 1999, p.229-234)

Os aglomerados com boa atuação vão além das redes hierárquicas, para se transformarem em treliças compostas de numerosas conexões superpostas e fluidas entre indivíduos, empresas e instituições. (PORTER, 1999, p.240)

Aí está a força dos aglomerados. As vantagens proporcionadas são de várias ordens. O principal destaque é a tendência ao baixo custo de transação em comparação com negócios onde a interação é fragmentária e distante.

...o espaço social distingue-se das formas vazias (espaço físico) pelo próprio fato de sua cumplicidade com a estrutura social. Eis porque, com o desenvolvimento das forças produtivas e a extensão da divisão do trabalho, o espaço é manipulado para aprofundar as diferenças de classe. Esta mesma evolução acarreta um movimento aparentemente paradoxal: o espaço que une é o que separa os homens. (SANTOS, 1982, p.21)

O aglomerado é um espaço que une homens e mulheres, empreendimentos, instituições, em torno de objetivos, interesses e identidades partilhadas. Contribuindo organicamente para o fortalecimento da identidade sócio-cultural entre os atores e a parametrização ética do conjunto de relações dadas entre eles, contribuindo assim, mais uma vez, para a superação das dicotomias de espaços, como trabalhado por Boaventura de Sousa Santos (apud), onde o mesmo indivíduo desempenha diversos papéis fragmentando sua integralidade como ser humano.

Os relacionamentos, as redes e o senso de interesse comum são os pilares de sustentação dessas circunstâncias. Assim, a estrutura social dos aglomerados assume uma importância fundamental. (PORTER, 1999, p.239)



3.3.3 Ambiente de negócios e competitividade

A partir da estrutura social do aglomerado, é possível construir um ambiente de negócios extremamente positivo, combinando cooperação e competição. Da competição, premiando os empreendedores inovadores, os investidores comprometidos com a qualidade social e econômica de seus produtos e os melhores resultados para a melhoria da qualidade de vida a partir do contexto local. Da cooperação, consolidando a garantia dos acordos formais e informais pela relação de confiança e constrangimento ético no seio da sua comunidade, mas, principalmente conquistando aquilo que nenhum empreendimento conseguirá sozinho, o que inclui defenderem-se da incompetência e da corrupção que afeta pesadamente os custos operacionais.

As empresas não tem condições de empregar técnicas logísticas avançadas na inexistência de uma infra-estrutura de transportes de alta qualidade; não são capazes de utilizar estratégias com um forte componente de serviços, a não ser que tenham acesso a pessoas educadas; e tampouco operarão com eficiência, sob o enorme fardo da burocracia regulamentaria impondo diálogos sem fim com o governo, ou sob um sistema judiciário que não resolve os conflitos com rapidez e equidade. (PORTER, 1999, p.222)

Outro elemento importante na observação da qualidade do ambiente de negócios é de natureza microeconômica, em que “diz respeito a barreiras a entrantes, incluindo a curva de experiência, diz respeito ao tipo de mercado: concorrencial, monopolista ou de oligopsônio.” (PORTER, 1999, p.29/30/32) É esta tipologia que permitirá inferir sobre as condições de rivalidade.

A evolução para uma economia avançada exige o desenvolvimento de acirrada rivalidade local. Esta deve deslocar-se dos salários baixos para os custos totais mais baixos, o que exige o aprimoramento da eficiência na fabricação e prestação de serviços. Em última instância, ela também deve ir além dos aspectos de custo, para incluir a diferenciação. (PORTER, 1999, p.224)

Em seguida, temos mais uma elaboração onde Porter exemplifica o tipo de articulação cooperação-competição com que trabalha.

O contexto para a estratégia, e a rivalidade, pode ser dividido em duas dimensões principais. Uma é o clima para os investimentos em suas varias formas... A intensidade crescente dos investimentos na competição é imprescindível para o reforço das modalidades mais sofisticadas de concorrência e para a elevação dos níveis de produtividade. A estabilidade macroeconômica e política... as políticas microeconômicas também: a estrutura do sistema tributário, o sistema de governança corporativa, as políticas do mercado de trabalho...A outra dimensão são as políticas locais: abertura internacional, estatização, propriedade industrial, defesa da concorrência e influência da corrupção.” (PORTER, 1999, p.224/225)

Ora, se os investimentos de toda ordem se colocam na dimensão da competição, a conquista da estabilidade macroeconômica, incluindo o combate à corrupção só é possível mediante cooperação. Neste ponto, introduzimos um conceito que consideramos fundamental para a análise de situações concretas e para a conseqüente elaboração de estratégias, incluindo as políticas públicas. Trata-se do Estado da Competição:

O estado da competição num setor depende de cinco forcas básicas: 1)Poder de negociação dos fornecedores, 2)Poder de negociação dos clientes, 3)Novos entrantes, 4)Substitutos e 5)Manobras pelo posicionamento entre os atuais concorrentes (nível de competitividade). A potência coletiva dessas forças determina, em última instância, as perspectivas de lucro no setor. (PORTER, 1999, p.27/28)

Imediatamente, daí decorre a noção central de toda a obra, que conhecemos, de Porter. A Competitividade ou Vantagem Competitiva.

A vantagem competitiva implica na: Redução dos custos e Acentuação das diferenciações (menor custo e maior preço.)... A competitividade de um país depende da capacidade de sua indústria de inovar e melhorar. As empresas conquistam uma posição de vantagem em relação aos melhores do mundo em razão das pressões e dos desafios. Elas se beneficiam da existência de rivais internos poderosos, de uma base de fornecedores nacionais agressivos e de clientes locais exigentes. (PORTER, 1999, p. 100, 167)

Portanto, quando o autor se refere à competitividade de um país ou região, esta falando sobre o nível do padrão educacional, do investimento em Ciência e Tecnologia (incluindo as gerenciais) e do nível da auto-estima para arriscar com segurança e empreender. Também está se referindo ao nível de exercício da cidadania, da organização social e da elaboração/negociação de direitos em seu povo, além do nível de consumo do mesmo. Raciocínio que demonstra, mais uma vez, a possibilidade de forte articulação da teoria de Porter com as teorias da Causação Circular Cumulativa, de Myrdal, e dos Efeitos em Cadeia, de Hirschman.


3.3.4 O diamante de Porter

Avançando um pouco mais que seus antecessores, de nossa tríade, na técnica de análise de aglomerados e economias locais, Porter inova teoricamente com a formulação amplamente conhecida como do Diamante.

Quatro amplos atributos...lapidam o “diamante” da vantagem nacional: Condições dos fatores de produção, Condições da demanda, Setores correlatos e de Apoio e Estratégia, estrutura e rivalidade das empresas. (PORTER, 1999, p.178/224)


Figura 3: O Diamante de Porter – Vantagem competitiva das nações.

O diamante cria um ambiente que promove aglomerados de setores competitivos que não se dispersam... se interligam através de relacionamentos verticais (comprador-vendedor) e horizontais(clientes comuns, tecnologia, canais de distribuição) (PORTER, 1999, p.195)

Encontramos em Vázquez Barquero (2001) uma proposição estratégica a partir da Teoria do Desenvolvimento Endógeno, que guarda proximidade com a arquitetura do pensamento de Porter apresentando uma rearrumação de elementos já tratados no Diamante, e introduz outros, que enriquecem a acuidade da análise econômica sobre o desenvolvimento do aglomerado. Trata-se agora, do Efeito H.









Figura 4: O Efeito H Fonte: VÁZQUEZ BARQUERO (2001, p.31)

A Teoria do Desenvolvimento Endógeno, trabalha com 4 principais fatores determinantes de acumulação de capital, conforme aparece na figura (acima). No entanto, destaca que considera a dinâmica do conjunto dos fatores um elemento em si, capaz de criar um entorno exatamente onde as transformações sócio-políticas e o desenvolvimento econômico-ambiental se processa.

As cidades e regiões serão, provavelmente, melhor sucedidas em seus processos de crescimento e mudança estrutural quando todos os fatores atuarem de forma conjunta, criando sinergias mútuas e reforçando os efeitos sobre a acumulação de capital. (VÁZQUEZ BARQUERO, 2001, p.30) O encontro do Diamante de Porter com o Efeito H de Barquero, é um encontro em uma esquina. Os dois se vêem em pontos muito próximos vindos de caminhadas diferentes. Consideramos, no entanto, que mais uma vez, encontramos uma articulação teórica que cria possibilidades inovadoras na abordagem dos aglomerados, particularmente dos que pretendemos estudar neste trabalho.


3.3.5 A competitividade da localidade

Aplicando o Diamante a serviço de estratégias de Desenvolvimento Local, encontramos no próprio Porter uma reflexão adequada, quando ele reinventa o esquema do Diamante, elevando a importância dos setores correlatos (fator fomentador da cooperação), do ambiente adequado para a formação de novas empresas e da inovação para a promoção da produtividade e, portanto, da competitividade dos aglomerados.


Figura 5: Fontes da vantagem competitiva da localização Fonte: PORTER (1999, p.224)


As fontes de vantagem competitiva, segundo Porter (1999), seriam, neste modelo, 4 grandes fatores inter-relacionados, que podem proporcionar, dependendo da situação, vantagens competitivas para as empresas instaladas em uma determinada região e que participem, de alguma forma, do aglomerado.

Os quatro fatores são:

a) contexto para a estratégia e rivalidade da empresa: esse fator analisa duas dimensões, como o próprio Porter coloca. A primeira é a dimensão macro e microeconômica, onde se analisa a estabilidade política e regras claras da primeira, os sistemas tributários, as políticas de inventivos ao desenvolvimento da mão-de-obra, o nível de concorrência e profissionalismo dos gestores e sua capacidade de inovação gerencial e governança. A segunda dimensão analisa políticas locais, como “a abertura ao comércio internacional e aos investimentos externos, o grau de estatização da economia, as regras sobre propriedade industrial, as políticas de defesa da concorrência e a influência da corrupção, entre outros”;

b) condições de demanda: a demanda local influência as empresas à buscarem inovações constantes, principalmente aquelas empresas que localizam-se em áreas com presença de clientes sofisticados e exigentes, pois estes estimulam constantemente as empresas a desenvolverem novos produtos e serviços, até antecipando possíveis tendências externas. “Na economia global, a qualidade da demanda local é muito mais importante do que o tamanho.”;

c) condições de fatores: estes fatores são os insumos básicos para que as empresas tenham ganho de competitividade e clima de inovação constante. Entre eles tem-se “a infra-estrutura física, a informação, o sistema legal, os institutos universitários de pesquisa”, enfim as empresas não precisam somente de matérias-prima, elas precisam ter acesso ao conhecimento necessário para transformar-las em produtos competitivos;

d) setores correlatos e de apoio: esses são os aglomerados, que apesar de um dos fatores do “Diamante”, ele interfere, e é interferido, nas relações dos quatro fatores. Através dele as empresas tornam-se, ou pelo menos buscam tornar-se, competitivas graças ao aumento da competitividade, da capacidade de inovação, e pelo aumento do próprio aglomerado influenciando a abertura de novas empresas.

A fonte da força de um aglomerado está nas interligações entre as empresas participantes e seu grau de sinergia, fonte da força inovadora das mesmas. (PORTER, 1999)




3.3.6 Estratégia coorporativa

Partindo agora do ponto de vista do empreendimento econômico organizado, Porter enfatiza a importância do planejamento estratégico e da análise mercadológica permanente.

O conhecimento das fontes subterrâneas da pressão competitiva (das cinco forças) constitui-se nos pilares da agenda estratégica para a ação. Elas realçam os pontos fortes e fracos mais importantes da empresa, inspiram seu posicionamento no setor, iluminam as áreas em que as mudanças estratégicas talvez proporcionem o maior retorno e identificam os pontos em que as tendências setoriais são mais significativas em termos de oportunidades ou ameaças. (PORTER, 1999, p. 28)

O rico pensamento estratégico de Porter (1999) nos oferece dois pontos-chave para que o exercício do planejamento de um jeito que agregue efetivo valor à competitividade da organização econômica, ou corporação:

a) estratégia é criar uma posição exclusiva e valiosa, envolvendo (a escolha de) um diferente conjunto de atividades (p.63);

b) a essência da estratégia consiste em escolher o que não fazer. Sem isto, o desempenho dependeria totalmente da eficácia operacional (p.68)

Frisamos ainda que essa disposição coloca a organização econômica como sujeito ativo e consciente do processo de desenvolvimento, tanto como produtor quanto como consumidor. No entanto, implícito à noção de estratégia está o jogo político, o que confere à organização econômica mais um papel indelegável, o de demandar e controlar a execução de Políticas Públicas e da função reguladora do Estado.

Uma ilustração muito interessante desta perspectiva estratégica de interação sócio-política da organização econômica em seu ambiente é o mapa mental construído a partir de Seymour Melman. (2002)


Figura 6: Complexo Congressual, Industrial, Militar de Seymour Melman. Fonte: Disponível <www.watir.org/res/mil_indust_complex.htm>. Acesso em 10.04.2007.

Retratando o fluxo de relações e as interações sócio-econômico-político-cultural da Sociedade americana, a ilustração dá visibilidade a um fato estratégico, a nosso ver, fundamental: não há centro, ou, se houver, é dinâmico e mutante, incluindo a alternância de atores e/ou blocos de atores que o compõem em um determinado espaço e por um período passageiro.

O crescente escopo do poder de decisão dos gerentes estatais e corporativos será acelerado não apenas pelo movimento de fusão corporativa, mas mais decisivamente pela ampliação do papel do governo. Com uma história que abrange dois séculos, o capitalismo de Estado gerou uma diretoria de empresários corporativos-financeiros e de líderes governamentais-militares e políticos. Estes são os tomadores de decisões que comandam e apóiam empreendimentos interligados privados e governamentais, empenhados em acumular lucros e poder. (MELMAN, 2002, p.555)

Este novo paradigma de análise, observando algo que não tem centro, que gira dinamicamente, mas que tem uma determinada ordem, ainda que aberta – como a história demonstra desde a sucessão dos grandes impérios que conhecemos – oferece a oportunidade de enriquecimento da leitura dos aglomerados e da elaboração das estratégias, em sua dimensão adequada.

Outra contribuição que ajuda a fundamentar a necessidade de desenvolver metodologias para conviver com a complexidade da realidade sócio-econômico-cultural, é que começamos a nos dar conta de que, na verdade o fluxo que corre por dentre as relações social, econômicas e políticas – todas humanas – é o fluxo dinâmico do conhecimento. No entanto, alguns autores, erroneamente, caem na tentação de separar o conhecimento do trabalhador que o acumula e aplica, fazendo a adição de valor um processo crescente paralelo e proporcional à elevação da qualificação do trabalhador. Toffler (1995, p.33) chega a hipotetizar em um novo sistema de criação de valor, o “baseado não mais nos músculos, mas na mente”. Na verdade, Marx, no próprio livro I do Capital já fala desta adição do conhecimento ao trabalho humano, o que dividia, isto sim, a “mais valia” em “absoluta” e “relativa”; aquela baseada no uso cada vez mais intensivo dos músculos e da energia do trabalhador para produzir mais no mesmo período de tempo, enquanto esta última, a “relativa”, baseada no uso do mesmo tipo de energia física do trabalhador, mas com a intensificação do uso de tecnologias e conhecimento que tornam o “trabalho” mais eficiente e com maior produtividade (Marx, 1970). 

Apenas ousamos uma discreta diferença pontual de percepção. Entendemos que, na verdade, o fluxo do conhecimento corre por dentro de nós e nos envolve. E, envolveu o tempo todo, desde as origens. Só não tínhamos olhos para ver. Para ver que quando os músculos começaram a gerar riqueza, já lá estavam sob comando da mente, ainda que primitiva. A realidade muda com a mudança de nossas percepções e a cada mudança é preciso retroagir e recontar a história.

Neste sentido, é que hoje é possível perceber que a forma pela qual a riqueza é gerada pelo trabalho humano vai evoluindo e assumindo um tom cada vez mais abstrato, no sentido de que “os músculos” vão perdendo espaço para “os cérebros” como gerador de valor (cada vez mais relativo). A adição de conhecimento ao próprio capital, que não passa, no conceito marxiano, de trabalho acumulado, vai permitindo potencializar a força bruta individual e limitada em uma potência de centenas, depois milhares e, hoje, até mesmo de bilhões de cavalos de força, como no caso de uma gigante hidrelétrica. Este, entendemos, é o mais adequado fundamento de valor com que podemos operar as análises necessárias a este trabalho.


3.3.7 A materialização do valor trabalho no preço pago no mercado

O próprio Porter (1999, p.84-85) também não resiste à tentação de separar o processo de geração da força de trabalho, ao levantar o conceito de de “atividades de valor”, no sentido da existência de atividades que trariam maior valor do que outras. Neste raciocínio, quando a empresa estivesse mais disposta a pagar mais por um produto, isto ocorreria porque tais produtos teriam internalizado tecnologias consagradas e, acima de tudo, inovações de todos os tipos. Este processo, que tem sido chamado de “cadeia de valores”.

Porter refere-se às qualidades e credibilidade, eficiências adquirida ao longo e em cada etapa ou parte da cadeia produtiva. Ele assume que o “preço que os compradores estão dispostos a pagar pelo produto” transborda sua expressão monetária e ganha o significado mais abstrato de valoração, compatível com a própria expressão do conhecer. Se “paga” pelo valor atribuído a algo. Valor em utilidade e simbolismo abstrato daquilo que realiza subjetivamente determinado ser humano. Para Santos (1982, p.24), isto se caracteriza como um processo de fetichização do trabalho:

A característica da elaboração simbólica, diz P. Fraisse..., “está em que ela se exerce sobre símbolos que ocupam o lugar de outra coisa, que representam um referente, ou seja, uma outra realidade. O símbolo é presente, mas a realidade à qual ele remete pode ser presente ou ausente, passada ou futura, existente ou tão-somente possível”. Tais símbolos são “formações que representam objetos; que estão em relação entre si, ao mesmo tempo em que são distintos; que dependem de si próprios assim como os objetos dependem deles, constituindo porém entidades autônomas” (A. Lorenzer). Os símbolos adquirem vida própria e tornam mais eficaz a fetichização da matéria inerte.


A idéia de Cadeia de Valores, usa a aparência do que os olhos vêem, blindando a captação de mais valia relativa, cada vez mais abstrata e imaterial (por um lado; enquanto permanece na sua essência força de trabalho), fetichizada sob a forma de valores culturais, éticos, morais e utilitários,. Estes “valores”, na verdade, são recriados e incorporados abstratamente a um trabalho cada vez mais enriquecido com o próprio conhecimento humano, desenvolvido por trabalhadores que são inadvertidamente “substituídos” por apelidos como “designers” ou “cientistas”. Atribuímos às coisas relações determinadas materialmente pelo desenvolvimento das forças produtivas, particularmente daquela que é a única mercadoria que agrega valor ao produto, a força de trabalho. O Marketing é o “marketing”, mas, acima de tudo, é trabalho sofisticado incorporado ao produto. Isto não diminui a importância estratégica do Marketing, mas, muito pelo contrário. Valoriza aquilo que tem melhor nele que é a agregação de trabalho especializado e competente. Kotler (1999, p.177-178) também cai nesta tentação de separar o sujeito do objeto ao dizer que:


Se os clientes apenas comprassem produtos e não se importassem com serviços e benefícios adicionais e se todos os produtos de todas as categorias fossem iguais, todos os mercados dependeriam apenas de preço... A marca Starbucks significa que o café será mais fresco e saboroso. Marcas representam mais que o produto – representam um conjunto de serviços, valores e promessas oferecido pelo vendedor. No mercado hipercompetitivo de hoje, as empresas... Não vendem apenas valor de compra, mas valor de utilização. (KOTLER, P. 1999, p.177/178)

Quando ele diz que empresas como a Starbucks “não vendem apenas valor de compra, mas valor de utilização” é como se esta loja de conveniência vendesse apenas um copo de café por meio mil réis e o resto das enormes amenidades da loja não fossem “cobradas” como efetivo trabalho incorporado, quando, em verdade, o são: o café no STARBUCKS custa tudo, menos meio mil réis. O “ambiente” e o “conjunto de valores” que vem junto com o café são fruto da extrema sofisticação que o trabalho incorporado nos produtos e serviços alcançou neste final de século e início de uma nova era, dominada pela massiva e sistemática agregação de conhecimento ao trabalho humano. Este processo torna, paradoxalmente, ainda mais fácil fetichizar a mercadoria trabalho e a brutal acumulação de mais valia, que se torna ainda mais profunda, apesar de menos “desumana”, no sentido de que não implica mais na exaustão extrema dos músculos e dos próprios nervos dos trabalhadores. O novo design e a desmaterialização da produção não podem servir de razão para enxugar a produção das relações entre capital e trabalho e esvaziamento das funções especificas de cada qual, entre as quais a agregação de valor ao produto desencadeada pela incorporação do trabalho ao processo produtivo.

O Marketing, a partir das práticas de mercado vem gerando riqueza trabalhando subjetividades.

(...) a forma como o comprador paga depende do que faz mais sentido para ele. Depende do que o produto faz para quem o compra. Depende do que se ajusta à realidade dele. Depende do que o comprador vê como “valor”... Não á nada mais que marketing elementar. Começar com a utilidade do cliente, com o que ele compra, com quais são as realidades do cliente e quais são seus valores – isto é tudo o que é marketing. (DRUCKER, 2003, p.344/345)

Sem entrar em considerações específicas sobre o sentido de “utilidade”, entre outras categorias utilizadas por Porter, podemos nos servir do sentido geral de suas idéias para incorporar elementos teóricos, fortemente embasados empiricamente, neste caso, para enriquecer ainda mais a percepção das entranhas da “competitividade”. O mais importante da discussão deste autor é a adição de categorias que, até então faziam parte muito mais da ação social beneficente das empresas do que da própria estratégia de desenvolvimento corporativo, como cooperação e responsabilidade social. A era do capitalismo absolutamente individualista e competitivo parece que esta chegando ao fim como uma maneira do próprio sistema se reproduzir e alongar sua taxa de resistência às mudanças mais radicais. Quando Nickels e Wood (1999, p.222-223) dizem que “... mais e mais empresas concentram-se no cliente e nos relacionamentos de longo prazo”, estão colocando que a descoberta dos pontos de cooperação estão ficando, presentemente, pelo menos tão importante quanto à necessidade de competir.

Com a devida acuidade, é possível depreender que a busca pela lucratividade está encontrando surpreendentemente na construção da confiança, da credibilidade, da reciprocidade e, com alguma boa vontade, em relações economicamente solidárias, a estratégia para fidelizar clientes, diferentemente de tudo o que foi feito até aqui, que levava à percepção pejorativa do marketing como a arte de enganar.

É um avanço ético, mas claro que ainda embebido de profundo utilitarismo. No entanto, abordando a questão desapaixonadamente, poderemos perceber elementos estratégicos interessantes – olhar “desapaixonadamente” é uma coisa muito difícil para quem, como nós, temos a Economia Solidária não apenas como objeto de pesquisa, mas como filosofia de vida .

Quando ganha expressão econômica a consideração de que o relacionamento, comprometimento, a confiança, a credibilidade e a reciprocidade agregam valor e geram riqueza, processa-se, ainda embrionariamente, a possibilidade de uma transformação qualitativa no sentido de lucro e sucesso. Esses termos, muito caros ao mercado, que passam a se desconcentrar da idéia de faturamento monetário, que impunha a ditadura da meta de venda como um fim em si mesmo, custesse o que custarsse, para se relativizarem diante da perspectiva de sustentabilidade do negócio que colocava no centro estratégias de “relacionamentos de longo prazo”.

Estratégias, vale notar, que cada vez mais reposicionam a percepção da informalidade (não se confunda com economia de rua) como algo fundamental para a consolidação dos relacionamentos.

As sucessivas interações e os contratos informais na estrutura do aglomerado resultam da convivência e do trabalho numa área geográfica circunscrita, fomentando a confiança e a comunicação aberta e reduzindo os custos do rompimento e reformulação dos relacionamentos de mercado. (PORTER, 1999, p. 85)

Ora, na Economia Popular, a caderneta de fiados das mercearias e tabernas, o crediário da sacoleira, o contrato do marceneiro, do mecânico, do encanador, entre outros, já é uma prática fundada nos relacionamentos e que proporciona um ganho de custo na cadeia.

Voltando à tendência da incorporação do longo prazo, diríamos que só a mudança da noção de tempo neste contexto, que tende a retirar o caráter absolutista do curto-prazo, não é pouco. No entanto, somando-se a isso a tendência a se perceber lucro e sucesso incluindo elementos sociais, evidenciados pelo crescimento da prática e da legislação em torno do Balanço Social das empresas e da noção de responsabilidade social, nos parece possível inferir que estamos diante de uma oportunidade inédita para uma crítica cabal ao utilitarismo capitalista. Crítica que deve ser tão criteriosa na teoria e no discurso quanto na prática da produção e, mais ainda, do consumo. Oportunidade também de conferir novo sentido à idéia de Competitividade, mediada sempre e, cada vez mais, pela de Cooperação.

Portanto, a cadeia de valor e, mais especificamente, a cadeia de agregação de valor, é chave para compreender as oportunidades estratégicas para, no curto e no longo prazo, construir interações relacionais, institucionais, jurídicas e mercadológicas que impulsionem o desenvolvimento de um aglomerado a partir, neste contexto, do ganho de uma nova competitividade.


3.3.8 Liderança, investimento, compatibilidade e gestão da informação

Da leitura mais detida sobre as estratégias de competitividade elaboradas por Porter (1999), destacamos quatro passagens do autor que consideramos fundamentais para as finalidades deste trabalho.

A primeira passagem firma a noção de Liderança, como elemento de integração da organização econômica para dentro e no contexto do ambiente em que opera – fundindo a dimensão política à econômica.

As realidades competitivas de hoje exigem liderança. Os líderes acreditam na mudança, energizam suas empresas em busca da inovação contínua, reconhecem a importância do país como parte integrante do êxito competitivo e trabalham para o seu aprimoramento. Mais importante, os líderes reconhecem a necessidade das pressões e dos desafios. (PORTER, 1999, p.208)

A segunda passagem do texto de Porter que destacamos diz respeito ao papel central dos investimentos, sua qualidade, quantidade e pontaria estratégica.

A inovação e o aprimoramento decorrem de investimentos constantes em ativos fixos e intangíveis .Atualmente, as mudanças na natureza da competição e as pressões crescentes da globalização, transformam os investimentos no fator determinante mais importante da vantagem competitiva. (PORTER, 1999, p.456)

A terceira passagem trata da harmonia funcional, da sinergia que é necessária entre as partes da organização econômica para que a otimização operacional e relacional possa maximizar a competitividade. Porter denomina esta idéia de Compatibilidade. Mas antes vale frisar que esta Compatibilidade não se divorcia da relação com o mercado e a Sociedade.

Em vez de visualizar a empresa como um todo, os gerentes se voltaram para as competências “essenciais”, para os recursos “básicos” e fatores “críticos” do sucesso. Na realidade a compatibilidade é uma componente muito mais central na vantagem competitiva do que indica a percepção da maioria. A compatibilidade é importante porque as atividades distintas em geral afetam umas as outras...cria pressões e incentivos para melhorar a eficácia operacional, tornando a imitação ainda mais difícil. (PORTER, 1999, p. 69/72)

A quarta passagem complementa a terceira, trata do fluxo de informações e da Tecnologia da Informação com a organização fortalece a Compatibilidade entre suas partes e sintoniza com o mercado e a Sociedade.

...(TI) deve ser concebida de maneira ampla, para abranger as informações que a empresa cria e utiliza, assim como uma vasta gama de tecnologias convergentes e vinculadas que as processam. Assim, o conceito envolve, além de computadores, equipamentos de reconhecimento de dados, tecnologias de comunicação, automação de fábricas e outras modalidades de hardware e de serviços... Assim altera as regras da competição, gera vantagem competitiva (ao longo da cadeia de valores) e dissemina negócios inteiramente novos. (PORTER, 1999, p.84)

Finalmente, de outras leituras, incluindo entrevistas e reportagens sobre a obra de Porter, destacaríamos algumas idéias-força de seu trabalho, um dos mais influentes sobre os grandes executivos americanos, principalmente.

O resgate do Planejamento Estratégico, para nosso autor é uma tarefa incontornável e chave mestra para a melhoria da competitividade de uma organização. Sabe que a velocidade do fluxo de informações e a rapidez das mudanças fez os tomadores de decisão – públicos e privados, políticos e empreendedores – rodopiarem, e na vertigem da sucessão dos fatos, não confessam, mas abandonam a elaboração estratégica derrotados pelo curto-prazo, caindo no imediatismo e na superficialidade da percepção do cotidiano. Porém, a vertigem é uma sensação, muitas vezes absolutamente apartada de reais mudanças de paradigmas, fato muito mais raro do que parece ser, nos discursos de hoje em dia.

Porter, considera que as mudanças trazem oportunidades, mas também confusão. Por isso, a elaboração estratégica deve ser trabalhada como centralidade da organização. Ao contrário, o que se tem assistido, são políticos e empreendedores correndo atrás da referência que estabelecem para si mesmos, internalizando sua percepção, distanciando-se do mundo. Giram como o cachorro que corre atrás do próprio rabo, quanto mais expressam o que “acham” sobre as coisas, mais perdidos estão. E, quanto mais correm, menos saem do lugar em que meteram sua competitividade. Só a estratégia cria vantagens sustentáveis.

A estratégia, segundo Porter, deve começar com uma proposição diferenciada de valor. Delineando onde se é único. Mas isto exige fazer escolhas.

Ter estratégia é fazer escolhas e para isso é preciso de lideranças capazes. Com a incrível velocidade das mudanças a tecnologia e os métodos se tornaram fugazes, sem uma estratégia perdem o sentido. E isto deve ser o centro da formação das pessoas. Sem estratégia dispersam o poder de seu trabalho.


4 REVISÃO DA LITERATURA

4.1. COOPERAÇÃO ECONÔMICA E COMPETITIVIDADE

Tem sido no mínimo interessante observar na sociedade brasileira, para não mencionar outras, que ao mesmo tempo em que o modo capitalista de vida aprofunda o individualismo, o egoísmo, a ganância, a competição pura e a concentração de renda e poder, ou “parcimônia” como percebeu Adam Smith, temos assistido à proliferação de iniciativas solidárias que vão bem além da tradição da filantropia (do grego: dedicar-se ao outro). Tradição que já não é pouco, se contarmos o sem-número de iniciativas institucionais e anônimas que indivíduos, famílias e grupos de afinidade passam a assumir autonomamente.

No seio da sociedade civil, o crescimento do voluntariado, da responsabilidade social, da ação social das igrejas e da organização dos próprios setores populares excluídos chama nossa atenção para o fato do descontentamento com este modo de vida, embora ainda não haja uma forte mobilização contra o modo de produção (capitalista).

A formação de ONG’s (organizações não governamentais) ou terceiro setor, quer pela motivação social ou ambiental, se coloca como mais um indicador desse descontentamento, agora em um patamar de percepção maior do que as manifestações difusas na sociedade. As ONG’s, tanto entre as organizações que pretendem apenas amenizar os efeitos perversos do capitalismo quanto as que têm em perspectiva a superação definitiva desses efeitos, constituem um espaço sócio-político novo de institucionalização de interesses públicos não estatais. Ainda que as denominações: “não governamental” e “terceiro setor”, digam pouco sobre a definição e pluralidade deste fenômeno, fica claro o descontentamento com o papel do Estado sobre este modo de produção e vida em que nos encontramos.

No Brasil, as ONG’s, particularmente as vinculadas ao campo organizado hoje sob a ABONG (Associação Brasileira de Organizações não governamentais), são uma expressão eloqüente de possibilidades de cooperação institucional nacional e internacional que desde a década de 60 vêm gerando novos espaços de sociabilidade, de educação política por meio de metodologias de “Educação Popular” e de avanços na direção do “Controle Social” sobre o Estado, visando influir nas Políticas Públicas para diminuir a exclusão política e o aperfeiçoamento da democracia.

No plano institucional econômico, as cooperativas – possibilidade de organização social e de produção que foi derrotada pela hegemonia capitalista – desde o século XIX, permanecem como alternativas que se mantêm e hoje crescem como opção de viabilidade econômica de grupos sociais antes excluídos e até de reabilitação de empresas falidas, que passam a ser gerenciadas pelos seus trabalhadores cooperados, sob auto-gestão. Sob empreendimentos em regime de autogestão, apenas no âmbito da ANTEAG (2005), estão “mais de 32 mil postos de trabalho. Apenas de 1999 a 2001, foram reestruturados 420 empreendimentos em áreas de 129 municípios brasileiros”.

O exemplo mais eloqüente desta possibilidade é a experiência tida em Mondragon, na Espanha. Do trabalho iniciado pelo jesuíta Dom José Maria Arizmendiarreta – que na década de 40 ao mesmo tempo em que ensinava aos jovens do lugar um ofício também ensinava gerência e ética – hoje há o Complexo Cooperativo de Mondragon que ultrapassou os 22 mil cooperados em mais de 100 cooperativas do grupo, movimentando mais de 2,6 bilhões de dólares anuais. Quase impossível pensar nisso quando começou com apenas cinco alunos de D. José.

O segredo de D. José? Foi a percepção dos atributos locais, uma região basca que sob pressão do governo espanhol desenvolveu “um povo esforçado e trabalhador, uma solidariedade baseada nos maus-tratos do governo e uma forte estrutura social” (BARKER, 1997). Somou aos atributos do local uma respeitável reputação do trabalho que realizava com os jovens para enfrentar um desemprego de 20% e uma estratégia de marketing capaz de mobilizar a sociedade local que mesmo com suas dificuldades arrecadou cerca de 360 mil dólares para que iniciassem um negócio. Ou seja, o segredo não é segredo, é teoria. A Causação Circular Cumulativa de Myrdal (1965) nos ajuda a entender o exemplo.

Assim, exatamente no período em que o neoliberalismo grassava no mundo – a segunda metade do século XX – o Complexo Cooperativo de Mondrgon “cresceu e desenvolveu uma democracia trabalhista única, na qual os funcionários eram donos das empresas, a relação capital-trabalhador foi invertida e o espírito empreendedor florescia num ritmo de sucesso sem igual”. (BARKER, 1997)

(Sobre a estrutura financeira) Antes de mais nada, todos os trabalhadores participam com recursos financeiros próprios na cooperativa da qual fazem parte. Em segundo lugar, (com o fundo acumulado) foi criado um banco cooperativo para atender à cooperativa. Sua missão é muito clara: financiar novos empregos de forma que todas as pessoas que desejem trabalhar na região de Mondragon possam fazê-lo. Essa missão é mais importante é mais importante do que conseguir o melhor retorno sobre o investimento, violando assim o paradigma predominante das atividades bancárias. (BARKER, 1997, p.76)

O próprio mercado, como um todo, começa a dar sinais práticos da percepção de que os processos de exclusão social e econômica diminuem suas possibilidades de crescimento, mesmo na lógica do lucro crescente. A flexibilização dos critérios de crédito no comércio crescem para recuperar contingentes que a inadimplência colocou para fora e os parâmetros para acesso a crédito, a partir do que já é feito no microcrédito, começam a flexibilizar o paradigma de Basiléia, criado no acordo de Comitê de Basiléia em 1988, que definia os parâmetros de risco e garantia para todo o sistema bancário mundial.

As mudanças de critério já refletem sobre estatísticas interessantes. Existem no país, segundo CONDERE, a empresa de pesquisa de mercado de São Paulo, 29 milhões de cartões de créditos. Em 2007, apenas 18% desses estão em mãos das classes de renda A e B. Mais de 18 milhões de cartões de crédito estão nas classes C e D, entre os que ganham até 3 salários mínimos. Outra consultoria, a Data Popular (2007) de São Paulo, estimou que 42% dos que usam cartão de crédito são da classe C e 29% da classe D. Ou seja, por dentro da lógica comercial e capitalista, vai ocorrendo a gestação de uma nova possibilidade. Uma organização social e econômica que começa a buscar na inclusão sócio-econômica a solução de seus problemas. Estabelecendo estratégias cada vez mais focadas na cooperação. 

A clara tendência a modelos de desenvolvimento que dão relevância para cadeias, clusters, aglomerados, arranjos e sistemas produtivos vai aos poucos dando evidência para o papel de estratégias cooperativas na sustentação da sobrevivência de empreendimentos, particularmente os da Economia Popular (ARROYO e SCHUCH, 2006) e, da própria Vantagem Competitiva (PORTER, 1999) de setores e regiões.

Curioso que, em rápidas inserções buscando as raízes da cooperação, encontramos evidências de que, na origem, esta era a nossa tendência natural e/ou preferencial, antes da opção pela competição.


4.1.1 A Divisão do trabalho social e a desumanização da economia

Nossa investigação procurou elementos teóricos para compreender o que e em que momento fez a composição cooperação-competição ser presidida pela competição, distorcendo uma tendência que nos viabilizou como espécie. Do que entendemos, percebemos que a composição cooperação-competição é inseparável. No entanto, a causação cumulativa sob a presidência da cooperação é bem diferente da presidida pela competição. Na origem, viabilizamo-nos pela nossa capacidade de cooperação. Ou seja, foi a cooperação que nos conferiu competitividade diante de espécies predadoras mais aptas. Tanto porque, ao não excluir indivíduos, o rebanho humano crescia em número, quanto pela interação e solidariedade que fez a qualidade das relações e laços para que propiciassem a execução de tarefas mais complexas capazes de garantir sobrevivência e segurança a todos.

No entanto, á medida que os rebanhos foram se constituindo em sociedades e as ameaças externas à sobrevivência foram ficando menos evidentes, a competição se colocou como possibilidade de desenvolvimento humano. A latência desta possibilidade se somou à diferenciação de grupos no interior das sociedades que se complexificavam, em estratos e outras subdivisões. Além desta, combinou-se também a um longo período histórico obscuro, a Idade Média, quando a dimensão individual ficou marcadamente subordinada aos ditames de uma lógica coletiva muitas vezes perversa, ainda que bastante diferenciada ente os estratos sociais.

Com a Renascença (do pensamento Greco-Romano) e o Iluminismo, a valoração da dimensão individual ganhou força tanto como filosofia e arte quanto como discurso político, crescendo gradualmente até o marco histórico da Revolução Francesa que cravou definitivamente o tema da Liberdade como parâmetro para a recomposição da política, da economia e outras dimensões sociais.

Surgiu daí, pelo menos duas possibilidades no avanço da valoração da individualidade solapada na Idade Média. Uma em que a liberdade individual se articulava à fraternidade e à igualdade como no ideário republicano da Revolução Francesa. E, outra que focava a liberdade individual como direito à iniciativa econômica (a dos burgos), pragmaticamente tomada como único caminho para, pelo menos, equilibrar em curto prazo as relações sociais e políticas com uma nobreza opressora, mesmo quando decadente. Como se sabe, a segunda hegemonizou a história até aqui.

No entanto, não se pode perder de vista que neste processo a diferenciação da sociedade, que cada vez mais se complexificavam permanecia como elemento estruturante na nova possibilidade que se efetivava. Diferenciação esta que, combinada à valoração da individualidade e à estratégia de recorrer à acumulação econômica para enfrentar a nobreza opressora, foi virando individualismo, tal como o assistimos hoje, reeditando rupturas a partir de grupos e nichos sociais específicos que articulam outras ordens por dentro do Estado como o fenômeno do crime organizado, das gangues, tribos etc.

A partir daqui recorreremos a Èmile Durkheim que em sua primeira grande obra, A Divisão do Trabalho Social (1893), apresenta algumas categorias que nos ajudam a entender o desfecho histórico deste período e perscrutar as tendências em que vivemos.

Para Durkheim (1893), qualquer agrupamento humano só se constitui em sociedade se for estabelecido algum laço de solidariedade entre os indivíduos para que daí se estabeleça o pacto de convivência e a ordem social que deverá ser respeitada por todos.

Na origem da sociedade, quando se encontravam poucas diferenciações internas, a manutenção dos laços sociais se dava por uma Solidariedade Mecânica (DURKHEIM, 1893), estabelecida exatamente pela semelhança e alta identidade de cultura, crenças e valores entre seus membros. Com a complexificação da sociedade – pela miscigenação, migração, acordos de guerra entre outros – se deu uma diferenciação interna em estratos, funções econômicas e papéis sociais, entre indivíduos e pequenos agrupamentos que não mais tinham o mesmo grau de identidade, exigindo uma outra lógica de solidariedade para que se chegasse ao pacto e ordem social necessários para sua unidade. Neste momento, a solidariedade busca assentar-se exatamente nas diferenças, e não mais na semelhança como antes. Este é o conceito de Solidariedade Orgânica (DURKHEIM, 1893).

A Solidariedade Orgânica inclui um elemento que ainda não tratamos. O processo de complexificação social que mencionamos teve na diferenciação por função econômica um elemento-chave: A Divisão do Trabalho. 

Consideramos que a complexificação da sociedade com sua conseqüente diferenciação, no início marcadamente étnico, fez com que na transição entre a Solidariedade Mecânica, baseada na semelhança, e a Solidariedade Orgânica, baseada na diferença, ocorresse uma superposição entre diferenciação étnica e diferenciação econômica, social e política. Não por acaso, os derrotados na guerra eram incorporados na sociedade do grupo vitorioso como escravos, cumprindo um papel econômico e político muito específico. Não por acaso, em período muito mais recente, no Brasil, os pobres de hoje possuem uma expressiva relação étnica com os escravos da colonização.

Assim, os benefícios da conquista da Liberdade, também foram apropriados diferenciadamente. Com a conquista de o livre empreender pelos burgueses e a busca de tecnologias como as que eclodiram a Revolução Industrial, a divisão social do trabalho se aprofundou atribuindo, a cada segmento uma função na engenharia do novo modo produtivo, conseguindo sobreviver a uma contradição intrínseca.

Ao mesmo tempo em que a linha de montagem se decompunha em operações simples, fazendo com que a interdependência entre os indivíduos se evidenciasse, inclusive criando condições para a possibilidade de um aprofundamento da solidariedade, a capacidade produtiva aumentava exponencialmente sem garantir a sobrevivência e a segurança, principais motivações originais da cooperação, já que a acumulação de capital era fortemente concentrada entre os burgueses apenas, em uma escala muito maior do que a própria reprodução destes necessitava.

Portanto, ao mesmo tempo em que se operava a Solidariedade Orgânica (DURKHEIM, 1893) entre diferentes, para a unidade da sociedade sob um mesmo Estado, no plano econômico, a partição desigual se aprofundava aceleradamente com uma densidade que acabou por fazer com que tudo o mais lhe gravitasse em torno.

No plano ideológico-filosófico, Durkheim identifica o Utilitarismo como elemento que conferiu densidade ao processo econômico capitalista naquela situação histórica específica.

O Utilitarismo, doutrina estruturada por Jeremy Bentham e John Stuart Mill na primeira metade do século XIX, forte tributária do Racionalismo, considerava que toda decisão humana se apoiava em um cálculo de utilidade com relação a sua conseqüência, ou resultado, na direção do bem-estar entre os envolvidos. Bentham em Introdução aos Princípios da Moral e da Legislação explica:

Por princípio de utilidade, entendemos o princípio segundo o qual toda ação, qualquer que seja, deve ser aprovada ou rejeitada em função se sua tendência de aumentar ou reduzir o bem-estar das partes afetadas pela ação...Designamos por utilidade a tendência de alguma coisa em alcançar o bem-estar, o bem, o belo, a felicidade, as vantagens, etc. O conceito de utilidade não deve ser reduzido ao sentimento corrente de modo de vida com um fim imediato. (BENTHAM apud WIKIPÉDIA, 2007, p.54)

A ressalva de Bentham serviu de profecia. Fundindo-se ao processo de divisão social do trabalho e ao individualismo, o utilitarismo se estabeleceu como cultura, instalando o imediatismo em torno de resultados, a depreciação da moral em função da ação e sua conseqüência, o sacrifício, de um indivíduo ou segmento como recurso justo, se compreendido como necessário para o benefício de todos – o que acabou sendo o sacrifício de um grupo para o benefício de outro.

Na economia, o Utilitarismo consolidou a idéia de que os indivíduos tomam decisões sempre racionais buscando maximizar seus ganhos e lucros. E, traduziu bem-estar e felicidade em conforto material, fazendo “acumulação” tomar o significado de prosperidade e, também, fazendo “crescimento” tomar o significado de desenvolvimento.

Neste instante, ocorre uma passagem fundamental, a nosso juízo, para a compreensão de por onde passou a acomodação da contradição instalada entre a solidariedade necessária para a constituição da sociedade e a acumulação privada de capital. O somatório cumulativo entre a noção de liberdade individual liberal, a divisão social do trabalho, as pretensões sociais e políticas burguesas, o individualismo, as possibilidades tecnológicas da Revolução Industrial e o Utilitarismo compuseram o ambiente da apartação entre trabalho e trabalhador.

Esta concepção apartou na abstração da percepção humana e, por interação, na concretude da vida prática, o “trabalho” – que passou a Figura urar entre outros fatores de produção, na mesma altura do capital e da terra – do “trabalhador”, ser humano com uma dada função econômica, como todos os outros, e elemento fundante da sociabilidade necessária, inclusive, para o fluxo econômico.

Assim, a idéia de “força de trabalho” passou a simbolizar esta abstração e ser concebida como mercadoria, exatamente como qualquer outra, subordinada a toda e qualquer suposta lei econômica. Portanto, trabalho e trabalhador, já que inseparáveis, artificialmente foram reduzidos a insumo e elemento de custo que precisa ser otimizado para gerar a maximização da rentabilidade.

Com a apartação entre “trabalho” e “trabalhador”, no contexto cultural Utilitarista, tornou-se plenamente justificável o recurso do desemprego – ou mais amplamente, da exclusão social, e política, portanto – como estratégia de acumulação de capital de alguns. Como se isso não implicasse na desestabilização da unidade familiar, considerada como pilar da sociedade e da própria economia. Como se isso não concorresse para a diminuição da força de trabalho ativa que gera a riqueza da nação. Como se isso não rebaixasse a qualidade de vida geral com a geração de miséria, violência e degradação ambiental, aumentando os custos econômicos de gestão dos equipamentos públicos. Como se isso não afetasse o próprio pacto societário e a própria razão de ser da sociedade: garantir sobrevivência e segurança aos seus associados.

No entanto, recorrer ao “corte de pessoal”, como cortar qualquer insumo produtivo, é tido como uma atitude racional, absolutamente coerente com o pressuposto liberal, enunciado por Adam Smith (1776), de que a maximização do interesse coletivo se alcança exatamente quando cada indivíduo busca maximizar os seus ganhos particulares – tese contraditada com consistência por John Nash, a partir da aplicação da Teoria dos Jogos na economia, que lhe rendeu o Nobel de 1994 por seu trabalho “Jogos Não-Cooperativos”(1951) no qual expunha a possibilidade de ocorrência de mais de uma solução de equilíbrio em uma dada situação competitiva e que estas soluções dependiam de cooperações entre os envolvidos.

Neste ponto, a noção de Solidariedade Orgânica de Durkheim (1893), precisa da assessoria do conceito de Hegemonia de Gramsci (2000a), para explicar que tal solidariedade ocorre, não por livre adesão, mas por uma combinação de consenso e coerção.

Durkheim (1893) aprofunda a crítica ao Utilitarismo e à economia clássica, dizendo que “A economia clássica criou um mundo econômico que não existe”, gerando a desregulação econômica e superdimensionando instituições econômicas particulares. A vida econômica não nasceu da vida individual, ao contrário, foi a segunda que nasceu da primeira.

Outros autores que consideramos, por exemplo como Marx, Habermas, Drucker, contribuíram com a crítica ao Utilitarismo e à idéia de que os indivíduos decidem racionalmente pelo que maximiza seus ganhos. Destacamos três fortes argumentos: 1) A assimetria da informação e conhecimento entre os atores do jogo econômico, que não permite a previsibilidade do comportamento humano. 2) A incerteza dos resultados que não garantiria a causação estimada pelo comportamento utilitarista. E, 3) o forte componente emocional nas tomadas de decisão individuais, já demonstradas empiricamente pelo marketing.

Sumariamente, diríamos que a racionalidade da calculabilidade utilitária, particularmente aplicada à economia, reduz o ser humano a uma peça produtiva descartável, reeditando o darwinismo da lei do mais forte, desumanizando profundamente a sociabilidade que vivemos.

Esta racionalidade e calculabilidade não consideram que os seres humanos adoecem, vivem neuroses e psicoses, crêem, envelhecem, necessitam de relações confiáveis e que são profundamente interdependentes tanto em sua sustentação física quanto emocional. Considera apenas os aspectos humanos que concorrem para a acumulação de riqueza e poder, chegando a precificar relações e pessoas. “Dinheiro compra tudo. Compra até amor sincero” , disse Nelson Rodrigues, dramaturgo, 1912-1980.

Na verdade a “desumanização” da economia é uma possibilidade humana, uma construção abstrata a partir de um processo de alienação do homem com relação as suas próprias projeções na natureza e nos outros indivíduos. Passando a admitir sua própria reificação. (MARX, 1893)

Apenas como ilustração de outro caminho necessário para se aproximar da plena compreensão da relação entre o ser humano, suas decisões e o fenômeno econômico, lembramos a obra de Sigmund Freud.

Agora, penso eu, o significado da evolução da civilização não mais nos é obscuro. Ele deve representar a luta entre Eros e a Morte, entre o instinto de vida e o instinto de destruição, tal como ela se elabora na espécie humana. Nessa luta consiste essencialmente toda a vida, e, portanto, a evolução da civilização pode ser simplesmente descrita como a luta da espécie humana pela vida. E é essa batalha de gigantes que nossas babás tentam apaziguar com sua cantiga de ninar sobre o Céu. (FREUD, 1978, p.175).

Para os economistas pode parecer impróprio ou inadequado, mas para os homens de marketing a psicologia é apenas um instrumento de trabalho para “fazer” mercado. Basta olhar no mar da propaganda a eterna luta entre Eros e Tanatus de que fala Freud. Sugerindo que o comportamento humano exige uma apreciação bem mais complexa e profunda do que os modelos econômicos têm podido explicar. Mais um reforço à tese da incorporação dos “fatores não-econômicos”.

Neste sentido, mesmo de passagem, registramos ainda que este suposto conflito humano incurável, simbolizado por Freud, entre Eros e Tanatus é uma pista possível para compreender melhor a natureza da relação Cooperação-Competição, a ser checada.

Outra pista interessante com que nos deparamos são as duas atribuições aparentemente distintas à Felicidade. O Utilitarismo atribui à felicidade o sentido de conforto material. Freud atribui à felicidade a satisfação de “Eros”, das pulsões ao prazer dos seres humanos. Como enfrentar esta questão, já que toda pretensão de desenvolvimento, incluindo o econômico, é no sentido da felicidade, sem que se defina exatamente o que se quer dizer com isso?


4.1.2 Cooperação e competitividade

Como vimos, não há antagonismo entre competição e cooperação. Ao contrário, estas duas estratégias quase sempre ocorrem de maneira complementar entre si. No entanto, identificamos que há uma mudança de qualidade nos resultados de um processo hegemonizado pela cooperação de outro, hegemonizado pela competição, mesmo encontrando combinações entre as duas estratégias.

A competição é boa de dois pontos de vista: ela permite...escolher o que mais nos satisfaz pelo menor preço; e ela faz com que o melhor vença...(Mas) o que acontece com os empresários e empregados das empresas que quebram?...o capitalismo produz desigualdade crescente, verdadeira polarização entre ganhadores e perdedores. Enquanto os primeiros acumulam capital, galgam posições e avançam nas carreiras, os últimos acumulam dívidas pelas quais pagam juros cada vez maiores, são demitidos...tornam-se inempregáveis... (SINGER, 2002, p.8)

Nos processos em que a combinação cooperação-competição é presidida pela competição, a tendência é de exclusão dos “derrotados” enfraquecendo o ambiente sistemicamente, ou seja, todos perdem. Nos processos em que a combinação é presidida pela cooperação a tendência é a alternância de liderança ou a consolidação de uma liderança sem exclusão que provoque perda sistêmica, mantendo a diversidade e a riqueza de possibilidades de interações que levem às sinergias positivas ou Causação Circular Cumulativa (MYRDAL, 1969) ascendente.

Vemos na política uma atividade humana que, apesar de envolver muito a idéia de “aliança” e “consenso”, tende a ser presidida pela competição já que aquilo que poderia ser o pano de fundo de sua regulação, ou seja, as regras do jogo são elas mesmas objeto da disputa de poder. A obediência dos “derrotados” às regras estabelecidas pelos “vencedores” só é aceita por absoluta impossibilidade de não se submeter. Daí a validade do sentido de hegemonia em Gramsci, “consenso e coerção”. Se houver possibilidade de não se submeter há a cisão, o racha e o sistema se enfraquecem. Ocorre ainda a possibilidade de um raro equilíbrio em que as forças se anulam e o sistema se enfraquece do mesmo jeito. Há cidades no interior da Amazônia onde a cada eleição, se ocorre alternância de grupo de poder, há a mudança de algo como 20% da população. Os do grupo vitorioso, que moravam fora, voltam e, mais ou menos o mesmo tanto dos derrotados que podem migrar o fazem para se proteger das humilhações e perseguições políticas.

No esporte, o que ganha visibilidade é a idéia da competição. Há na verdade, antes da competição, a cooperação para construir um marco regulatório e institucional da disputa com o acordo em torno de regras que tornem a vitória algo reconhecido por todos e que agregue valor ao sistema, fazendo com que todos ganhem.

Na economia, sob a presidência da competição temos assistido a um processo de exclusão social e econômica, além da devastação ambiental que vem empobrecendo sistemicamente a sociedade na mesma proporção em que concentra renda e poder. Tanto quantitativamente, a média que reduz mercado e potencial produtivo ao excluir pessoas que poderiam gerar consumo e força de trabalho, quanto qualitativamente com a depreciação das relações sociais, econômicas e culturais com a venalização do trabalho, apartado artificialmente do trabalhador, e dos valores morais e éticos que dão integridade aos indivíduos e à Sociedade.

Por outro lado, quando a economia, mesmo localmente, é presidida pela cooperação, como na experiência já relatada de Mondragon, podemos assistir a processos de recuperação de regiões antes deprimidas economicamente onde a cooperação foi a principal substância da competitividade. Tal percepção tem dado a grande atratividade às idéias como clusters, arranjos, aglomerados e sistemas produtivos. E esta é uma tendência que transborda a economia e remete a uma expectativa de resgate da valoração da integralidade humana e seus valores positivos nas mais diversas atividades da Sociedade.

Entendemos que a cooperação é uma opção estratégica econômica baseada na interação social, em que os objetivos são comuns, as ações são compartilhadas e os benefícios são distribuídos com equilíbrio por todo o sistema. Já a competição é uma estratégia econômica que aposta em uma interação social excludente, em que os objetivos são mutuamente exclusivos, as ações são isoladas ou em oposição umas as outras. E os benefícios são concentrados em alguns segmentos do sistema.

Adotar a competição como estratégia, mesmo quando fundada na idéia da dessemelhança entre os seres humanos – que justificaria a riqueza de uns diante do determinismo da pobreza de outros – significa cair na ilusão da exclusão social como forma de “purificar” ou “qualificar” a sociedade. Na verdade, os “excluídos” não são excluídos do sistema, eles ficam no sistema, pesando como força de trabalho inativa e demandante de serviços de educação, assistência, saúde e segurança, o que onera o Estado, além de contribuir com outros fatores geradores de um ambiente propício à violência social e organizada, depreciando a qualidade de vida de todos, sem exceção. 
Contudo, quando a competição está subordinada à cooperação, cumpre um papel imprescindível de mobilização de forças novas e inovadoras, únicas capazes de fazer o sistema ganhar com saltos de qualidade. A cooperação pura, sem qualquer mediação com estratégias competitivas subordinadas, leva á estagnação e à perda de qualidade nivelando o sistema por baixo. Nem o mais fraco deve ser a referência da média, nem o “mais apto” significa ser o mais forte – tal como se atribui ao darwinismo.

No entanto, contam, que mesmo Darwin, ficou amargurado por suas teorias terem sido distorcidas para justificar negociatas, crueldades e guerras contra os mais fracos. Charles Darwin afirmou claramente que, para a raça humana, o valor mais alto de sobrevivência está na inteligência, no senso moral e na cooperação social. (SOLLER, 2003) O ideal seria construir possibilidades de contribuir para desenvolver na Sociedade o respeito mútuo, a solidariedade e a amizade sem abrir mão de empreendimentos bem administrados, competitivos no sentido de sua própria sustentabilidade.

Uma destas possibilidades, destacamos, é a do jogo cooperativo como instrumento pedagógico para empreendedores. Segundo Lopes (2005), o jogo por si só é uma atividade que contém em si mesmo o objetivo de decifrar os enigmas da vida e de construir momentos de prazer. Podendo ser utilizado como uma atividade de desenvolvimento humano, permitindo, então, uma participação de aprendizagem, que contextualiza a competição, transformando-a em um exercício crítico e consciente de apreender a solidariedade.

Quando se evidencia que se jogam uns com os outros e não uns contra os outros, trabalha-se a percepção da importância econômica da convivência entre as pessoas, a confiança mútua e a participação autêntica de todo o grupo como únicos elementos capazes de maximizar o que a Sociedade pode nos dar: melhor qualidade de vida – melhor sobrevivência e maior segurança. É preciso reconhecer que a verdadeira vitória acontece, quando não há a derrota dos outros, porque isto significa maior estabilidade e sustentabilidade do sistema.

Podemos compreender que ao participarmos do jogo econômico, concebendo-o como um componente da vida, o principal valor está na oportunidade de conhecer melhor nossas próprias habilidades e nosso potencial e então cooperar para que os outros realizem o mesmo. Os jogos cooperativos, segundo Barreto (2005), possuem cinco princípios básicos, julgados fundamentais para seu desenvolvimento. São eles: inclusão, coletividade, igualdade de direitos e deveres, desenvolvimento humano e a processualidade ou estratégia. A partir desta reflexão pedagógica podemos inferir algumas possibilidades de aumento de competitividade, a partir de estratégias econômicas cooperativas, principalmente em Aglomerados, como expressão mais intensa do que ocorre na Sociedade como um todo.

Esse grande aumento da quantidade de trabalho que, em conseqüência da divisão do trabalho, o mesmo número de pessoas é capaz de realizar, é devido a três circunstâncias distintas: em primeiro lugar, devido à maior destreza existente em cada trabalhador; em segundo, à poupança daquele tempo que, em geral, seria costume perder ao passar de um tipo de trabalho para outro; finalmente, à invenção de máquinas que facilitam e abreviam o trabalho que, de outra forma, teria de ser feitas por muitas...(assim) o casaco de lã, por exemplo, que o trabalhador usa para agasalhar-se é o produto do trabalho conjugado de uma multidão de trabalhadores. O pastor, o selecionador de lã, o cardador, o tintureiro, o fiandeiro, o tecelão, o pisoeiro, o confeccionador de roupas, além de muitos outros...(transporte, armazenagem, comércio, crédito etc.) (SMITH, 1988, p.19-22)

Fica aqui claro, que as raízes da divisão do trabalho que abriram a possibilidade do Capitalismo, ao mesmo tempo, multiplicaram as interdependências entre os indivíduos, aprofundando a necessidade de cooperarem entre si em função de serem obrigados a estabelecer um círculo muito maior de trocas e portanto, de relações humanas confiáveis, o que significa solidariedade, para obterem o que precisam para seu conforto material, espiritual, afetivo e social, ou seja, sua qualidade de vida – considerando sua cultura.

Portanto, a superposição da hegemonia Utilitarista sobre este processo econômico, acarreta-lhe uma contradição estrutural, ao lhe induzir à lógica da concentração de renda e poder, gerando a exclusão social, contraindo o mercado de trabalho. A taxa de lucro cai, não por explorar-se menos o trabalho, e sim por empregar-se menos trabalho em relação ao capital aplicado. (MARX, 1890, p.283)

Ora, esta citação permanece válida se considerarmos que o único fator de produção capaz de gerar mais-valia é a força de trabalho. Se é possível que surja um resultado diferente em uma empresa específica – em função de uma possível composição tecnológica que exploraria sobretudo a mais-valia relativa (MARX, 1893) – na magnitude agregada da economia esta formulação ganha, a nosso ver, validade lógica inconteste. Particularmente se percebemos a interdependência e as interações entre agentes e fatores de produção como a sinergia do fenômeno econômico, tal como estamos tentando fazer neste trabalho.

Quando todo o sistema começa a mover-se, depois desse choque (devido à intervenção externa), as mudanças que se operam nas forças atuam na mesma direção, o que não é a mesma coisa. Isto ocorre porque as variáveis se entrelaçam de tal sorte, em processo de causação circular, que a mudança em qualquer delas provoca alteração nas outras, estas fortificam as primeiras, seguindo-se efeitos terciários sobre aquela primeira variável afetada, e assim sucessivamente. (MYRDAL, 1969, p.40)

Identificamos que, ao descrever o processo da Causação Circular Cumulativa, Myrdal trabalha evidentemente com as relações entre agentes e fatores como mencionamos. Portanto, subjaz na elaboração desse autor a cooperação como condição intrínseca necessária para que ocorra a causação circular positiva ou ascendente. Ora, se o choque dado no sistema não induzir entre os agentes a perspectiva de objetivos comuns, em que todos ganhem – ou vier acompanhado de outros mecanismos que façam tal indução – ocorrer um atrito também cumulativo, até que se conseguia frear, e parar, a roda da Causação Circular. Ou ainda, a cooperação como percepção do “jogo de ganha-ganha” por parte dos agentes – os que fazem a roda continuar a mover-se, ou não – funciona como um lubrificante necessário para diminuir o atrito entre as engrenagens. Mas um lubrificante muito especial, que não só diminui o atrito como até pode acelerar o giro da causação, mesmo após cessada a intervenção exógena no dado sistema econômico.

Hirschman (1976) ao apresentar sua teoria dos Efeitos em Cadeia, promete, um conceito “mais inclusivo para ser usado na consideração de algumas seqüências de desenvolvimento selecionadas”, referindo-se sobretudo à situações de subdesenvolvimento que estudou como poucos.

...uma atividade com muitos elos diretos com o resto da economia, por seus efeitos em cadeia retrospectivos e prospectivos, ou mais simplesmente porque se localiza na região central de um país e é realizada por produtores que possuem íntimos laços com uma vasta rede de comerciantes e habitantes da localidade: com tantas relações de amizade a sua atividade não será submetida a severas taxações. (HIRSCHMAN, 1976, p.14)

Na tentativa de demonstrar a diferença da incidência da capacidade estatal de tributar entre enclaves, mais desprotegidos pela baixa interação com a Sociedade local, e cadeias, como na citação, Hirschman revela o peso que atribui às “laços íntimos” e “relações de amizade” com “redes” e “habitantes da localidade”. Como no texto o autor está se referindo a sua tese dos Efeitos em Cadeia de natureza Fiscal, estes elementos surgem com forte conotação política. A nosso ver, isto só reforça as evidências de que, para Hirschman, a cooperação entre os agentes econômicos é um elemento relevante para o grau de eficácia e reprodução dos Efeitos em Cadeia, embora alerte que isto também pode ensejar uma cooperação perniciosa ao conjunto do sistema, quando a cooperação se limita a uma dada corporação ou setor em detrimento da competitividade do sistema como um todo.

Hischman (1994), sobre conflitos em Sociedades de mercado pluralista, invoca a indagação “De quanto espírito comunitário a Sociedade Liberal precisa?” para fundamentar que a cooperação pode servir de barreira ao aumento da competitividade se não permitir um certo conflito capaz de motivar a sociedade produtiva, agregando-lhe maior coesão, servindo-lhe de “cola” aquele que gera Capital Social, como em Robert Putnam, que denominou Conflitos Divisíveis. Estes seriam conflitos que, em seu exemplo, levam à “distribuição do produto social entre diferentes classes, setores ou regiões”. Já os Conflitos Não-Divisíveis são excludentes, do tipo ou/ou, e servem de “solvente” do Capital Social.

(Caracterizam Sociedades)...cindidas por rivalidades étnicas, lingüísticas ou religiosas...Os conflitos não-divisíveis tornaram-se, recentemente, mais relevantes nas democracias antigas, especialmente nos EUA, devido à importância assumida por questões como aborto e multiculturalismo. (HIRSCHMAN, 1994, p.41)

No turbilhão do mundo moderno democrático e pluralista, conflitos Divisíveis e Não-Divisíveis são concomitantes. O que vai definir a qualidade da resultante é qual deles hegemoniza o processo social e econômico. Muito próximo do que acontece com a relação cooperação-competição tal como consideramos anteriormente.

Enfatizamos, portanto, mais uma vez, que a cooperação – tomados os cuidados indicados por Hirschman – é um fator que altera qualitativamente as estratégias de desenvolvimento econômico, como já vimos, em regiões e cadeias produtivas. No entanto, é na noção de aglomerados econômicos de hoje, que esta perspectiva se torna mais visível enquanto teoria e experimento empírico.

Com base em levantamentos numa ampla variedade de setores, constatamos que a tecnologia da informação está alterando as regras da competição de três maneiras. Primeiro, seus avanços estão mudando a estrutura setorial. Segundo, a tecnologia da informação é uma alavanca cada vez mais importante à disposição das empresas para criar vantagem competitiva...à medida que os concorrentes imitam as inovações estratégicas dos líderes. Por fim, a tecnologia da informação está disseminando negócios completamente novos. (PORTER, 1999, p.94)

Esta citação sob o sugestivo título “Mudando a Natureza da Competição” atualiza com grande objetividade a percepção das alterações que estão ocorrendo, neste momento, no fenômeno econômico.

Muitas mudanças no sistema de conhecimento da sociedade influem diretamente nas operações comerciais. Esse sistema de conhecimento é uma parte ainda mais difusa do ambiente de toda firma do que o sistema bancário, o sistema político, ou o sistema energético... Sem falar no fato de que nenhuma firma poderia abrir as portas se não houvesse linguagem, cultura, dados, informações e conhecimento técnico. De fato, o conhecimento (às vezes só informação e dados) pode ser usado como substituto de outros recursos... O conhecimento – em princípio, inexaurível – é o substituto fundamental. (TOFFLER, 1995, p.109)


O conhecimento é um bem que, ao contrário dos demais, cresce quanto mais é dividido. É exatamente aí que ocorre, em nosso entendimento, a transformação da natureza da competição. A partir de uma “economia do conhecimento” se estabelece a lógica de quanto mais se partilha mais se acumula. Com um ganho adicional de qualidade nas relações humanas, agora includentes, social e economicamente.

A habilidade de compartilhar atividades é uma base poderosa para a estratégia corporativa, pois o compartilhamento geralmente acentua a vantagem competitiva, através da redução do custo e do reforço da diferenciação. (PORTER, 1999, p.154)

Partilha válida entre unidades de uma mesma empresa, entre empresas de uma mesma cadeia, entre setores de um mesmo aglomerado e entre regiões de um mesmo país. Vale registrar que quando Porter aborda a importância em P&D (Pesquisa e Desenvolvimento), e recomenda “restringir ao máximo a cooperação entre setores rivais” ele se refere pontualmente a leis que inibem a inovação uma vez que o que a pesquisa criar não servirá de diferencial competitivo entre rivais que partilham a mesma investigação.

Esta referência nos alerta a separar claramente a idéia de cooperação da idéia de cartelização, quando esta última ocorre quando há cooperação entre poucos para auferir vantagem em detrimento dos interesses da maioria da Sociedade. Já quando se refere à competitividade de aglomerados, Porter deixa claro seu entendimento sobre a relação cooperação-competitividade.

(...)as políticas macroeconômicas são condições necessárias, mas não suficientes, para fomentar a competitividade... Os aglomerados(...) Constituem o foro que possibilita novas e imprescindíveis modalidades de diálogo entre empresas, órgãos governamentais e instituições (como escolas, universidades e empresas de utilidade pública). (PORTER, 1999, p.210-211)

Ou seja, para Porter, a economia deve ser tratada como acontece no esporte em que a competição se dá subordinada à consolidação da cooperação em torno dos termos regimentais e regulatórios que servirão de arcabouço político, ético e institucional para que a competição, seja qual for seu resultado, contribua para a melhoria do ambiente sistemicamente. Assim, os aglomerados seriam definidos como um sistema de empresas e instituições inter-relacionadas, cujo valor como um todo é maior do que a soma das partes. (PORTER, 1999, p.210/211)

Sintetizamos, sob nossa versão, os principais valores agregados pelas estratégias de Cooperação econômica, entre elas os aglomerados, no quadro abaixo.

TABELA 3: VALOR AGREGADO PROPORCIONADO PELA COOPERAÇÃO Valor Benefícios Estratégia Operacional Resultados

Confiança Transações mais seguras, satisfação com o atendimento Eliminação de etapas de controle excessivo Redução de custo de transação e maior agilidade

Credibilidade Respeito e reconhecimento Garantia de qualidade e demais termos do contrato Estabilidade comercial e sustentabilidade de longo prazo

Partilha Conhecimento acumulado se multiplica socialmente Compra conjunta de insumos, MKT articulado, formação e treinamento em parceria, demandas políticas Maior poder de barganha e pressão, menor custo de MKT e treinamento, acesso à Políticas Públicas

Relacionamento Pluralidade e complementariedade Negociação, articulação em redes Fidelização

Identidade Objetivos comuns Interação institucional permanente Enraizamento cultural

Solidariedade Maior aquecimento econômico e qualidade de vida Inclusão permanente de agentes e instituições, compras locais prioritárias Ampliação da base de sustentação, maior produção e consumo

Na tabela em pauta, procuramos evidenciar como um valor, tido muitas vezes como apenas ético ou moral, se projeta estrategicamente também como valor econômico, às vezes especificamente financeiro, a conferir maior competitividade ao conjunto do sistema e às corporações e instituições que fazem parte dele.

No entanto, julgamos de grande importância a compreensão da afirmação de Porter, de que “o valor do conjunto é maior do que a da soma das partes”. É preciso perceber o sinergismo entre as estratégias cooperativas e entre os valores que agregam.

É possível, unilateralmente, adotar o valor “confiança” e economizar etapas de controle e fiscalização excessivas. Fizemos isto no Banco do Povo de Belém (vide Memorial), dispensando a consulta ao SPC (Serviço de Proteção ao Consumidor) e à SERASA para concessão de crédito e, em 7 anos tivemos apenas 8% de inadimplência, ou seja, 92% de sucesso atendendo uma população empobrecida e rechaçada pela rede bancária tradicional por não oferecer garantias reais o que constituiria altíssimo risco. Esta estratégia vem, aos poucos ganhando espaço no mercado local e mundial com destaque para os movimentos pelo Comércio Justo e Solidário entre empresas, comunidades e países.

Contudo, a maximização dos resultados possíveis com a adoção do valor “confiança”, só se alcança quando na outra ponta encontramos um parceiro comercial que adota o valor da “credibilidade” por seu turno. Ora, se de uma lado procura-se apostar na seriedade e capacidade produtiva do parceiro e, no outro, temos alguém comprometido com a qualidade de sua oferta e com os termos do contrato, o resultado tende a ser muito positivo, tanto economicamente quanto pelo que representa de qualidade de vida ao desenvolver relações confiáveis que geram conforto, estabilidade e sustentabilidade.

Se a adoção destes valores acumula à adoção de novos valores cooperativos, a tendência é ampliar ainda mais os resultados materiais e imateriais, econômicos, sociais, políticos e culturais. O que jamais seria possível alcançar, isoladamente, por uma das partes, ou, sob um sistema presidido pela competição pura.

Do ponto de vista estratégico, a inovação de valores em um sistema econômico, por ser de natureza cultural – portanto, com fortes apelos psicológicos e emocionais (não-racionais) – é um desafio complexo por exigir sincronismos entre medidas exógenas de incentivo e regulação e movimentos endógenos de liderança e exemplificação prática. Tal como constatamos na implantação do Atacadão Solidário, projeto de compra conjunta do Banco do Povo de Belém, junto aos feirantes do Complexo de São Braz, em 1999.

A principal estratégia cooperativa que aqui destacamos, e pretendemos trabalhar, é a dos Aglomerados.

Os vínculos sociais mantêm a coesão dos aglomerados, contribuindo para o processo de criação de valor. Boa parte da vantagem competitiva dos aglomerados depende do livre fluxo de informações, da descoberta de intercâmbios e transações agregadoras de valor, da disposição de alinhar agendas e atuar além das fronteiras empresariais e da forte motivação para os aprimoramentos. Os relacionamentos, as redes e o senso de interesse comum são os pilares de sustentação dessas circunstâncias. Assim, a estrutura social dos aglomerados assume uma importância fundamental. (PORTER, 1999, p.239)

Como obter, livre fluxo de informações e as demais condições citadas acima sem confiança e uma forte convicção da contribuição da cooperação para a competitividade? O pensamento de Milton Santos nos ajuda a responder.

O tema remete para o global, para a globalização e para o território, como também Milton Santos aproximou: o território local, mas que tem implícito o que está na agenda geográfica – os territórios inteligentes (o saber: as learning regions, as creative cities), que são a seqüência lógica da translação da abordagem global para a abordagem do lugar e do território. A passagem das inovações, dos conhecimentos técnicos, do global para o local, só é efetiva porque aqui se verificou um enraizamento e um “imbricamento”, facilitados pela existência de relações de proximidade. Relações que decorrem da coesão social (e cultural) e que, no fundo, estão no cerne do próprio conceito de território. (GASPAR, 2004, p.180)













Figura 7: Globalização e domínio territorial em Milton Santos fonte: GASPAR, 2004

Articulando as idéias de conhecimento, fluxo de informações e de inteligência como expressão do composto cultura e território, nos vemos diante de uma questão incontornável: a educação.

Sendo o trabalho que define a existência humana...a educação não é algo de fora para dentro, que acontece apenas em cursos de capacitação...Não é sinônimo de ensino, mas se dá em diferentes espaços e tempos da formação humana. Fundamentalmente, é parte integrante da cultura do trabalho que vai se constituindo no cotidiano da produção associada e nas relações que...estabelecem com o mundo lá fora. Por isto, dizemos que a prática é a fonte de conhecimento e que o trabalho é instância e é, ao mesmo tempo, princípio educativo. (TIRIBA, 2006, p. 102)

A experiência do Complexo Cooperativo de Mondragon, tal como descrito por Barker (1997,p.132), possui forte presença do componente educacional em toda sua história e em toda sua estratégia organizacional, criando escolas e universidades vinculadas à sua estratégia mercadológica.

Este componente surge com destaque nas considerações de Porter sobre as condições dos aglomerados em condições de países em desenvolvimento, principalmente se tomarmos a educação como na citação de Tiriba, acima.

O desenvolvimento de aglomerados que funcionem bem é um dos passos essenciais na evolução para uma economia avançada. Nas economias em desenvolvimento, a formação dos conglomerados é inibida pelo baixo nível de educação e de qualificação do pessoal local, pelas deficiências tecnológicas, pela falta de acesso ao capital e pelo subdesenvolvimento das instituições. Às vezes, as políticas governamentais também atuam contra a formação dos aglomerados. As restrições relativas à localização industrial e aos subsídios provocam uma dispersão artificial das empresas. Os currículos das universidades e das escolas técnicas, estabelecidos por órgãos centrais, não se adaptam às necessidades dos aglomerados... (PORTER, 1999, p.245)

Esta precisa descrição do sinergismo negativo que em parte vivemos no Brasil, é o construto de nossa história, cultura e de tudo o que nos conforma como sociedade – mais um exemplo eloqüente da validade da Teoria da Causação Circular Cumulativa de Myrdal (1969).

Os impactos sociais, ambientais, culturais e econômicos que o estilo de vida das sociedades modernas gerou, chegaram a tal ponto que sua reversão exige uma grande e eficiente soma de esforços. Porém, articular eficientemente ações coletivas em sociedades e indivíduos que estão bem melhor treinados, e condicionados a atuar individualmente e mais “contra” o outro do que “junto com” ele é o maior desafio das organizações econômicas. Neste momento em que a cooperação é tão necessária, como aprender a trabalhar harmonicamente com aquele de quem habituei a desconfiar?

No entanto, contrariando esta tendência, encontramos alento, ao constatar, embora não seja raro encontrar, principalmente em comunidades empobrecidas, um grande número de pessoas da própria comunidade que, espontaneamente, desenvolvem ações voluntárias – absolutamente antieconômicas e, portanto “irracionais”, segundo os clássicos – em benefício do próximo.

Essas pessoas, porém, quando convidadas a somar esforços e atuar em conjunto para ampliar a eficácia de sua ação, recuperam a “racionalidade” e recusam-se terminantemente, porque não confiam nas intenções do outro, temem serem passadas para trás, roubadas, enganadas ou manobradas politicamente. Preferem seguir fazendo o que podem sozinhos, ainda que com poucas chances de resolução do problema, do que se arriscar com o outro. O medo, a desconfiança e a desmotivação nos impedem de experimentar ultrapassar coletivamente os limites das nossas impossibilidades individuais. Precisamos de uma nova racionalidade: A racionalidade da Solidariedade

Muito em geral poderá dizer-se que a emergência do terceiro setor significa que, finalmente, o terceiro pilar da regulação social na modernidade ocidental, o princípio da comunidade, consegue destronar a hegemonia que os outros dois pilares, o princípio do Estado e o princípio do mercado, partilharam até agora com diferentes pesos relativos em diferentes períodos...o princípio da comunidade afirma a obrigação política horizontal e solidária de cidadão a cidadão. Segundo ele (Rousseau, 1762/1775), é esta a obrigação política originária, a que estabelece a inalienabilidade da soberania do povo de que deriva a obrigação política com o Estado. (SANTOS, 2006, p.352)

Ainda segundo Santos (2006, p.351), alguns autores como Defourny, Favreau e Laville (1998) denominam este campo de “nova economia social”, outros como “economia social e solidária” (LAVILLE et al, 2005).


4.2 ECONOMIA SOLIDÁRIA

4.2.1 Breve histórico

Nos primórdios da humanidade tivemos uma forma de organização sócio-econômica altamente equilibrada, em que a troca econômica era feita de forma coerente através do mutualismo, do cooperativismo e da solidariedade. Esse sistema econômico era o comunismo primitivo, ainda hoje fossilizado em algumas comunidades indígenas. Caracterizava-se por apresentar uma formação social sem divisão em classes sociais e uma cultura econômica altamente de subsistência baseada no cooperativismo e na solidariedade humana entre todos, ou seja, cada membro da tribo apresenta importante papel visando o bem-estar da coletividade. À medida que o medo primitivo se inviabilizava, a possibilidade de evolução realizada pela humanidade, fazia com que essa base econômica solidária fosse sendo distorcida por um processo marcado pela diferenciação social, pela tecnologia da divisão do trabalho e pela adoção do Utilitarismo como filosofia hegemônica.




Figura 8: Evolução dos modos de produção

Apenas esquematicamente, é possível apresentar a evolução dos modos de produção tal como na Figura ura acima. O modelo M1 – M2 significa a troca direta de mercadorias. O modelo M1 – D – M2 significa a troca de mercadorias mediada pelo dinheiro como trocador universal. Note-se que aí o relacionamento começa a ser mediado, distanciando a percepção da necessidade da confiança e da credibilidade como cimento da transação.

O modelo D – M – D’ implementou o que conhecemos como Capitalismo e significa a autonomia do dinheiro frente à mercadoria. A partir desse momento o dinheiro ganha a condição de capital e vai ocupando o centro do conjunto de relações humanas que se estabelecem.

Distante da mercadoria, e distante também da noção de que são elas que conferem qualidade de vida aos indivíduos em Sociedade, coloca-se como centro dos interesses a acumulação de capital e de poder, particularizadamente, como fim em si mesmo, em detrimento da busca de melhor qualidade de vida, que só se conquista como produto do desenvolvimento social e ambiental, o que acaba comprometendo a eventual conquista de qualidade de vida particular.

Neste ponto, é preciso destacar que a possibilidade da acumulação de capital só acontece com a “descoberta” da mais-valia (MARX, 1893). Com a percepção de que o trabalho tem o dom de agregar valor. Ao mesmo tempo em que recorre a apartação artificial entre trabalho e trabalhador e com isso ganha o poder de aperfeiçoar o trabalho, em si, como mercadoria.

Antes, no escravismo e no feudalismo, comprar trabalho implicava em comprar o trabalhador o que trazia a obrigação de cuidar de sua reprodução na saúde e na doença, na juventude e na velhice. No capitalismo, se compra trabalho por hora ou produto, sem se comprometer com a hora da doença e da velhice, naturais do ser humano, cujos custos são diluídos pelo conjunto da Sociedade, através da assistência e previdência social, em sua maioria de trabalhadores.

Por fim, com o modelo D – D’ enveredamos, com a globalização, no caminho da acumulação agora de natureza financeira, na qual o capital se acumula distante das mercadorias e sem precisar mobilizar trabalho, vampirizando a mais-valia da indústria e se reproduzindo pela especulação da remuneração, apartada da produção, no giro das bolsas de valores. Aqui a distância da natureza solidária como fundamento da sociabilidade humana chega a um ponto extremo. E começa a sugerir a percepção das perdas fundamentais que são geradas e da necessidade de resgate da solidariedade econômica para uma acumulação social do capital.


4.2.2 Economia solidária no Brasil

Para entender o processo de economia solidária no Brasil é importante analisar as transformações da sócio-econômica ocorridas durante as décadas de 70-90. De acordo com Carlos Langoni (1991), a década de 70 – principalmente a segunda metade – é marcada pela transição do modelo keynesianos (endividamento do Estado) para o modelo econômico neoliberal e caracteriza-se pelo início de uma nova crise econômica mundial, a crise do petrodólares. A década de 80 é a década do liberalismo econômico, na qual se verifica o inicio de mudanças profundas nas estruturas econômicas e políticas de países em desenvolvimento onde os termos economia de mercado, privatizações e investimento estrangeiros passam a ser extremamente utilizados.

Constata-se também na década de 80 um forte endividamento dos países em desenvolvimento em decorrências das políticas keynesianas (1945-75) que fez com que o mercado privado de crédito em longo prazo paralisasse suas operações, o acesso a empréstimos privados se tornasse mais seletivo e debates sobre questões ambientais se tornassem elemento central sobre novos caminhos alternativos de desenvolvimento.

A década de 90 é a década da integração econômica e da globalização em que países formaram blocos econômicos objetivando integração monetária, econômica e financeira entre si assim como a globalização através do avanço da tecnologia quebra barreiras políticas, econômicas e sociais adentrando e fazendo conexão entre todos os continentes.

A globalização econômica e financeira, ao forçar a concorrência no plano internacional, vem atuando no sentido de diluir as fronteiras econômicas nacionais e regionais abrindo assim espaço para a emergência dos regions states – regiões de um país ou de países que se articulam em diferentes planos estratégicos econômicos e comerciais. (CARVALHO, 2005, p.43)

De acordo com Paul Singer (2002), nas últimas décadas a organização do trabalho mudou, fazendo com as empresas capitalistas reduzissem seus quadros de mão-de-obra mediante adoção de novas tecnologias/técnicas de trabalho e da subcontratação de serviços autônomos e cooperativos.

O crescimento econômico é interrompido sucessivamente nos anos 80-90 por crises financeiras, fazendo com que a demanda por força de trabalho diminuísse por parte das empresas, porém em contra partida, o mercado de desempregados aumentava exponencialmente.

O resultado das mudanças foi não somente o aumento do desemprego mas também a diversificação das relações de trabalho criando além do trabalho assalariado formal o trabalho, por conta própria, o individual, o coletivo/solidário (cooperativas e associações), assalariamento informal, além da volta do trabalho escravo e da exploração do trabalho infantil.

Assim como nos países europeus e nos Estados Unidos, a economia solidária ressurge no Brasil como forma alternativa de defesa da classe trabalhadora contra o processo neoliberal de eliminação de milhões de postos de trabalho formal que se dá a partir da década de 80. Isto, tanto por parte da iniciativa privado quanto por parte do setor público, fazendo com que a pobreza se multiplicasse em proporções até então jamais vistas.

Em conseqüência, cresceu a organização dos trabalhadores que se uniram lançando mão de suas economias para iniciarem seus próprios negócios. Surge nesse contexto, sócio-econômico entidades dos movimentos sociais, como a Cáritas e a ANTEAG, que promoveram projetos comunitários alternativos os quais são capitalizados por fundos rotativos. Em meados dos anos 90 despontam em várias universidades as Incubadoras de Cooperativas Populares visando ajudar os grupos de comunitários a desenvolver coletivamente, atividades econômicas.

Apesar de os movimentos sociais solidários no Brasil terem se iniciado na década de 80, é a partir da década de 90 que se verificará a massificação do processo do ideal solidário e popular, assim como as primeiras literaturas a respeito deste novo conceito de economia, já que o conceito de economia solidária ficou por décadas imerso no que a literatura cientifica chama de autogestão, cooperativismo, economia informal ou economia popular.

4.2.3 Conceitos

É comum se referir à Economia Popular, genericamente, como economia “informal”. A idéia de economia “informal” deveria limitar-se como referência à legalidade. Toda atividade econômica que não é registrada na Junta Comercial, que não tem CNPJ, é informal. No entanto, o uso extrapola esta limitação e se expande expressando preconceitos que deixa de perceber as vantagens de se incluir todas as formas lícitas de economia, no mesmo modelo de desenvolvimento.

Ora, quando uma costureira “informal” trabalha, além de gerar sua própria renda e ocupação econômica, pode gerar a de outros. Ao mesmo tempo, movimenta o consumo de seus insumos e o de seus produtos por terceiros, o que irá movimentar todas as cadeias comerciais “formais” que seu negócio interage indo reforçar a indústria, em última instância, incluindo a cadeia de tributação.

Ou seja, o tratamento como “informal”, não permite que se enxergue a Economia Popular como parte importante da economia, como peça estratégica para a solução do conjunto da problemática do desenvolvimento. A conseqüência dramática é a de todo preconceito: transforma a vítima em réu.

A recusa em enxergar a Economia Popular como uma instância própria da economia, é a recusa dos direitos de milhões de pessoas que praticam uma economia que exige uma nova abordagem tanto pela via do capital quanto, e principalmente, pela do trabalho.

Até porque neste contexto, quase sempre capital e trabalho estão fundidos em um amalgama econômico em que a maioria dos sujeitos também se funde como trabalhador/empreendedor. Só uma abordagem inovadora resgatará milhões da marginalidade ao mesmo tempo em que os colocará em sinergia com a construção de um novo modelo de desenvolvimento capaz de gerar trabalho, emprego e renda para todos e todas.

Então, propomos compreender a economia a partir de sua unidade atômica, a troca. A troca é um fenômeno humano – que marca inclusive a relação com o meio ambiente. Um processo baseado na identificação de objetivos comuns ou complementares entre as partes e, na confiança de que ambos serão satisfeitos com a troca. Ou seja, comprar e vender significa a mesma coisa: trocar. Apenas se chama “compra” quando se troca dinheiro por um objeto ou serviço.

Se a troca é de um objeto ou serviço por dinheiro, aí dizem que houve uma “venda”. Em última instância, a troca envolve o mesmo objetivo dos dois lados: a melhoria da qualidade de vida – claro que segundo as referências de cada um. Além disso, se uma das partes não confiar que seu objetivo será satisfeito, a troca não ocorre. Daí propormos concluir que a motivação original da interação econômica é a solidariedade: objetivos comuns e confiança.

O conceito de economia de solidariedade aparece pela primeira vez no Brasil em 1993 no livro “Economia de solidariedade e organização popular”, organizado por Gadotti, no qual o autor chileno, Luis Razeto, o concebe como uma formulação teórica de nível científico.

(...) elaborada a partir e para dar conta de conjuntos significativos de experiências econômicas que compartilham alguns traços constitutivos e essenciais de solidariedade, mutualismo, cooperação e auto gestão comunitária, que definem uma racionalidade especial, diferente de outras racionalidades econômicas. (NOELLE LECHAT, 2002 apud ROZETO, 1993).

Somente a partir de 1995 se observa autores brasileiros escrevendo sobre economia solidária e referindo-se a ela desta maneira.

Para Luis Gaiger (2003), a solidariedade popular se expressa na prática e no ideal de número crescente de empreendimentos econômicos os quais são levados à frente por trabalhadores que tiveram sua forma de subsistência roubada pelo sistema neoliberal ou foram movidos pelas suas próprias convicções de se tornarem empreendedores.

Tais empreendimentos se organizaram das mais variadas formas tais como: associações informais, cooperativas e pequenas empresas. No Brasil, essas iniciativas vêm adquirindo visibilidade e densidade social. A adesão crescente dos trabalhadores à alternativa de trabalho e renda de caráter associativo e cooperativo conFigura ura, gradativamente, a economia solidária.

A economia solidária demonstra claramente que a cooperação, o mutualismo, a solidariedade e o associativismo não são meros ordenamentos éticos, mas possuem vantagens comparativas diante da economia capitalista em suas condições. Estudos realizados (PEIXOTO, 2000; SINGER & SOUZA, 2000; SANTOS, 2002) apontam indícios de que empreendimentos associativos consolidam-se e alcançam níveis de competitividade e acumulação que os habilitam a um processo de crescimento endógeno, pois ao assumirem uma racionalidade econômica própria e planificarem seus investimentos, compatibilizam e reforçam a cooperação no trabalho e na rentabilidade econômica. A solidariedade na economia só pode se realizar se ela for organizada igualitariamente pelos que se associam para produzir, consumir ou poupar. A chave dessa proposta é a associação entre iguais em vez do contrato entre desiguais. (SINGER, 2002, p.9)

Surge aqui, novamente, a necessidade de se compreender o impacto de uma percepção filosófica sobre a economia: O darwinismo impregnou a Sociedade com a fortíssima idéia da seleção natural. Essa noção, no processo de diferenciação étnica e social por que passou a sociedade ao se complexificar, resultou na idéia de que há diferenças inatas entre os seres humanos que determinam sua inteligência, capacidade de trabalho, sua índole e sua moral.

Daí justificando toda e qualquer desigualdade, principalmente a miséria, não reconhecendo o processo de empobrecimento a que foram submetidas parcelas majoritárias da população. Com isto, a justificação moral e política que sustentava a diferenciação entre senhor e escravo ou entre nobre e servo, descola-se da fundamentação dogmático-religiosa da Idade Média para, agora, apoiar-se em uma argumentação “científica” que subjaz, principalmente no senso comum, para explicar e aceitar a distância entre ricos e pobres, homens e mulheres, brancos e negros etc.

Essas pessoas não eram pobres por estupidez ou por preguiça. Elas trabalhavam o dia inteiro, realizando tarefas físicas muito complexas. Eram pobres porque as estruturas financeiras de nosso país não tinham a disposição de ajudá-las a melhorar sua sorte. Era um problema estrutural, e não um problema individual. (YUNUS, 2001, p.24)

Por outro lado, ainda que a economia solidária exija a penetração do social sobre o econômico, não comporta identidade com a idéia de “caridade”. Solidariedade, aqui, remete ao resgate de como era adotada como valor pelas sociedades primitivas.

A obrigação de dar algo a alguém não é a obrigação de ser caridoso, de amar o próximo, não é uma obrigação cristã... A obrigação de dar é uma obrigação de rivalizar em generosidade. De certa forma isto é violento, pois quando damos temos poder sobre quem recebe. .. A dádiva é o meio de passar da guerra para a paz, sem esquecer a dimensão de guerra, da rivalidade, que permanece nas relações humanas. O Dom não é caridade. O Dom é política. (ALAIN CAILLÉ apud MEDEIROS E MARTINS, 2002, p.62-63)

O ideário cristão tem sido distorcido pelos que vão às igrejas todos os domingos, para descarregarem de suas consciências os pecados que cometeram e poder começar tudo de novo, do mesmo jeito, em seu juízo perfeito, na certeza do perdão divino. Não obstante, esse ideário reproduz muito das relações solidárias dos cristãos primitivos e está em sintonia com o sentido da economia solidária. Tanto que há uma vertente, reconhecida como de economia solidária que é a Economia de Comunhão.

A economia solidária, hoje é uma tessitura de fazeres sociais, econômicos e políticos que vão, a partir de práticas efetivas cerzindo evolutivamente uma cultura em torno da solidariedade. Por ir constituindo-se em cultura, também é produto da prática refletida e daí aperfeiçoada como processo histórico. Reflexão que se aprofunda cientificamente na academia e nas próprias instâncias dos empreendedores que tomam consciência e optam livremente por adotar a economia solidária e a reproduzi-la no dia-a-dia da prática econômica e na educação que vivem entre si, com seus filhos, parceiros e amigos.

A Economia Solidária parte do princípio de que o central na organização da sociedade é o ser humano. É essa noção que vai redefinir relações sociais, econômicas, afetivas e produtivas. Portanto, a formação em Economia Solidária precisa dialogar com o trabalhador, trazendo para o conteúdo do processo formativo o sentido que é dado pelas vivências e anseios do trabalhador. (ANTEAG, 2005, p.21)

Portanto, apesar de adensar-se com elementos teóricos – já que não identificamos até aqui uma “teoria da economia solidária” – o faz sem pré-condições e aberta a um considerável leque de possibilidades. A suposição de que haveria na economia solidária uma imanente relação com o Socialismo, ou até, que seria a própria renovação do pensamento socialista, não possui fundamentos nem testemunhos. Embora, quanto à renovação do pensamento socialista, consideremos esta possibilidade desejável, dentre outros resultados.

No dinamismo conceitual em que ainda flutua a economia solidária, encontramos uma definição oficial, que em parte representa o acúmulo ocorrido nos movimentos sociais, que é o que está expresso no SIES (Sistema Nacional de Informações em Economia Solidário) ligado a SENAES (Secretaria Nacional de Economia Solidária) do Ministério do Trabalho e que é a referência que o Governo Federal adota para fins de políticas públicas: Conjunto de atividades econômicas organizadas e realizadas solidariamente por trabalhadores e trabalhadoras sob a forma de autogestão. (SIES, 2006)


4.2.4 Princípios da economia solidária no Brasil

A economia solidária apresenta-se, enquanto movimento social expresso por empreendimentos, ONG’s, setores da academia e de governos, fundamentada na perspectiva de uma globalização humanizadora, objetivando a criação de uma sociedade justa, racional e equilibrada. Segue o caminho do processo de desenvolvimento sustentável e integrado para a geração de uma melhor qualidade de vida não somente para seus associados/cooperativos (indivíduos), mas para todos os cidadãos e cidadãs do mundo.

Este movimento por uma economia solidária, que compõe o FBES (Fórum Brasileiro de Economia Solidária) apresenta como princípios gerais os seguintes pontos: a) valorização social do trabalho humano, ou seja, a valorização do homem como ser humano na atividade econômica onde este não é mais visto como mero portador de mercadoria de sua força de trabalho;

b) o reconhecimento do papel da mulher e do feminino;

c) desenvolvimento integrado e sustentável da sociedade cujo objetivo é o intercambio respeitoso do homem/mulher com a natureza;

d) busca os valores do associativismo, cooperativismo, mutualismo e solidariedade como forma de criar uma sociedade humanizadora e eficaz para todos;

e) apresenta como base central o trabalho, o saber (coleta de informação para geração de conhecimento) e a criatividade humana que é fruto do trabalho e do processo de geração de conhecimento;

f) o ser humano é sujeito e finalidade da atividade econômica e não gerador de riquezas e capitais para particulares;

g) buscar a unidade entre produção e reprodução evitando a contradição fundamental do sistema capitalista, que desenvolve a produtividade mais exclui crescentes setores de trabalhadores do acesso a seus benefícios, gerando crises recessivas hoje de alcance global;

h) busca a solidariedade dos povos do hemisfério norte e sul objetivando o aumento da qualidade de vida para todos e propõe a atividade econômica e social enraizada no seu contexto mais imediato, e tem a territorialidade e o desenvolvimento local como marcos de referencia;

i) geração de trabalho e renda visando combater a exclusão social e a eliminação das desigualdades materiais; Como princípios específicos, estratégicos, a economia solidária traz os seguintes pontos:

a) sistemas de finanças solidárias: o objetivo é permitir as pessoas excluídas do sistema bancário adquirirem créditos e com isso criarem seu próprio meio de trabalho e subsistência, ou seja, a economia solidária visa a busca da democratização de acesso ao credito popular onde a seleção de investimentos dos projetos se dará mediante sua utilização social e enfatiza que a importância do acompanhamento do projeto, uma vez este iniciado. Promove o direito das comunidades e nações à soberania sobre suas próprias finanças assim como estimula os bancos cooperativos, os bancos éticos, as cooperativas de credito e as instituições de microcrédito solidário a financiar seus membros e a não concentração lucros através de altos juros. Preocupa-se também com a chamada utilidade do investimento financeiro onde o objetivo é a busca da aplicação ética do dinheiro, por exemplo, esforços na luta contra a exclusão, pela preservação ambiental, em trabalhos de ação cultura e desenvolvimento local assim como outras aplicações;

b) criação do comercio justo: estabelecer relações comerciais mais justas entre consumidores e produtores a partir de um nível local, nacional e internacional. O seu objetivo é eliminar o máximo de numero de intermediários entre produtores e consumidores;


c) economia sem dinheiro: e a favor da redefinição do papel do dinheiro assim como da descentralização responsável das moedas circulantes nacionais. Tais iniciativas se tão em escala local e busca a articulação de redes, como organizações territorial, visando enfrentar a exclusão social. Apresenta três principais características que são: a autoprodução coletiva, a elaboração de sistemas de trocas locais e as redes de trocas recíprocas de saberes;

d) construção de um estado político democrático: a economia solidária é um projeto de desenvolvimento local integrado e sustentado que visa a justiça econômica, social, cultural, ambiental e a democracia participativa. A economia solidária exige a responsabilidade dos Estados nacionais pela defesa dos direitos universais dos trabalhadores. Tem como valor central também a relação entre os povos e a soberania nacional num contexto de interação com a soberania de outras nações.


4.2.5 As dimensões da economia popular e solidária no Brasil

Na Economia Popular, apesar de o conjunto do sistema econômico ser hegemonizado por complexas situações de dominação, o principal capital é a credibilidade, em função de quase sempre se tratar de mercados concorrências.

Esse aspecto a coloca como terreno fértil para o avanço da Economia Solidária. Estamos tratando de um segmento da economia caracterizado, entre outros aspectos, por negócios que se estruturam a partir do atendimento direto das demandas da população e por estabelecerem giro local.

Movimentando majoritariamente seus insumos e produtos em um determinado território, corroborando com o dinamismo que alimenta as diversas cadeias da economia local, além de se comunicar com cadeias que extrapolam seu território. Aqui, entendemos por “negócios” as diversas formas de combinação entre capital e trabalho que, no caso da Economia Popular, quase sempre são hegemonizados pelo trabalho.

Se observarmos as diversas cadeias produtivas que atendem a população de um bairro, por exemplo, poderemos ver que há uma interação entre a feira, a padaria, a mercearia, a danceteria, a papelaria, a loja de tecidos, a loja de móveis e eletrodomésticos, a costureira, o mecânico, o médico, o professor, a cabeleireira, o taxista, o advogado, a cooperativa etc. todos e todas empreendedores (as) populares que, além de gerarem a sua própria inserção na economia, proporcionam a de muitos outros. Geram uma massa de renda e salários que alimentam o consumo no mesmo bairro, tanto no que diz respeito à parte dos insumos produtivos – já que outra parte importante interage com outros segmentos econômicos incluindo a indústria e a agricultura – quanto em relação aos produtos e serviços ofertados por eles e elas.

Estamos tratando de cerca de 20 milhões de brasileiros e brasileiros, definidos pelo IBGE como “trabalhadores por conta própria”, “micro e pequenos empresários”. Segundo o SEBRAE, estamos tratando do segmento que gera 80% dos postos de trabalho do país – gerando 95% dos novos postos de trabalho – e que movimenta algo em torno de 30% do PIB (Produto Interno Bruto) do Brasil.

O Sistema Nacional de Informações em Economia Solidária (SIES) em 2006 registra o seguinte quadro nacional de EES (empreendimentos econômicos solidários) tomados como organizações:

• “coletivas suprafamiliares de trabalhadores/as dos meios urbano e rural que exercem a gestão coletiva do empreendimento. • permanentes (difere de práticas eventuais). • podem dispor ou não de registro legal. • realizam atividades econômicas de produção, prestação de serviços, crédito popular, comercialização e consumo solidário. • são organizações “singulares ou complexas”

Quanto a atividades econômicas, desenvolvem:

• Produção de bens, prestação de serviços, finanças solidárias, comércio justo e consumo solidário.

Podendo ter os seguintes formatos: • Cooperativas, Associações, Empresas autogestoras, Grupos solidários, Redes solidárias, Clubes de troca etc.



TABELA 4: EMPREENDIMENTOS SOLIDÁRIOS NO BRASIL – ATLAS DA ECONOMIA SOLIDÁRIA NO BRASIL

Fonte: SIES, 2006

Do ponto de vista institucional, a fotografia do SIES (2006) registra a diversidade, pluralismo e dinamismo da economia solidária.

Figura 9: Rede de relações institucionais da Economia Solidária no Brasil.


O mapa da localização e concentração de Empreendimentos Econômicos Solidários ( EES), vem a seguir:

Figura 10: Mapa da concentração territorial de empreendimentos solidários no Brasil Fonte: SIES, 2006



A evolução dos EES teve, segundo o SIES , o seguinte comportamento:

Figura 11: Gráfico da evolução do número de EES de 1979 a 2005 Fonte: SIES, 2006

Da mesma fonte, a distribuição dos EES pelo território nacional teve a seguinte evolução:

Figura 12: Gráfico da evolução do número de EES por região territorial Fonte: SIES, 2006


O Atlas da Economia Solidária também contabilizou os empreendimentos por atividade:

Figura 13: Gráfico do número de EES por atividade Fonte: SIES, 2006

Quanto à remuneração dos EES, por atividade econômica, o SIES apresenta o seguinte gráfico:

Figura 14: Gráfico do percentual de EES por faixa de remuneração, no Brasil e por regiões. Fonte: SIES, 2006

Os dados e informações acima confirmam os principais pontos que temos encontrado na literatura sobre a Economia Solidária: a) grande capilaridade, b) principal sustentação no capital trabalho, c) principal estratégia no capital de giro e, d) ampla área de superposição com a economia popular.

A economia popular e solidária, intersecção do segmento popular da economia com a economia de natureza solidária é, portanto, um segmento vital para o conjunto da economia que precisa ser tratado adequadamente para que suas potencialidades sejam otimizadas, cumprindo um papel estratégico para a construção de um novo modelo de desenvolvimento que seja justo, solidário e sustentável, em que o significado de “mercado” se confunda com o de “sociedade”, não se restringindo mais apenas aos que “podem pagar” e a idéia de “riqueza” esteja associada à “distribuição” e não à “acumulação”. Enfim, onde o “trabalho” presida o “capital” e a cooperação presida a competição.


4.3. O SETOR TÊXTIL-CONFECÇÕES

A indústria têxtil é tida como a de maior tradição no Brasil. Embora haja registros desde os primórdios da colonização, o período 1844-1913 pode ser considerado a fase de efetiva implantação da indústria têxtil no Brasil, quando em 1844, esboçou-se a primeira política protecionista brasileira, com a elevação das tarifas alfandegárias de 20 para a média de 30%.

Em 1864, o Brasil já tinha cultura algodoeira, mão-de-obra abundante e mercado consumidor em crescimento. Outros fatores influenciaram também a evolução da indústria: a Guerra Civil Americana, a Guerra do Paraguai e a abolição da escravatura, que resultou em maior disponibilidade dos capitais antes empregados no ramo negreiro.

Naquele ano, estariam funcionando no país vinte fábricas, com cerca de 15 mil fusos e 385 teares. Em 1881, o parque têxtil possuía 44 fábricas e 60 mil fusos e propiciava cerca de 5 mil empregos. Em 1920, a cadeia como um todo ocupava 115.519 pessoas, o que representava 41% do emprego na indústria de transformação (MONTEIRO e CORREA, 2003).

No final da década de 40, a indústria têxtil alcançou 20% do PIB industrial. Se somado ao PIB da indústria de confecção, atingiria quase 25% do PIB. Apesar de seus esforços, o complexo industrial têxtil-confecções, perdeu terreno para a indústria química e o complexo metal-mecânico, caindo, em 1966, para o equivalente a 11% do PIB industrial do país. A queda continuou e, em 1996, o complexo têxtil-confecções era só 6,4% do PIB industrial e 1,4% do PIB Nacional. (SEBRAE, 2001)

Tomando apenas a indústria têxtil, tínhamos cerca de 5 mil empresas na década de 80, já em 1997, pouco mais de 3.500. Dos 900 mil empregos gerados em 1990, restaram 419 mil em 1996.

Os estabelecimentos industriais de confecção, ao contrário, entre 1990 e 96, cresceram de 15 mil para 18 mil, aumentando a produção em quase 50% nesse período – de 4,4 para 6,5 milhões de peças. Destes estabelecimentos 70% são enquadrados como pequenos e/ou micro e apenas 3% são grandes. No entanto, os pequenos respondem por apenas 10% da produção (SEBRAE, 2001).

A indústria têxtil (excluindo-se a confecção) teve um aumento da produtividade do trabalho entre 1990 e 1997 – estimadas como a razão entre a variação do valor adicionado e a variação do pessoal ocupado – e atingiu a marca de 50%. A maior parte dos investimentos realizados foi destinada a equipamentos (cerca de 62% do total), tendo os equipamentos importados representado parcela de 36% do total.

A cadeia têxtil-confecção, a qual respondeu por 14% dos empregos gerados na indústria brasileira em 1999, apresentou elevados investimentos em modernização e expansão da capacidade produtiva durante toda a década de 90. (MONTEIRO e CORREA, 2003)


Figura 15: Gráfico dos investimentos na industrial textil-confecções 1990/2001 Fonte: MONTEIRO e CORREA, 2003

Mais recentemente, os prejuízos causados pelas importações asiáticas aos fabricantes de calçados e itens de vestuário, aliados à demora dos processos de defesa comercial, fizeram o governo brasileiro elevar de 20% para 35% o imposto de importação desses produtos. A decisão foi tomada em abril de 2007 pelos sete ministros que integram a Câmara de Comércio Exterior - CAMEX e será submetida às instâncias superiores do Mercosul. O aumento de alíquota foi autorizado sem o governo exigir contrapartidas - em investimento, manutenção do emprego ou modernização tecnológica - dos setores beneficiados (ABIT, 2007).

Os empresários do setor têxtil e de calçados comemoraram a elevação da tarifa, mas enfatizaram que a medida não soluciona os problemas internos de competitividade e a perda de participação no mercado internacional. Apesar de acharem que a indústria deve ser exposta à competição internacional, mas em igualdade de condições. E, contraditoriamente, criticam a política cambial que tende a fortalecer o real em vez de reivindicar estratégias de agregação de valor, para deixar de competir pelo preço e passar a competir pela qualidade.

Do ponto de vista do trabalho, estes esforços recentes ainda não refletiram significativamente na geração de emprego, mas começam a esboçar uma tendência positiva.

TABELA 5: BALANÇO DE EMPREGABILIDADE NO SETOR TÊXTIL-CONFECÇÕES EM 2007

MTE/CAGED Fev/2007 Mês Ano 12 meses Admissão 34.620 65.686 373.875 Demissão 29663 56.710 341.947 Saldo 4.957 8.976 31.928 Variação 0,56% 1,03% 3,79%

Fonte: Disponível em <www.abit.org.br>. Acesso em 30.04.2007

4.3.1 A Cadeia Têxtil-Confecções (CTC) e os mercados

Segundo Prochnik (2003), a CTC brasileira é muito competitiva na cultura do algodão e na sua fiação e tecelagem. Nestes dois últimos setores, a liderança da cadeia está nas mãos de um pequeno grupo de grandes empresas internacionalmente competitivas. Suas exportações, que concentram boa parte das exportações de toda CTC (as três maiores, Santista, Vicunha e Coteminas, são responsáveis por praticamente um terço de todas as exportações), são volumosas e crescentes.

Mesmo assim, no período recente, devido à combinação de maior competitividade com câmbio favorável, embora prejudicadas pelos diversos tipos de barreiras tarifárias e não tarifárias, as exportações brasileiras da CTC vêm aumentando. Este aumento, embora lento, verifica-se tanto nos segmentos mais competitivos (algodão, tecidos de algodão e outros têxteis, incluindo lençóis, cama, mesa & banho etc.), como também no segmento de vestuário.

No entanto, como o ganho de competitividade é concentrado em poucos e grandes empreendimentos, foram geradas fragilidades sem perspectivas de uma reversão deste quadro no curto prazo.

É importante lembrar que a quase totalidade dos investimentos feitos no Brasil, nos anos 90, beneficiou a cadeia de têxteis naturais (algodão), praticamente não contemplando a cadeia sintética ou de origem química. Esta fragilidade consiste, sobretudo, em uma grande massa de empresas ineficientes e uma subcadeia menos competitiva, a de produtos à base de fibras sintéticas e artificiais. (PROCHNIK ,2003).

Note-se que, nos anos 90, diante da pressão das importações, a modernização não ocorreu. Com o acirramento da competição mundial, e a consolidação de diversos produtores de baixo custo – principalmente da China – as empresas mais atingidas foram os empreendimentos da Economia Popular, com atuação exclusiva no mercado interno e baixo nível tecnológico.

No plano internacional, os subsídios do governo dos EUA aos plantadores de algodão também interferem nos mercados do mundo todo.

Essa questão é especialmente importante para o Brasil, atualmente um dos produtores mais competitivos do mundo, no que diz respeito à produção de algodão, graças à expansão no Centro-Oeste. Apenas em 2001, o Cotton Advisory Committee dos EUA estimou que os fazendeiros americanos receberam entre US$ 1,7 e US$ 2,0 bilhões de “assistência emergencial”. Além de outros benefícios como as quotas de importação, o suporte à exportação e subsídios com base no preço do produto. Enquanto a área plantada no mundo caiu, nos EUA, a área plantada aumentou cerca de 10% entre 1998 e 2001. A pressão do produto norte-americano nos mercados internacionais tem contribuído para diminuir o seu preço barrando novos entrantes. (PROCHNIK, 2003)

A participação da produção têxtil-confecções brasileira na União Européia, como nos EUA, também é pequena. O Brasil é o 24º maior exportador de produtos têxteis, tendo respondido por 0,56% das importações européias, em 2000, e o 45º maior exportador de confecções, com apenas 0,07% do mercado europeu. Com relação aos EUA, a participação do Brasil também foi declinante entre 1995 e 2000. (PROCHNIK, 2003)


4.3.2 A formatação geral da CTC

A CTC é bastante linear, tendo como último elo, mais próximo do consumidor, a indústria de confecções e vestuário. A interdependência entre os setores têxtil e confecções é bastante acentuada, e o tecido prepondera na composição dos custos de produção das confecções. Aqui, entende-se o complexo têxtil-confecções como o conjunto de cadeias de fios, tecidos planos e malhas, rouparia em geral e confecções de assessórios.


Figura 16: Diagrama da cadeia produtiva têxtil-confecções no Brasil Fonte: PROCHNIK, 2003

O segmento de acabamento pode integrar-se tanto com a indústria têxtil, ao lado da fiação e da tecelagem, quanto com a de confecções, no caso do acabamento da peça pronta. O setor de bens de capital é responsável por grande parte das inovações de processo na cadeia.

A comercialização dos produtos para o mercado interno é feita utilizando-se como canais de distribuição principalmente o varejo independente, incluindo a Economia Popular (sacoleiras, feiras e camelôs), seguido de lojas especializadas e de atacado, com, respectivamente, 19%, 18% e 17% de participação. No mercado externo a principal forma de distribuição é a importação direta.

Até o ano de 2000, os registros do desempenho econômico da CTC são claramente declinantes, como podemos depreender da figura ura abaixo:



Figura 17: Tabelas do Complexo Têxtil-Confecções Fonte: PROCHNIK, 2003


4.3.3 As tendências do mercado têxtil mundial e o Brasil

Para PROCHNIK (2003) as quatro características dos padrões de consumo e produção internacional é:

a) tendências para o maior consumo de fibras químicas e produção de tecidos mistos (fibras naturais e químicas). A participação das fibras naturais, no consumo mundial de fibras, declinou de 52%, em 1990, para 48%, em 2000. O Brasil, entretanto, é mais competitivo na cadeia de bens feitos à base de algodão;

b) maior dependência dos produtos às variações da moda. A maior influência da moda tende a valorizar a produção perto dos centros consumidores, através de sistemas de produção integrados. Mas o Brasil está distante dos principais centros consumidores, em relação aos seus concorrentes (México, América Central e Caribe, em relação aos Estados Unidos da América e Canadá, e Turquia, países do Norte da África e do Leste Europeu, em relação à UE);


c) crescente difusão do supply chain management (Gerenciameno da Cadeia de Suprimentos). Como conseqüência, os determinantes da competitividade, agora, podem ser encontrados nas formas de relacionamento entre empresas ao longo das cadeias, e não no nível das empresas consideradas individualmente. O Brasil, entretanto, encontra-se bastante atrasado na adoção de técnicas de supply chain management. De fato, a ausência de parcerias e alianças estratégicas é um dos gargalos da cadeia têxtil nacional;

d) constante relocalização de atividades da cadeia têxtil. Este aspecto é mais intenso no setor de confecções, mais intensivo em mão-de-obra e menos exigente em escalas de produção, mas também vale, em menor grau, para os setores de fiação e tecelagem;


e) nota-se entre as tendências apontadas por Prochnik, um espaço estratégico importante a ser ocupado pela Economia Popular e Solidária, principalmente por suas potencialidades inerentes que agregariam valor às CTC’s e aglomerados que a absorverem com sua capilaridade e articulação produtiva institucional.


4.3.4 A indústria têxtil de confecções e a estratégia de desenvolvimento

Um ponto que chama atenção como recurso estratégico de desenvolvimento regional é o caráter migratório da indústria de confecções que advém da relevância do pagamento de salários mais baixos para sua competitividade, treinamento relativamente simples requerido pela sua força de trabalho e poucos requisitos de infra-estrutura para sua instalação. No entanto, pouco tem sido utilizada com este propósito.

No Brasil, nos anos 90, a produção apresentou tendências a relocalizar-se no Nordeste. Em geral, esta região registrou ganhos de participação tão maiores quanto maior a escala média de produção do elo da cadeia. Em confecções cresceu de 8% para 11% entre 1990 e 2000. (PROCHNIK, 2003)

No entanto, o espontaneísmo deste movimento é revelado pelo fato de que o Nordeste está distante das novas localizações de produção do algodão (Centro-Oeste) e possui mão-de-obra muito barata. Ou seja, sem buscar incentivar a implantação de unidades de produção de algodão, fiação e tecelagem na mesma região, os efeitos cumulativos ascendentes na cadeia, são parcos e acabam mantendo a remuneração da mão-de-obra – ao que está ligado o consumo e o transbordamento do crescimento econômico para outras cadeias – abaixo do necessário para impulsionar o conjunto do desenvolvimento da região, em sinergia com outros setores estrategicamente incentivados.


4.3.5 O papel das Pequenas e Micro Empresas (PME’s) e da economia popular solidária na indústria têxtil de confecções

De acordo com Vargas et al (2002), ao lado da regionalização do crédito, as novas políticas de desenvolvimento vêm valorizando e promovendo sistematicamente a cooperação entre os agentes econômicos (e entre estes e o Estado) e levam em conta a necessidade de mobilização simultânea e de forma coordenada das diversas instâncias governamentais responsáveis por políticas específicas.

Destacamos que tem se dado um papel destacado às PME’s. Especialmente, reconhecendo-se a importância das aglomerações locais de tais empresas da Economia Popular como fontes de dinamismo econômico, com reflexos significativos na geração de emprego, trabalho e renda.

O principal argumento é que a proximidade geográfica das firmas especializadas do arranjo local, engendradas em função de uma ativa divisão social dotrabalho, ajuda na obtenção de externalidades positivas tendo em vista, a possibilidade de intensa comunicação/cooperação entre os produtores. Destacando os instrumentos financeiros teríamos a seguinte engenharia institucional produtiva:


Figura 18: Diagrama novos formatos institucionais e financeiros para promoção de sistemas de PME´s. Fonte: VARGAS et al, 2002

Ainda para Vargas et al (2002) o financiamento, para grupos solidários de PME’s articuladas em arranjos e sistemas apresenta uma série de vantagens:

• redução nos custos de transação em relação à provisão de serviços financeiros para as empresas individuais; • diluição de riscos associados ao financiamento; • fortalecimento das relações entre atores nos arranjos e sistemas, para o aumento da eficiência coletiva e para o desenvolvimento de formas interativas de aprendizado e; • superação de barreiras tradicionais de garantias ligadas ao financiamento de investimentos de médio e longo prazo.

Observando duas experiências de aglomerações concretas obtivemos algumas informações importantes e de possível recorrência: a) Aglomerado do Vale do Itajaí - SC

Figura 19: Modelo de aglomerado têxtil-confecções do Vale do Itajaí-SC Fonte: CASSARROTO, 2004

Com mais de 4.000 empresas, entre fiações, fábricas de tecidos, malharias, confecções, componentes, e acabamentos e beneficiamento o aglomerado têxtil-confecções do Vale do Itajaí, Cassarroto (2004) nos deixa quatro lições para observar no processo de interação produtiva das cadeias:

a) conhecimento das necessidades das empresas – a evolução e especialização das empresas, e ainda, a grande disponibilidade de informações segmentou-as em termos de características culturais e necessidades de produtos e serviços. A presença de um centro de informações deverá criar uma interface relacional entre as empresas e instituições (publicas e privadas) que fornecem produtos e serviços;

b) produtos e serviços com maior conteúdo competitivo – além de responder às necessidades percebidas pelas empresas, um Centro de Informações poderá monitorar o ambiente, interpretar as necessidades do mercado e conFigura urar produtos e serviços orientados às necessidades futuras das empresas, preparando-as para afrontar as novas condições de competição;


c) informações focadas no mercado e nas características dos produtos e processos produtivos – considerando as afirmações acima, pode-se dizer que as necessidades das empresas encontram-se cada vez mais ligadas aos fenômenos de mercado e suas tendências evolutivas. As informações sobre produto, materiais e processos devem ser derivadas das informações do mercado;

d) integração dos atores locais, nacionais e internacionais – um grande risco das concentrações industriais pode ser o excesso de importância dada às relações internas, esquecendo-se de que o mercado acompanha a evolução global dos gostos e hábitos dos consumidores, além das necessidades de busca de novos mercados. Relações de colaboração consolidadas a nível nacional e internacional deverão ser constantemente buscadas pelo Centro de Informações.


b) O Pólo de Moda Íntima (PMI) de Nova Friburgo – RJ

Segundo PROCHNIK (2006) a experiência mostra que os principais riscos para o desenvolvimento do PMI:

• escassez de informação sobre os canais de distribuição e o consumidor final;

• falta de uma política de diferenciação do produto;


• dificuldades das pequenas empresas para aprimorar sua produção e exportar

• limitações da oferta de serviços tecnológicos e a pequena participação dos empresários, trabalhadores e da população em geral no projeto institucional.

Ainda segundo PROCHNIK (2006) as oportunidades, por sua vez, são:

• esforço político conjugado de diversas instituições; • amplo acesso a recursos financeiros; e • mercado internacional promissor


4.3.6 A indústria têxtil de confecções no Pará

Alguns aspectos da indústria têxtil-confecções no Pará destacam-se e merecem especial atenção, pois são percepções do mercado que potencializam a indicação de novos caminhos e oportunidades de negócios que poderiam mudar a trajetória de uma indústria que é de fundamental importância para a geração de emprego e renda, principalmente em um Estado como o Pará, que precisa resgatar sua tradição no ramo têxtil e apostar na capacidade indutora da atividade de confecções.

Considerando a participação da Região Norte no montante da produção têxtil-confecções nacional, encontramos:

TABELA 6: PARTICIPAÇÃO DO NORTE NA PRODUÇÃO FÍSICA NACIONAL TÊXIL-CONFECÇÕES 1999.

Itens de produção (ton) Norte % sobre total nacional Tecelagem 34.900 4 Malharia 1.017 0 Fiação 30.580 2 Confecções (mil peças) 370.066 5 Fonte: Instituto de Estudos e Marketing Industrial (IEMI). Anuário Estatístico 1995-1999. In: Gorini, 2000.

Os números apontam para um espaço aberto na produção em todas as etapas da cadeia e um grande potencial de mercado interno. Não por acaso, o desembolso do BNDES para investimentos no setor, na região representou apenas 0,19 % do total desembolsado com essa finalidade, em relação ao montante investido em toda a década de 90. (GORINI, 2000)

Curioso que, entre os anos de 1880 e 1955, o Pará foi um grande produtor nacional de algodão. Segundo Davi Ferreira, engenheiro agrônomo da Sagri-PA e especialista em cotonicultura (cultura de algodão), “nessa época o Pará chegou a exportar para o mercado norte-americano e europeu”.

No entanto, o Pará vem aumentando sua importação de tecidos, e mostra o desperdício de um grande potencial desde a agricultura, passando até as fases de beneficiamento de fibras e produção de tecidos e malhas. O crescimento das importações de tecidos entre 2005 e 2006 foi de 1,46% (FIEPA/CIN, 2007). Esse dado indica um mercado interno crescente, distanciando-se da oferta da própria região, o que conFigura ura uma oportunidade de negócios que precisa ser melhor investigada.

Outros dados e informações reforçam esta idéia. O Pará possui somente 2,5% das empresas do setor em funcionamento no Brasil o que significa baixo investimento e captação de créditos para o setor; Falta, no Pará, um dos setores mais importantes da atividade, que é a indústria de terceira geração – a transformação de fios; A indústria de confecção não polui e é um grande gerador de empregos, pois utiliza mão-de-obra intensiva, tanto mais se articulada a uma estratégia que potencialize a capilaridade já existente na Economia Popular e Solidária nesta atividade; 70% das empresas estão concentradas na Região Metropolitana de Belém. Essa característica geográfica é uma vantagem em termos logísticos para a implantação de uma cadeia têxtil-confecções competitiva, principalmente pelo potencial de integração e cooperação.

4.3.7 A questão da moda como fator econômico

A Cadeia Têxtil-Confecções possui como uma de suas metas principais a demanda do varejo de vestuário, cama, mesa e banho, mercado de grandes proporções e em crescimento no mundo.

Contudo, mesmo considerando que no varejo a componente “motivação do consumo” seja apenas citada em alguns trabalhos econômicos que observam as determinantes da competitividade de aglomerados baseados neste setor, não encontramos estudos consistentes que aprofundem o impacto da geração de Moda como fator econômico agregador de valor, o que nos parece tarefa incontornável se for importante compreender plenamente as oportunidades de negócios – prospectivamente, para além do que já se consolidou como lacuna na relação insumo-produto – como alavancas para investimentos econômicos propulsores de desenvolvimento.

Desde as fibras, até as roupas, ou seja, desde a escolha de materiais e fibras, passando pela fiação, tecelagem, beneficiamento, estamparia e modelagem (corte, montagem e acabamento) há uma indução crescente da estética e da qualidade demandada pelo mercado/Sociedade em um determinado período.

Acontece que da fibra à roupa leva-se dois anos, porém a oferta precisa se renovar, na ponta do varejo, a cada seis meses.Essa questão exige resposta em dois questionamentos: 1) Como fabricar um produto têxtil de qualidade estética sujeito às limitações industriais? E, 2) Como planejar uma promoção eficaz e divulgar a mensagem do estilo ao longo de todas as etapas do processo. (VINCENT-RICARD, 2002, p.33)

O primeiro impacto econômico da moda, que tivemos registro, foi da experiência do empreendedor Marcel Boussac que comprou os excedentes de tecidos usados para cobertura de aviões e uniformes da Primeira Grande Guerra Mundial e, na década de 30, trabalhou a idéia de roupas masculinas que expressassem o heroísmo do período e a necessidade de comodidade para ocupações antes reprimidas de esporte e laser (VINCENT-RICARD, 2002, p.34). Assim, o estorvo de um rejeito da economia de guerra adquiriu um novo valor e passou a ter a França como referência global na geração de valor a partir da moda.

Em nossa percepção, apesar de haver certa autonomia entre a indústria têxtil e a moda, a missão do produto de confecção é um elo forte que liga as duas economias profundamente. Talvez fosse mais adequado denominar Cadeia Têxtil-Confecção-Moda, ou simplesmente, Cadeia Têxtil-Moda, sempre que se tratar de linha de produtos voltado para o varejo.

Desde o início, já nas comunidades primitivas, as vestimentas identificavam a função e a posição social dos indivíduos no grupo. Implicando uma forte interação entre o produto e a personalidade e o estilo do indivíduo, processo que se aprofundou até às vésperas da Revolução Industrial do século XIX, quando a produção de tecidos ganhou uma produção em escala, o que conflitava com a sintonia com estilos personalizados. O que, em absoluto, a moda tenha perdido sua capacidade de impacto econômico.

A partir da Revolução Industrial foi se construindo a moda do comum, da peça fabricada em massa, contraditoriamente, no momento em que o individualismo mais crescia. Mas, apesar do relativo sucesso desta estratégia de massificação, este conflito entre indústria e estilo pessoal do consumidor é mesmo insolúvel.

Em 1959, a indústria dá o primeiro sinal de fadiga, criando os estilistas industriais, que passaram a investigar tendências de estação, de grupos específicos(hippies, yuppies, punks, etc.) e de possibilidades de adaptá-las às possibilidades técnicas e econômicas da CTC. Era preciso “construir” um sistema de evolução que fosse fácil de aplicar, pondo de lado o princípio de optar, ao acaso, por determinada cor. (VINCENT-RICARD, 2002, p.38).

Assim, uma nova mediação entre varejo e indústria se estabele. Note-se que se de um lado se restringia, por absoluta falta de oferta, a escolha de cores e padrões pelos consumidores, a indústria precisava encomendar os tecidos necessários um ano e meio antes, dando certa instabilidade aos produtos primários da cadeia que começou a se pluralizar, particularmente com a entrada das fibras sintéticas.

A estratégia da indústria se concentrou na idéia do bonito-barato, que só a produção em escala poderia proporcionar. No entanto, o atendimento ao estilo individual permaneceu ameaçador, amparado pelo enorme charme da alta costura e das grifes exclusivas, que acabaram se consolidando como balizadores da indústria para a próxima temporada.

Ao mesmo tempo, manteve-se viva também na outra extremidade do consumo, na porção mais empobrecida da Economia Popular, entre os setores que tinham dificuldade em adquirir os produtos “baratos” da indústria, a permanência das costureiras e alfaiates de bairro permaneceram, como até hoje, presentes como alternativa de oferta e economia.

No entanto, o conflito entre a produção em escala e o estilo pessoal parece apontar para novos caminhos a partir de uma coincidência matemática. A arte de tecer, desde a Idade do Bronze, se baseava em técnicas de composição binária, como a linguagem usada pelos computadores. A partir desta mesma lógica binária se produziu as mais distintas texturas e possibilidades de tecidos, bem como as mais surpreendentes possibilidades que a automação e à robótica podem trazer para a indústria, que se desmaterializa ganhando a leveza e a fluidez do conhecimento.

A sociedade pós-industrial está prestes a experimentar uma nova possibilidade, a de ter suas roupas produzidas com exclusividade e em larga escala. Medidas pessoais digitalizadas por escaneamento com raio laser. Comando de associação entre milhares de quesitos de estilo que determinará desde a escolha entre centenas de fibras, passando pela texturização, beneficiamento, corte e acabamento para em uma semana, talvez, ser remetido por via postal ao cliente, ao domicílio. Mas esta possibilidade, altamente provável, precisará de uma capilaridade de pontos de venda e de unidades produtivas que revolucionará a lógica da CTC tal como a conhecemos hoje, abrindo possibilidades de desenhá-la a partir de um modelo econômico geral que busque a cooperação e a inclusão para a explosão produtiva que se faz necessário nesta e em outras cadeias.




4.3.8 A indústria têxtil de confecções e o potencial dos aglomerados

Se articularmos a noção de Aglomerados (PORTER, 1999) com o conceito de Sistemas Produtivos Locais desenvolvido pela REDESIST - que se refere a aglomerados de agentes econômicos, políticos e sociais, localizados em um mesmo território, operando em atividades correlacionadas e que apresentam vínculos expressivos de articulação, interação, cooperação e aprendizagem (VARGAS et al, 2002) – veremos que a CTC como um todo ainda tem muito o que caminhar.

Um sistema deveria incluir não apenas empresas – produtoras de bens e serviços finais, fornecedoras de insumos e equipamentos, prestadoras de serviços, comercializadoras, clientes, entre outros, suas variadas formas de representação e associação - mas também diversas outras instituições públicas e privadas voltadas à formação e treinamento de recursos humanos, pesquisa, desenvolvimento e engenharia, promoção e financiamento.

Mesmo aplicando o conceito de Arranjos Produtivos Locais (APL’s) para referenciar aquelas aglomerações produtivas que não apresentam significativa articulação entre os agentes locais e que, portanto, não podem se caracterizar como sistemas (VARGAS et al, 2002) – ainda assim a CTC brasileira fica devendo sobretudo na integração e gerenciamento cooperativo da cadeia.

Segundo Paul Krugman (1995), é possível observar os retornos crescentes advindos da aglomeração. A isto se soma a evidência econométrica de que a atividade inovativa tende a se concentrar em aglomerações tendo em vista “spillovers” (transbordamentos) advindos do conhecimento.

De acordo com VARGAS et al (2002) de uma maneira geral, constata-se que aglomerações de PME’s são particularmente importantes quando:

• os desequilíbrios regionais e as disparidades na distribuição de renda são grandes; • representam uma parcela significativa dos investimentos nas regiões envolvidas, constituindo-se na principal - e muitas vezes única - oportunidade de emprego e desenvolvimento econômico local.

Tal como, caracteriza-se a economia da Região Norte, entendemos ser, aqui ainda de maior importância, os processos de aprendizagem coletiva, cooperação e dinâmica inovadora desses conjuntos de empreendimentos da Economia Popular e Solidária. Provavelmente esta é uma estratégia fundamental para o enfrentamento dos novos desafios colocados pela difusão da chamada Sociedade da Informação ou Era do Conhecimento, crescentemente globalizada.

A análise de diferentes experiências de arranjos e sistemas produtivos locais no Brasil aponta para uma conclusão fundamental. Percebem-se limitações associadas principalmente à ausência de formatos institucionais capazes de operacionalizar formas coletivas de apoio em detrimento de ações centradas em empresas individuais (VARGAS et al, 2002).

Portanto, a indústria têxtil-confecções encontra-se em um processo em que os resultados gerais permanecem estáveis já há algum tempo, depreciando sua participação no PIB Nacional. Contudo, embora o resultado geral seja declinante, ocorre a especialização de poucas e grandes unidades que investem em tecnologia desintensificando o uso de trabalho. Isto, na ponta têxtil do complexo, porque no lado das confecções ocorre uma pulverização do varejo e a ampliação do uso de mão-de-obra e de oportunidades de auto-trabalho.

Essas tendências abrem espaços vazios, tanto na disputa do mercado internacional quanto na disputa do mercado interno, ambos abertos aos produtos brasileiros.

Destacamos também, que aí encontramos o nexo que coloca a atividade de confecção como uma das mais recorrentes no seio da Economia Popular. À medida que a indústria diminui sua oferta, ou prioriza o mercado externo e desabastece o mercado interno, a Economia Popular fica a mercê dos importados, com destaque para os da China, embora abra oportunidades para pequenos empreendimentos de revenda.

Destacamos, para encerrar este tópico, os seguintes pontos centrais para uma nova estratégia para o setor.

a) a ausência de parcerias/alianças estratégicas ou, num conceito mais abrangente, a ausência de redes integradas de empresas, tanto no varejo (com investimentos em pontos-de-venda, para melhor expor o produto) como nas parcerias com fornecedores (para desenvolvimento de novos produtos, aquisição de matérias-primas e estabelecimento de etapas conjuntas de produção, como, por exemplo, no acabamento);

b) baixo nível de informação e a ausência de sistemas de comunicação instantânea entre os sujeitos da CTC;

c) a pouca agilidade e dificuldade para produzir em lotes menores, mais próximo de nichos de consumo;

d) a comercialização ineficiente, com equipe de vendas pequena e inexperiência no mercado internacional (umas poucas empresas são responsáveis pela maior parte das exportações têxteis nacionais);

e) o baixo investimento em desenvolvimento de produto e design. (MONTEIRO E CORREA, 2003)

Depreende-se dessas informações que o setor têxtil-confecções passou por um processo de alta concentração, mais pronunciada na ponta têxtil. Produto da combinação de uma modernização tecnológica com condições de comércio, principalmente internacional, que a fizeram encolher. No entanto, a forte demanda interna fez com que, na ponta de confecções, houvesse uma abertura para pequenos empreendimentos que inundaram a Economia Popular, mantendo acesa a possibilidade de adoção da CTC como parte importante em uma nova estratégia de desenvolvimento regional e nacional.



5 O PONTO DE PARTIDA: EMPRESAS SEMELHANTES CONCENTRADAS ESPACIALMENTE

A ASCOOP, vista como um objeto sociológico e antropológico, apresenta traços bastante representativos da composição humana da economia popular amazônica. Quase 90% são mulheres, 80% estão na faixa etária entre 35 e 50 anos e oriundos das classes C, D e E. Quanto à principal ascendência étnica, 50% são de negros, 30% brancos e 20% índios.

No que diz respeito á religião, há um equilíbrio muito grande entre o número de seguidores do catolicismo e o grupo de seguidores de religiões protestantes, basicamente evangélicos, divididos em diversas denominações. Quanto à educação formal dos empreendedores, apesar da pesquisa não ter identificado nenhum deles com um diploma de curso superior, por outro lado, também não foi encontrado nenhum cooperado que pudesse ser considerado como um analfabeto formal.

Na ASCOOP, encontraram-se muitas famílias que vieram do interior do Estado do Pará e que estão na primeira ou segunda geração no ambiente urbano, com famílias tipicamente urbanas. Menos de 20% tem acesso regular a recursos de informática.

Choques culturais, geracionais, de gênero e de nível de escolaridade entremeiam o grandioso desafio de entrelaçar histórias de vidas tão distintas com os fios da solidariedade. O processo de transformar um agrupamento de empreendedores populares em uma organização produtiva solidária ainda está em pleno curso.

Outra característica da ASCOOP é a de que seus empreendedores apresentaram diversidade quanto ao tipo de atividade desempenhada no setor têxtil e de acessórios, além de, não raramente, combinarem o exercício de várias funções a um só tempo. Parte deles se dedica exclusivamente à produção, outra atua apenas com serviços, um segmento trabalha unicamente no comércio, uma outra parte combina a produção com serviços e, finalmente, um segmento exerce, simultaneamente, as atividades de produção, serviços e comércio. Por produção entende-se a confecção de roupas ou assessórios novos, sejam padronizados ou “sob encomenda”. Já o termo serviço é entendido, neste caso, como concerto de roupa, elaboração de “aplique” e a realização de pequenas modificações e adaptações “sob encomenda”, portanto, não padronizadas. Finalmente, o termo comércio deve ser entendido, aqui, como a venda de roupas e assessórios produzidos por produtores da cooperativa.

Pode-se afirmar, com razoável evidência, que o foco do conjunto dos empreendedores da cooperativa é a produção de roupas e acessórios de moda, já que aqueles que se dedicam exclusivamente à produção somam 47% de todo o conjunto (ver Figura ura abaixo). Ademais, a produção também aparece como uma das atividades exercidas pelos empreendedores quando estes combinam pelo menos duas funções, como no caso da união da produção com serviços, que teve freqüência de 22%, e também a combinação das tarefas de produção, serviços e comércio, que teve 7% de freqüência.

No total, a produção acaba sendo atividade exercida pelos empreendedores em 83% de todos os casos. No entanto, este número que poderia, sem grandes artifícios, ser esticado até mesmo a 90%, se considerado que o termo “serviços”, como aplicado nesta análise (“concerto de roupa, elaboração de ‘aplique’ e a realização de pequenas modificações e adaptações”) é, em muitos aspectos, uma função muito próxima do que também é entendido como “produção”, cuja maior diferenciação dos “serviços” repousa no fato de representar a elaboração de nova produção.

Desta forma, a produção seria a atividade de, no mínimo, 8,3 empreendedores em cada 10 participantes da cooperativa, sendo um forte elemento de coerência e afinidade dentro deste grupo. Tal fator de intensa similitude torna-se, assim, um primeiro ponto (evidentemente, não desprezível) a favor do enquadramento do conjunto de empreendedores da cooperativa dentro da categoria “concentração de empresas semelhantes”, que, segundo Porter, é um dos dois possíveis tipos de “ponto de partida” para a identificação das partes de um “aglomerado”, sendo o outro tipo uma “grande empresa”.



Figura  20: Tipos de atividades dos empreendedores da ASCOOP
Fonte: Pesquisa de campo


Também é alto o nível de semelhança entre os componentes da cooperativa no que diz respeito aos seus níveis de faturamento, caindo todos eles, indistintamente, na categoria de “microempresa”, segundo classificação do SEBRAE, conforme tabela abaixo.

       TABELA 07: PARÂMENTROS DE CLASSIFICAÇÃO DAS MPE’S 2007 

Classificação Tipo de atividade / Parâmetro Micro empresa Pequena empresa SEBRAE Comércio e Serviços até 9 empregados 10 a 49 empregados SEBRAE Indústria até 19 empregados 20 a 99 empregados RAIS / MTE Nº de empregados até 19 empregados 20 a 99 empregados SIMPLES Receita Bruta Anual R$ 120 mil R$ 1 200 mil Estatuto MPE Receita Bruta Anual R$ 244 mil R$ 1 200 mil BNDES Receita Bruta Anual US$ 400 mil US$ 3 500 mil Fonte: SEBRAE, 2007

Na verdade, praticamente 9 em cada 10 dos empreendedores do grupo apresentaram forte similaridade, já que 89% deles informaram ter um faturamento menor ou igual a R$500,00 por mês (ver Figura ura abaixo). Por sua vez, os restantes 11% das empresas não ficam em uma situação muito diferenciada dos quase 90% que possuem renda até R$500,00, já que, todas estas restantes, informaram possuir renda que começa em R$500,00 e não ultrapassa R$1.000,00 por mês.


Figura 21: Faturamento bruto mensal dos participantes da cooperativa Fonte: Pesquisa de campo


Portanto, não seria demais dizer que, em termos de geração de renda, as empresas da cooperativa apresentam 89% de alta semelhança e, até mesmo, uma forte similitude no conjunto dos 100% dos negócios analisados da mesma cooperativa, já que R$1.000,00 ainda representa uma receita relativamente pequena, considerando os próprios padrões aceitos para classificação dos empreendimentos no país. Este outro fator de forte similaridade entre os membros da cooperativa reforça o enquadramento deste conjunto dentro da categoria “uma concentração de empresas semelhantes”, portanto, como um possível “ponto de partida” para a identificação de um aglomerado. Evidentemente que tais níveis de renda não podem ser considerados como razoáveis, ou mesmo animadores. No entanto, estes dados seriam melhor analisados se for considerado que, provavelmente, na maior parte dos casos das pessoas envolvidas nos empreendimentos, a opção ao trabalho nestas atividades do setor têxtil e de acessórios seria o desemprego, um cenário que tornaria a qualidade de vida destas pessoas ainda mais difícil. A caracterização dos empreendimentos da cooperativa analisada como “micro empresas” é reforçado pelo indicador do número médio de pessoas trabalhando diretamente em cada um destes empreendimentos. Em geral, o SEBRAE também classifica um negócio como sendo “micro empresa” quando este possui número de pessoas ocupadas inferior a “Y”. No caso, nenhum dos empreendimentos da cooperativa informou gerar mais do de “Y” ocupações diretas, mas muito pelo contrario. A absoluta maioria das empresas da cooperativa, ou seja, 83%, gera de 1 a 5 ocupações diretas, enquanto que o restante 17% delas gera de 6 a 10 ocupações diretas (ver Figura ura abaixo). Portanto, nenhuma empresa do conjunto de empreendimento da cooperativa informou gerar mais do que 10 ocupações diretas. O fato de 100% dos negócios da cooperativa terem informado que geram 10 e menos ocupações diretas é um fator a mais a fortalecer o grau de semelhança destes empreendimentos.


Figura 22: Ocupações diretas por empresa da cooperativa

Fonte: Pesquisa de campo.

Mas não é apenas pelo fato de terem apresentado baixo nível de geração de ocupações diretas mais permanentes que as empresas da cooperativa apresentaram similitudes. Também no caso da geração de ocupações diretas temporárias foi identificado um alto grau de homogeneidade entre estes negócios. Neste último caso, nenhuma das empresas da cooperativa apresentou níveis de ocupação maiores do que 10 ou mesmo entre 6 e 10 (ver Figura ura abaixo). Em 100% dos casos, os estabelecimentos, em algum momento, contrataram temporariamente, ou estabeleceram parceria temporária de produção envolvendo até 5 ocupações, o que, no entanto, não significa, necessariamente, um sinal de fraqueza das “microempresas” na sua capacidade de geração de ocupações na economia.

Uma microempresa, obviamente, não tem, em termos absolutos, uma alta capacidade individual de geração de ocupações, como os próprios dados acima discutidos revelam. Entretanto, se do ponto de vista do empreendimento individual o número de ocupações geradas parece pequeno, utilizando-se uma abordagem relativa ao fato de que estes negócios se proliferam aos milhares, se for considerado somente a cidade de Belém, e milhões, se for considerado o Brasil, existe, na verdade, um grande potencial de geração de ocupação de mão-de-obra por este tipo de empresa no país. Na verdade, não é necessário muita discussão para estabelecer consensos em torno da hipótese de que não são desprezíveis os efeitos multiplicadores dos pequenos negócios para a geração de emprego e renda.


Figura 23: Ocupações diretas temporárias por empresa da cooperativa Fonte: Pesquisa de campo.


Uma das razões para a proliferação das microempresas é que exigem pouco ou quase nenhum investimento para a obtenção de uma determinada locação ou meio físico em que funcionam. Este fenômeno repetiu-se, em quase todos os casos, na análise dos empreendimentos da cooperativa, desde que 73% dos empreendedores funcionam em residências, 20% não precisam mais do que a própria via pública para operarem, enquanto que apenas 7% operam em estabelecimentos, que não sejam residências (ver Figura ura abaixo). Assim, 90% de todas as empresas da cooperativa não requerem um estabelecimento especial para desenvolverem suas atividades, o que representa mais um forte elemento de semelhança entre elas.



Figura 24: Meio físico em que opera suas atividades Fonte: Pesquisa de campo.

Entretanto, o nível de semelhança entre empresas da cooperativa não é tão intenso quando se trata dos seus respectivos tempos de funcionamento. Apenas metade destes empreendimentos, ou mais exatamente 46% (ver Figura ura abaixo), apresentou um tempo de funcionamento com maior nível de semelhante, ou seja, entre 2 a 5 anos. Qualquer tentativa de elevar este nível de homogeneidade pela soma aos 24% de ocorrências do grupo de empresas que apresentaram de 6 a 10 anos de funcionamento não ocorreria sem muitas e difíceis ressalvas, pois este último intervalo de tempo já representa um nível de sobrevivência de muito maior dificuldade do que entre 2 e 5 anos. Ademais, existe um grupo nem um pouco desprezível, de 30% de freqüência, que alcançou um patamar de sobrevivência ainda mais diferenciado, ou seja, de mais de 10 anos, alto para qualquer padrão. Assim, o tempo de funcionamento dos empreendimentos não pode ser um indicativo utilizado, pelo menos com muito entusiasmo, para demonstrar a adequação dos empreendimentos da cooperativa ao padrão de “igualdade” requerido pelo conceito de “ponto de partida” de um aglomerado, considerando os índices anteriores de similitude de 90% e até mesmo de 100%.

Mesmo que não tenha contribuído para fortalecer o já demonstrado alto grau de semelhança entre as empresas da cooperativa, os dados do tempo médio de funcionamento, nem de longe, contribuíram para diminuir tal característica, até porque não se tratou de uma constatação de grandes diferenças, mas, apenas, de um menor nível de similaridade. Aliás, o mesmo resultado da apuração do tempo de funcionamento das empresas da cooperativa, se olhado por outro ângulo, pode ser usado para demonstrar mais um forte fator de coerência e homogeneidade interna neste conjunto de negócios. Como a superação dos 2 anos de funcionamento de uma empresa tem sido considerada, freqüentemente, como um corte temporal decisivo para avaliar o potencial de sobrevivência das empresas, pode-se dizer que, em geral, as unidades produtivas da cooperativa apresentaram, em 100% dos casos, um tempo de vida acima do normal – de dois anos. Dentro deste critério, é marcante o fato de que 54% das empresas apresentaram um tempo de sobrevivência acima dos 5 anos e que um terço delas chegou mesmo a apresentar sobrevivência de mais de 10 anos.


Figura 25: Tempo de funcionamento dos empreendimentos da cooperativa Fonte: Pesquisa de campo.

Outro fator de semelhança entre os empreendimentos têxteis e de acessórios da ASCOOP é o padrão tecnológico. Por muito tempo, estes microempresários utilizaram equipamentos semi-industriais e domésticos. Mais recentemente, ocorreram melhoramentos dos equipamentos da maioria dos empreendedores, harmonizando a densidade tecnológica do grupo em um patamar acima. Tais avanços se deram através de iniciativa da Fundação Banco do Brasil, que, atendendo solicitação da diretoria da ASCOOP, doou para os membros desta cooperativa 27 máquinas industriais sendo: máquinas de costura reta, zig-zag, galoneiras, overlock, interlock e máquina de bordar.

 Costura reta   Galoneira   Interlock


Por algum tempo, os produtores passaram por um processo de aprendizado para poderem operar, com eficiência e rapidez, as novas máquinas, revelando-se, indistintamente, no grupo, um “choque tecnológico”. No entanto, estes empreendedores superaram este desafio do conhecimento e obtiveram, com isso, ganhos consideráveis de escala e de qualidade, tanto do produto, como de entrega.

Outra característica claramente evidenciada no conjunto de empreendedores da ASCOOP foi de estão concentrados em determinadas áreas do território da cidade de Belém. No processo de mobilização de empreendedores populares de confecção, iniciado com as iniciativas do Banco do Povo de Belém, em 2000, a ASCAPA (que foi a organização que antecedeu a ASCOOP), que servia de referência de articulação e organização produtiva para os empreendedores populares, atuava principalmente nos bairros do Marco, da Terra Firme, do Guamá, da Pedreira, da Sacramenta, do Tapanã, de Icoaraci, do Outeiro, da Marambaia, do Reduto e da Cremação.

No entanto, com o processo de enfraquecimento decorrente da mudança política, a partir de 2004, quando ocorreu esvaziamento do programa do Banco de Povo que dava de apoio aos micro empreendedores, apenas três pólos destes empresários conseguiram manter seu nível de intensidade: Marambaia (Água Cristal), Tapanã e Sacramenta. Conforme Figura ura abaixo:


Figura 26: Mapa da concentração geográfica da atuação da ASCOOP

Esta nova geografia da ASCOOP, fruto do dinamismo da política pública e da economia popular, em Belém, não impediu que empreendedores de outros bairros fossem acolhidos por qualquer dos pólos remanescentes. Evidentemente que a retomada de políticas públicas municipais mais conseqüentes para o desenvolvimento do empreendedorismo popular permitirá o retorno de um escopo espacial mais amplo da localização dos membros desta associação.

Assim, os dados disponibilizados pela pesquisa demonstraram, com muita evidência, que os empreendimentos têxteis e de acessórios da cooperativa possuem indícios de forte semelhança entre eles. Tal reconhecimento permite afirmar, com bastante categoria, que esta formação de “micronegócios”, ou melhor, negócios da economia popular se enquadram, fortemente, à categoria “concentração de empresas semelhantes” que representa um dos tipos de “pontos de partida” para a identificação de um “aglomerado”, utilizando-se a abordagem elaborada por Michael Porter.










6 A CADEIA VERTICAL A PARTIR DOS EMPREENDIMENTOS DE CONFECÇÕES E DE ACESSÓRIOS DA ASCOOP


Os empreendimentos associados à ASCOOP, voltados para a atividade têxtil e de produção de acessórios, apresentaram razoáveis evidências de que podem ser caracterizados como uma “concentração de empresas semelhantes”, o que permite enquadrar tal conjunto como “um ponto de partida”, que, de acordo com Michael Porter, seria o passo inicial na identificação dos componentes de um possível aglomerado. Na seqüência, este capítulo busca a identificação de elementos característicos de uma formação de cadeia vertical de empresas e instituições.

Esta cadeia vertical teria como ponto de referência a “concentração de empresas semelhantes” da produção têxtil e de acessórios da ASCOOP e se materializaria através de relações insumo-produção para trás e para frente. Em uma direção, a cadeia se materializaria através das relações insumo-produto deste conjunto de empresas têxteis e de acessórios com seus elos produtivos, à montante, formado por empresas e instituições localizadas em Belém, fornecedoras de insumos requeridos por estes empreendimentos da ASCOOP. Em outra direção, a cadeia se materializaria através de relações insumo-produto do mesmo conjunto de empresas têxteis e de acessórios com seus elos produtivos, à jusante, formado por empresas e instituições localizadas em Belém, consumidoras da produção de bens e serviços oriundos destes empreendimentos cooperativados.

Iniciando-se a identificação daqueles empreendimentos que são os elos produtivos à montante das empresas têxteis e de acessórios da ASCOOP, em Belém, observou-se, em particular, a presença de empresas comerciais provendo insumos para a produção têxtil e de acessórios. Os mais demandados destes insumos foram tecidos, produtos de armarinho e máquinas e equipamentos, que tiveram, sem exceção, freqüência igual ou maior que 89% nas investigações realizadas junto aos citados negócios (ver Figura ura abaixo). Os produtos de armarinho foram os que obtiveram a maior freqüência de respostas entre todos os tipos de requerimentos utilizados pelas empresas da cooperativa, aparecendo, na verdade, em 100% de todos os 46 casos. Em segundo lugar, apareceu o requerimento de máquinas e equipamentos, com 93% de freqüência e, em terceiro lugar, os tecidos, com 89% de presença. A seguir, aparece o insumo “formação” (treinamento de recursos humanos), com 83% de presença, o que representa, certamente, uma boa notícia, no sentido de que, aparentemente, é uma forte evidência da disposição destes microempresários em melhorar cada vez mais suas capacitações e, portanto, seus resultados. O requerimento crédito apareceu em apenas 26% de todas as respostas, o que, por sua vez, é um indicador do quanto o sistema de crédito formal ainda pode estar distante do mundo da economia popular, apesar de todos os esforços realizados ultimamente. Mesmo que a questão do crédito à economia popular não seja o foco destes estudos sistemáticos desta pesquisa, não é demais registrar que, em conversas informais com estes empreendedores, notou-se que uma das principais razões para estivessem ainda bastante alienados do sistema formal de crédito era o custo do dinheiro, ainda esta bastante elevado, mesmo com a forte diminuição que o preço deste ativo vem sofrendo nos últimos dois anos.


Figura 27 : Principais insumos demandados pela concentração de empresas semelhantes da atividade têxtil e da produção de acessórios. Fonte: Pesquisa de campo.

Porém, a principal e mais marcante característica da estrutura à montante da cadeia vertical levantada foi de que toda a quantidade de produtos de armarinho, tecidos, máquinas e equipamentos consumidos pelo conjunto de empreendedores da cooperativa eram oriundos de unidades produtivas localizadas fora de Belém e, na verdade, do próprio Estado do Pará. Tal peculiaridade significa que muitos dos importantes benefícios dos elos para trás, a partir dos referidos micro empreendimentos, estavam se dando longe da economia local, dada a inexistência de unidades produtivas regionais produtoras destes insumos (ver tabela abaixo).

TABELA 7: A ORIGEM ESPACIAL DA PRODUÇÃO DOS INSUMOS DAS EMPRESAS DA ASCOOP

INSUMOS LOCAL (%) EXTERNA (%) Armarinho 0 100 Tecidos 0 100 Máquinas 0 100 Equipamentos 0 100 Borracha 0 100 Fonte: Pesquisa de Campo, 2007.


A produção local dos insumos industriais da cadeia produtiva da atividade têxtil e de acessórios, em Belém, poderia ter sido criada tanto por “efeitos em cadeia interior” como por “efeitos em cadeia exterior”. A primeira alternativa, que, no caso, significaria a produção local dos insumos através de negócios liderados pelos empresários das próprias unidades produtivas têxteis e de acessórios, em Belém, teria chances praticamente nulas de ter ocorrido, dado o “grau de desconhecimento tecnológico” dos empresários da cooperativa sob análise. Tal categoria significa o nível de desconhecimento dos empresários da ASCOOP sobre o processo produtivo da produção subseqüente ou anterior à produção de produtos têxteis e de acessórios. Dado ao estágio de informação e conhecimento que estes empresários se encontravam, não foi difícil deduzir que, em todos os casos, era praticamente nulo o “grau de desconhecimento tecnológico” sobre o processo produtivo de elaboração de produtos de armarinho, tecidos e de máquinas e equipamentos, o que, evidentemente, tornou muitíssimo difícil qualquer iniciativa para a produção local dos seus insumos. Assim, seria muito significativo o “salto tecnológico” necessário para que os empreendedores em foco alcançassem a condição necessária para operar a produção dos seus principais insumos, considerando o patamar de conhecimento e de informação em que foram encontrados.

A expansão da cadeia produtiva têxtil e de acessórios, em Belém, através da produção de insumos desta indústria, localmente, poderia ter vindo via “efeitos em cadeia exterior”, ou seja, com empresários que não fossem aqueles já envolvidos com a produção têxtil e de acessórios, na mesma cidade. Tal opção teria sido uma maneira de superar os problemas de “grau de conhecimento tecnológico” apresentados com a opção dos “efeitos em cadeia interior”, materializando, assim, os elos industriais locais “à montante” da produção têxtil e de acessórios, nesta cidade. Mas, para que a cadeia produtiva da indústria têxtil e de acessórios, em Belém, pudesse ter se expandido à montante, através da produção local de insumos industriais, teria sido necessário a aplicação de “arranjos institucionais” e de “incentivos econômicos” promovidos pela esfera governamental, o que não ocorreu, evidentemente.

Tais “interferências políticas planejadas” eram necessárias dado que, como apontado por Myrdal, “o equilíbrio estável”, ou seja, uma suposta tendência das forças de mercado para a correção de desequilíbrios, não passaria de uma “premissa irrealista” da teoria econômica tradicional. Em outras palavras, a “causação circular e cumulativa” negativa, características de regiões periféricas de países em desenvolvimento, tornou improvável a implantação, em Belém, de industrias de insumos da indústria têxtil e de acessórios, na ausência de uma iniciativa intencional para romper um “circulo vicioso” muito claro: a produção industrial de insumos para a produção têxtil e de acessórios, em Belém, não ocorria porque por ser esta uma região periférica de um país em desenvolvimento; e Belém seria uma região periférica de um país em desenvolvimento porque não possuía produção de insumos industriais. Entre estas “interferências políticas planejadas” teria sido fundamental o enfrentamento de “pontos de estrangulamento” da infra-estrutura econômica e social, através de ações adequadas como a “provisão de obras públicas pelos estado”, através de novos serviços de saúde pública, educação, estradas, pesquisa básica, energia, controle ambiental, etc.

De toda modo, a realidade é que, a cadeia produtiva formada pelas empresas da ASCOOP e seus elos à montante, todos em Belém, era composta principalmente por empresas de comércio que vendiam insumos industriais para este conjunto de empreendimentos. Tal cadeia não apresentou nenhum elo “à montante” constituído por unidades produtiva industrial fornecedora de insumos para os produtores da ASCOOP (ver fluxograma abaixo).






Figura 28: Cadeia produtiva têxtil e de acessórios, à montante, em Belém Fonte: Pesquisa de campo, 2007.


Outra forma de revelar o grau de desenvolvimento da cadeia produtiva têxtil e de acessórios foi através da análise do nível de “cooperação” (categoria que também pode ser entendida como “parcerias”) entre as empresas produtoras de produtos têxteis e de acessórios da ASCOOP e seus fornecedores. Por cooperação entendeu-se a categoria usada por Michael Porter em sua discussão da teoria dos aglomerados, no sentido de iniciativas entre dois elementos, quando tanto um lado como o outro sai ganhando. Assim, observando-se os levantamentos feitos, identificou-se que um pouco mais da metade dos produtores têxtil e de acessórios vivenciaram ações de cooperação com os seus fornecedores (ver Figura ura abaixo). Este resultado, aparentemente, sugere que ainda não são muito intensas as relações de parcerias entre as empresas da referida cooperativa e seus fornecedores.


Figura 29: Freqüência das parcerias entre os empreendimentos da ASCOOP e seus fornecedores Fonte: Pesquisa de campo

Essas cooperações foram classificadas em cinco diferentes tipos: “promoção”, “compra por encomenda”, “prazo de pagamento”, “adiantamento”, “formação” e “avalista”. Por “promoção” entendeu-se a situação na qual um fornecedor aceitaria ou ofereceria desconto no preço de seus insumos, ou mesmo a doação dos mesmos, em troca de ação de divulgação de sua loja e da marca destes insumos pelo produtor (comprador), como por exemplo: a loja de comércio de tecidos doaria tecido à costureira, a qual, por sua vez, divulgaria a loja e a marca do tecido no mercado local.

Como “compra por encomenda” entendeu-se a iniciativa do fornecedor em adquirir, de uma indústria, certo produto especificamente para atender um determinado pedido feito por um produtor têxtil ou de acessórios, como por exemplo: uma costureira se dirigiria a uma loja com um pedido de produtos de armarinho de um tipo que normalmente não seria adquirido pela loja, que, no entanto, solicitaria uma partida deste tipo à indústria da mercadoria para atender especificamente à costureira.

Por sua vez, “prazo de pagamento” foi entendido como a situação na qual o fornecedor aceitaria ou daria prazo de pagamento para o produtor pagar por sua encomenda, como por exemplo: uma costureira iria a uma loja e ao comprar tecidos pediria ou receberia um prazo de pagamento de 30, 60 e 90 dias para pagar o material.

Por “adiantamento” se entendeu a situação na qual um fornecedor adiantaria um determinado insumo para o produtor sem receber nada, de forma imediata, deixando o pagamento para quando o produtor vendesse o produto feito com o insumo comprado por adiantamento, como por exemplo: uma pequena fábrica de uniforme profissional não teria capital para fazer face ao valor da compra dos insumos para uma grande encomenda, mas receberia de um fornecedor um adiantamento de 100% dos insumos requeridos em troca do pagamento de apenas 20% do valor desta compra, com a promessa de que a dívida seria totalmente saldada após a venda do produto final que utilizou o insumo adiantado.

O tipo de cooperação “formação” foi entendido como a situação na qual um fornecedor estaria interessado na melhoria da capacitação profissional de produtores que, normalmente, atenderiam seus pedidos, como por exemplo: quando uma loja de máquinas de costura oferecesse cursos para produtores com o objetivo de ensinar-lhes novas formas de costurar utilizando as máquinas por ela vendidas, ou, então, quando uma loja oferecesse cursos de corte e costura para produtores para ensinar-lhes novas formas de utilização de seus tecidos.

Finalmente, por “avalista” se entendeu a situação na qual um fornecedor ou teria sido convidado ou teria se oferecido para ser avalista de uma compra do produtor, como por exemplo: uma costureira precisaria obter um empréstimo de um banco de fomento e o seu principal fornecedor se ofereceria para ser avalista no contrato de empréstimo junto à instituição financeira.


Figura 30: Tipos de parcerias mais freqüentes entre os empreendedores da ASCOOP e seus fornecedores Fonte: Pesquisa de campo


Dos dados analisados verificou-se que o tipo de cooperação mais freqüente foi o de “prazo de pagamento”, com freqüência de 52% entre todos os cooperados da ASCOOP (ver Figura ura acima). Isto significou, na prática, que um em cada dois fornecedores encontrou razões para servir de financiador das compras dos produtores, sendo que apenas a metade dos produtores não quis ou não pode se beneficiar deste processo de cooperação. No entanto, mesmo que não tenha estado presente em metade dos casos, a opção pela cooperação do tipo “prazo de pagamento” acabou sendo a mais freqüente por ser uma forma de relacionamento no qual, apesar de todo o custo ser assumido pelo fornecedor, ao mesmo tempo, lhe garante a venda de seus produtos.

Já o tipo de cooperação que alcançou o segundo maior nível de freqüência foi o de “adiantamento”, com 17%. Na verdade, este último tipo de cooperação se trata, apenas, de uma variante do tipo de cooperação “prazo de pagamento”. O “adiantamento” não passaria de uma venda a prazo, sem prazo de pagamento muito bem definido – neste caso, não haveria uma data ou datas pré-estabelecidas para pagamento dos insumos comprados pelos produtores, sendo estes pagamentos dependentes diretamente da venda dos produtos que foram elaborados com os insumos vendidos pelos fornecedores. Até mesmo as principais razões para a efetivação da cooperação do tipo “adiantamento” coincidem com as motivações que ocorrem no caso do “prazo de pagamento”.

O terceiro lugar nas preferências das cooperações ficou por conta da “formação”, com 11% dos casos. Apesar de ser encontrada apenas uma vez a cada produtores, este tipo de cooperação revela-se crescentemente útil para os dois lados do “balcão”. Enquanto que para realizá-lo os fornecedores acabam ficando com a maior parte dos custos dos treinamentos, em troca, os produtores passam a dispor de mais amplas maneiras de utilização dos insumos, não só permitindo um aumento da demanda, como um fortalecimento da marca, pelo menos em termos de melhor qualidade do produto para o consumidor final.

No quarto lugar das preferências ficaram empatadas as cooperações dos tipos “compra por encomendas” e “avalista”, com 7% e, em quinto lugar, a cooperação “promoção”, com 4%. A “compra por encomendas” não apresenta nenhum custo adicional aparente para os fornecedores, além dos custos já usuais que eles assumem, inclusive no caso de outras cooperações, mas significa, com certeza, maiores vendas, pois, enquanto impliquem na compra de produtos diferentes dos que usualmente faz, por outro lado, o fornecedor já os compra com venda garantida, já que foram encomendados.

Por sua vez, o tipo de cooperação “avalista” apresenta um ônus muito elevado para o fornecedor, que passa a ser responsável, em última instância, pelo empréstimo feito pelo produtor. É verdade que quando todo o valor obtido com o empréstimo, ou grande parte deste, é usado pelo produtor para realizar compras no fornecedor-avalista, este tem suas receitas elevadas. No entanto, até mesmo toda a receita destas vendas pode ser perdida caso o produtor não cumpra com suas obrigações de bom pagador de empréstimos. Finalmente, a preferência menor pela cooperação “promoção” pode ser entendida por representar, sempre, uma perda de receita por parte do fornecedor, seja através de descontos ou mesmo doações. É interessante observar que em nenhum dos tipos de cooperação analisada o produtor apresenta um nível de risco de perda maior do que os riscos apresentados aos fornecedores. Assim, pode-se deduzir que a freqüência de 52% de produtores realizando ações de cooperação com os seus fornecedores pode ser considerada, relativamente, um número baixo, dada as grandes vantagens e poucos riscos que o produtor adquiria com as parcerias,

Pela mesma razão, pode-se considerar baixa a freqüência com que os produtores da ASCOOP tomaram a iniciativa de iniciar uma parceria com os fornecedores, que chegou apenas a 33% (ver Figura ura abaixo). No entanto, qualquer análise mais confiável destes números exigiria, na verdade, uma análise temporal (de pelo menos cinco anos) da adesão e das preferências relacionadas às iniciativas de cooperação, dados que não estão disponíveis e que não teriam sido possíveis de serem gerados por esta pesquisa.


Figura 31: Freqüência com que os empreendimentos da ASCOOP tomaram iniciativas para parcerias com seus fornecedores Fonte: Pesquisa de campo

Na verdade, contrariamente ao que indicaria uma visão negativa sobre as freqüências levantadas, não se pode deixar de hipotetizar que estes mesmos números poderiam representar isto sim, um crescimento das preferências pela cooperação, que poderiam estar se descolando da tradicional e atrasada ideologia do mercado capitalista que prega que a única a regra “é cada um por si e Deus por todos”. Assim, mesmo 52% de casos de cooperação entre os produtores e fornecedores e 33% de iniciativas dos produtores na direção da cooperação podem ser positivos, sob este ponto de vista. A própria construção de teorias como a dos aglomerados (clusters) – evidenciando a importância estratégica da cooperação entre empresas e instituições para a promoção da produtividade e da competitividade –, nascida nas entranhas de um dos centros de ensino de negócios mais tradicionais do mundo, exatamente na Universidade de Harvard, através do Prof. Michael Porter, poderia indicar que seria muito mais indicado ao analista considerar que os números estariam indicando menos um desencanto com as vantagens da cooperação do que um processo de mudança positiva, mesmo que estivesse nos seus estágios iniciais.

Concluída a análise das relações do conjunto de empresas têxteis e de acessórios da ASCOOP com os elos produtivos formados pelas empresas e instituições à montante, localizadas em Belém, fornecedoras dos insumos requeridos por estes empreendimentos cooperativados, segue-se na investigação da cadeia produtiva vertical. Desta vez, discuti-se a possível materialização do outro lado da cadeia produtiva vertical e que seria formado pelo próprio conjunto de empresas têxteis e de acessórios mais os elos produtivos à jusante, constituído por empresas e instituições localizadas em Belém, clientes dos empreendimentos da referida cooperativa.

Iniciando-se a identificação daqueles que são, em Belém, os principais elos produtivos à jusante dos empreendimentos têxteis e de acessórios da ASCOOP, verificou-se que o tipo de clientes “vizinhos e familiares” forma o elemento que com mais compra das empresas desta cooperativa, com freqüência de 41% (ver Figura ura a seguir). Tal característica representa, certamente, que uma boa parte da estrutura dos canais de comercialização dos empreendedores da cooperativa ainda é do tipo informal.


Figura 32: Principais clientes dos empreendimentos da ASCOOP em Belém Fonte: Pesquisa de campo

No entanto, apesar da informalidade ser um elemento forte na roupagem desta comercialização, não chega a ser dominante, chegando no máximo a 41% do total de transações. Ademais, elementos de informalidade já convivem com clientes muito mais exigentes, de gostos sofisticados, definidores de tendências de consumo e mesmo globalizados, como as lojas em shopping centers (aqui referidos simplesmente com “shopping”), que representam cerca de 2% do total dos clientes e, possivelmente, muito mais do que isto em termos de faturamento. Esta aparentemente crescente contradição formada pela convivência entre estruturas modernas e tradicionais à jusante dos empreendimentos da ASCOOP pode apontar para transformações bastante dinâmicas para muitas das empresas desta cooperativa, particularmente em termos de qualidade, confiabilidade, eficiência e diferenciação.

Outro fator que diminui a influência da informalidade na comercialização das empresas da ASCOOP é, certamente, a diversificação dos tipos de canais de vendas destes empreendedores de produtos têxteis e de acessórios. Além dos já referidos canais de comercialização “vizinhos e familiares” e “shopping”, também são canais de vendas destes empreendedores as “encomendas”, as “pequenas lojas”, os “feirantes e camelôs”, a “galeria” e o “interior”.

Aliás, um cliente quase tão importante quanto os “vizinhos e familiares” são as “encomendas”, que atingem 32%. Por sua vez, as “pequenas lojas” representam 21% da demanda, os “feirantes e camelos” 15%, a “galeria” 8% e clientes do “interior” do Estado 5%.

Considerando-se a localização dos diferentes tipos de clientes que apresentaram, pode-se dizer que cerca de 95% da produção dos micro empresários da ASCOOP é consumida em Belém e apenas 5% dirigida para consumidores de fora da capital, mais exatamente para consumidores no interior do Estado do Pará. Assim, os elos produtivos à jusante da cadeia vertical da produção têxtil e de acessórios da ASCOOP, em Belém, se constituí pelos “vizinhos”, pela “encomenda”, pelos “pequenos lojistas”, por “feirantes”, pela “galeria” e pelo “shopping”. A estrutura composta pelos empreendimentos desta cooperativa mais os seus referidos elos para frente formam a cadeia produtiva têxtil e de acessórios, à jusante, em Belém. Nenhum dos elos prospectivos da produção têxtil e de acessórios da ASCOOP representou, nesta cadeia produtiva, unidades produtivas utilizando, como insumo industrial, os bens e serviços gerados por estes empreendedores (ver fluxograma abaixo).






Figura 33: Cadeia produtiva têxtil e de acessórios, à jusante, em Belém Fonte: Pesquisa de campo, 2007.

Outros dados obtidos na investigação sobre os elos à jusante dos empreendimentos da ASCOOP dizem respeito às iniciativas de cooperação entre os participantes desta cooperativa e os seus clientes. Da mesma forma que a análise das relações dos empreendimentos da ASCOOP com os seus fornecedores, a avaliação do nível de “cooperação” entre as empresas da ASCOOP e seus clientes também pode contribuir para avaliar o grau de desenvolvimento da cadeia produtiva vertical têxtil e de acessórios.

Assim, analisando-se os dados levantados, identificou-se que 61% dos produtores têxteis e de acessórios da ASCOOP vivenciaram ações de cooperação com os seus clientes (ver Figura ura abaixo), o que representa aproximadamente 20% a mais do que os 52% observados no caso das parcerias entre estes produtores e seus fornecedores. Este resultado, aparentemente, sugere havia um pouco mais de motivações para ocorrer iniciativas de cooperação entre os produtores da ASCOOP e seus clientes do que iniciativas de cooperação entre os empreendedores desta cooperativa e seus fornecedores. No entanto, mesmo assim, tal freqüência ainda não poderia autorizar a afirmação de que tenha ocorrido uma intensa presença de parcerias dos micro empresários têxteis e de acessórios com os seus clientes.


Figura 34: Freqüência das parcerias entre os empreendimentos da ASCOOP e seus clientes. Fonte: Pesquisa de campo


Essas cooperações foram classificadas em sete diferentes tipos: “promoção”, “compra conjunta”, “prazo de pagamento”, “formação”, “política pública”. “encomenda” e “comercialização”. Mesmo que em alguns casos estes tipos apresentem nomes iguais aos utilizados para classificar os tipos de parceria entre os empreendedores da cooperativa e seus fornecedores, apresentam sentidos diferentes, em todos os casos.

Assim, “promoção” tem o sentido de toda iniciativa do produtor no sentido de ajudar o cliente a vender. Como exemplo, tem-se situação na qual um produtor aceitaria ou ofereceria desconto nos preços de seus produtos, ou mesmo doaria os mesmos, em troca de ação de venda dos produtos e divulgação de sua marca pelos clientes.

Como “compra conjunta” entendeu-se a situação na qual o cliente compra insumo ou insumos para o produtor antes deste iniciar a produção. Uma das razões em que esta situação poderia ocorrer é quando o produtor recebe do cliente uma encomenda em ordem que exige compras de alto valor de insumos, fora do alcance do capital de giro do produtor. Tal impossibilidade poderia ser resolvida através de ação do cliente que poderia, por exemplo, passar seu cartão de crédito para pagar metade do total dos insumos. Tal compra já estaria pagando parte do total do valor das compras do cliente junto ao produtor. É o adiantamento de compra de insumo industrial pelo cliente.

Por sua vez, “prazo de pagamento” foi entendido como a situação em que o produtor aceitaria ou ofereceu um determinado prazo de pagamento para o cliente pagar por um pedido, como por exemplo: um feirante iria a um estabelecimento industrial da ASCOOP e receberia um prazo de pagamento de 30, 60 e 90 dias para pagar os produtos adquiridos.

O tipo de cooperação “formação” foi entendido como uma situação na qual o produtor busca desenvolver um processo educativo versando sobre economia solidária, tendo como objeto de ação o cliente. Em algum momento, buscou-se desenvolver parcerias de “formação” na qual um cliente se interessaria pela melhoria da capacitação profissional dos produtores que normalmente atendem seus pedidos, como através de cursos para o ensino de novas formas de costurar. No entanto, este último tipo de parceria nunca veio a acontecer.

Pela parceria denominada de “política pública” entendeu-se qualquer situação na qual tenham os produtores tenham se mobilizado ou simplesmente provocado o poder público para criar novos canais de comercialização para seus produtos. A parceria com os clientes completa-se, pois estes são convidados a assumir postos nestes locais de vendas. Um exemplo deste tipo de parceria foi a criação do Shopping Popular Usina Progresso, que é uma galeria de varejo situado na Av. Assis de Vasconcelos, próximo à PARATUR, onde foram alocados “comerciantes” que vendem produtos populares, inclusive produtos produzidos pelos empreendedores da ASCOOP e outra cooperativas. Estes “comerciantes” não tinham, no entanto, uma obrigação formal, mas, apenas política, de vender os produtos dos cooperados.

Por “encomenda” entendeu-se a situação na qual um cliente dos produtores da ASCOOP receberia a proposta de uma grande encomenda, de cuja responsabilidade de entrega precisa ser dividida com os produtores. Assim, o cliente, para aceitar a encomenda, precisaria de compromisso de um produtor, ou de um grupo de produtores, ou mesmo de todos os produtores da ASCOOP, de que é possível entregar o pedido com a qualidade, a quantidade e o prazo requeridos. Desta maneira, para aceitar uma encomenda o cliente precisaria, antes, “encomendar” à cooperativa.

A lista dos tipos de cooperação entre os produtores da ASCOOP e seus clientes ainda incluía a “comercialização”. O principal objetivo desta parceria era a exposição para venda, particularmente da grife “100% Amazônia”, de produtos da ASCOOP. A “comercialização” incluía, muito freqüentemente, a consignação, situação na qual um produtor têxtil adiantaria um determinado produto para um lojista sem que, no ato desta transferência, viesse a receber o seu pagamento, deixando para ser pago apenas quando o lojista tivesse vendido o referido produto, como por exemplo: uma pequena fábrica de uniforme profissional repassaria 200 peças para uma loja, que só pagaria pelos produtos à medida que os fosse vendendo; o que não fosse vendido seria recolhido pelo produtor, sem ônus para os clientes.

Ao se analisar os dados sobre os tipos de cooperação entre os produtores da ASCOOP e os seus clientes, foi encontrado como modo de parceria mais freqüente, com 54%, o de “prazo de pagamento”, ou seja, a possibilidade de serem adiados pagamentos do mesmo valor por um dado período de tempo, que é, sem dúvida, um meio tradicional dos produtores atraírem a preferência dos clientes (ver Figura ura abaixo). Este é um tipo de cooperação cujo ônus fica quase que inteiramente por conta do produtor, sendo muito benéfico para os clientes. Um outro tipo de cooperação quase tão freqüente, com 39%, é a “comercialização”, no qual se destaca o mecanismo da “consignação”, que também é muito interessante para todos os tipos de clientes dos produtores, visto que permitem que este tenha o potencial de realizar um faturamento com o comprometimento de menor capital ou mesmo sem nenhum capital de giro. Por outro lado, a “comercialização” apresenta, para o produtor, o atrativo de ser uma chance a mais de vender seus produtos, enquanto poupa tempo do esforço de venda, podendo concentrar-se no processo de produção, vantagem que, igualmente, obteria com o mecanismo do tipo “prazo de pagamento”.


Figura 35: Tipo de parcerias entre os empreendimentos da ASCOOP e seus clientes. Fonte: Pesquisa de campo

É interessante apontar que a “comercialização” é, aparentemente, apenas uma variante da parceria “prazo de pagamento”, já que, a consignação, o principal instrumento da “comercialização”, não passa de uma venda de mercadorias a prazo, só que com um prazo indefinido, que pode se encerrar mais cedo ou mais tarde do que os usuais prazos de pagamento, dependendo da velocidade de venda do produto no mercado. Ademais, também é interessante destacar que os dois mais freqüentes mecanismos de cooperação entre os produtores e os clientes, o “prazo de pagamento” e a “comercialização”, eram, em geral, mais benéficos para os clientes. Contrariamente, os dois mais freqüentes mecanismos de cooperação entre os produtores e seus fornecedores, o “prazo de pagamento” e o “adiantamento”, foram, em geral, mais benéficos para os produtores, por um lado, na cooperação com os fornecedores, os produtores ganham mais, por outro, na cooperação com os clientes, acabam sendo os menos privilegiados, terminando em uma situação que, em geral, parece balanceada. Finalmente, aponte-se que o prazo de pagamento é a forma mais freqüente de cooperação nos dois lados da relação insumo-produção dos produtores, o que, parece evidenciar que o ganho financeiro imediato ainda se apresentava como um forte estímulo para o ato de cooperar por parte dos produtores da ASCOOP e, igualmente, de seus fornecedores e clientes.

Comparativamente ao “prazo de pagamento”, a cooperação do tipo “formação” teve muito pouco destaque, apesar de, teoricamente, nos dias atuais, ser considerada uma das formas com maior capacidade de fortalecimento da eficiência, talvez até mais do que o próprio capital, em alguns casos, podendo ser, na verdade, um pré-requisito para que investimentos financeiros possam oferecer seus melhores resultados. No entanto, entre as dificuldades que a “formação” ostenta, para que possa ter maior preferência, esta o fato de que seus resultados são mais indiretos do que diretos, requerendo que os empreendedores sejam despertados para suas possibilidades.

Paradoxalmente ao fato de que, aparentemente, os clientes estariam tendo mais vantagens do que os produtores nas parcerias entre esses dois grupos, 86% dos produtores disseram ter iniciado o engajamento em algum tipo de parceria entre estes dois conjuntos (ver Figura ura abaixo). Aliás, esta freqüência foi muito maior do que a verificada para as iniciativas do mesmo grupo para cooperar com os seus fornecedores, que foi de apenas 33%, em uma situação na qual os produtores eram, claramente, ganhadores, recebendo e não concedendo, prazos de pagamento e outros favores em suas parcerias. Este índice mais alto de iniciativas de parcerias por parte dos produtores, em direção aos seus clientes, parece sugerir que em cada 10 vezes que os produtores concederam, por exemplo, “prazo para pagamento”, quase 9 foram o resultado de iniciativa dos produtores. Tal tendência dos produtores de terem tomado a iniciativa quase todas as vezes que fazem uma parceria na qual não tiveram “a parte do leão” poderia ter, como uma das explicações, a existência de um alto grau de competição entre os próprios produtores de produtos têxteis e de acessórios da ASCOOP.


Figura 36: Freqüência com que os empreendimentos da ASCOOP tomaram iniciativas para parcerias com seus clientes Fonte: Pesquisa de campo

É claro que, do ponto de vista de uma economia de mercado, não é apenas normal, como é até mesmo desejável que estivesse ocorrendo uma saudável competição entre produtores do mesmo ramo, principalmente pelo fato de que, neste caso, os empreendedores moram não somente no mesmo bairro, mas, até mesmo, na mesa quadra, fato agravado em função de que consideraram a “vizinhança” como o principal de seus mercados.

Assim, utilizar a “competição” para explicar a excessiva iniciativa para conceder descontos e realizar vendas por consignação não é convincente. Em qualquer economia de mercado a competição estaria presente, o que a torna um “fator neutro”, portanto, um fenômeno incapaz de operar explicações (a competição explicar a competição não passaria de uma clara tautologia). Mas, então, se a explicação para a excessiva iniciativa para a cooperação com os clientes via mecanismos marcadamente prejudiciais não pode estar, por definição metodológica, na presença da competição em um mercado capitalista, talvez pudesse estar na falta desta em função de falhas (imperfeições) de mercado, tanto no lado da oferta como da demanda.  

Quanto às imperfeições na estrutura da oferta, os dados já apresentados demonstram, claramente, que o conjunto de empreendedores da ASCOOP se trata de um conjunto de empresas muito semelhantes, que, aliás, foi à conclusão do capítulo anterior após farta análise qualitativa e quantitativa. Assim, não se pode dizer, em hipótese nenhuma, que qualquer dos cooperados pudesse, por si só, influir nos preços e nas quantidades das mercadorias. No entanto, se não só nenhuma empresa da ASCOOP tem tamanho, como muito menos tem capacidade de “inovação tecnológica” para distorcer os mercados, o mesmo não se pode dizer no caso das empresas que são clientes dos empreendimentos desta cooperativa.

A possibilidade de ocorrência de falhas do mercado de têxteis e de acessórios em Belém poderia estar ocorrendo pelo lado da demanda, em função do aparecimento de compradores de tamanho e poder financeiro destoantes do tradicional cliente da cooperativa. Trata-se da constatação, feita na Figura ura “x”, anteriormente mostrada neste capítulo, que indica lojas em “shopping centers” como um dos compradores da cooperativa. Ademais, em 32% dos casos a demanda pela produção destes microempresários veio por “encomendas”, parte das quais poderia advir de intermediários de grandes lojas. Ainda mais, 21% dos clientes da cooperativa eram de pequenos lojistas, os quais, se pequenos comparativamente ao total da economia, poderiam, em vários casos, serem bem maiores do que os empreendimentos cooperativados. De todo modo, mesmo tais evidencias ainda não são tão convincentes, pois os “shopping centers” eram responsáveis por apenas 2% dos pedidos para os produtores, como também não foi levantada nenhuma informação que pudesse ser afirmativa da presença de grandes compradores na origem das “encomendas” e nem nenhum estudo mais detalhados sobre o perfil das chamadas “pequenas lojas”.

Assim, além das falhas de mercado, não poderem ser responsabilizadas de forma definitiva como a explicação para a excessiva iniciativa dos produtores para conceder descontos e consignação para seus clientes, existiria, ainda, a não menos razoável tese de que a capacidade produtiva dos produtores estivesse acima da capacidade de compra de seu principal grupo de clientes, composto pelos seus “vizinhos”, os ‘feirantes”, a “galeria” e muitos dentro deste grupo de “encomendas”. Mas, evidentemente, outros fatores mais poderiam ser elencados para explicar o freqüente impulso rumo a tipos de cooperações não tão favoráveis. No entanto, qualquer análise mais confiável do fenômeno exigiria, na verdade, uma pesquisa mais focada na questão do mercado têxtil e de acessórios em Belém e em com uma análise temporal de pelo menos cinco anos de extensão, o que não só não foi objeto desta pesquisa, nem foi feito por qualquer outro trabalho, até então.

Ao mesmo tempo em que se verificou a clara tendência dos empreendedores da ASCOOP em iniciarem, com grande freqüência, cooperações não tão favoráveis com seus clientes, identificou-se em 63% destes microempresários o sentimento de que estariam realizando algum tipo de cooperação entre eles (ver na Figura ura abaixo). Mesmo que problemas de compreensão por parte de alguns cooperados sobre o que seria exatamente cooperação ou parceria pudessem estar na origem do fato de que, quase 4, em cada associados da ASCOOP, não reconheceram estar desenvolvendo qualquer tipo de ação solidária com seus pares da própria cooperativa, tal realidade volta a lembrar a possibilidade de que o relacionamento entre os cooperativados poderia estar sob algum tipo de pressão “extra” advinda de falhas de mercado. Afinal, é alto índice de 37% de associados que ainda não se deram conta de que a participação em uma cooperativa representa estar com algum nível de cooperação com seus pares.

  Figura 37: Freqüência de parcerias entre os empreendedores da ASCOOP  
  Fonte: Pesquisa de campo

Os tipos de parcerias que foram analisadas nas relações entre os próprios microempresários da ASCOOP foram: “promoção”, entendida como o oferecimento de descontos ou doação por uma das partes em troca de divulgação de sua marca; “compra conjunta”, entendida como a situação na qual uma das partes compra insumo ou insumos para a outra fazer a produção; “prazo de pagamento”, utilizado no sentido de uma das partes aceitar ou oferecer um determinado prazo de pagamento; “formação”, aplicada como uma situação na qual uma das partes busca desenvolver um processo educativo da outra parte sobre economia solidária; “política pública”, compreendida como qualquer situação em que uma das partes tivesse se mobilizado ou simplesmente provocado ações do poder público para criar novos canais de comercialização; e “comercialização”, entendido como parcerias para a exposição para venda, particularmente da linha grife “100% Amazônia”, inclusive via consignação.

Dentre todos os tipos de parcerias entre os produtores, o mais freqüente foi “comercialização” com 50%, seguido por “formação”, com 46%, para em terceiro aparecer “políticas públicas”, com 43%, e, em quarto, “compra conjunta” com 26%. Na seqüência, vieram “promoção” com 17% e, finalmente, sem nenhuma freqüência, “prazo de pagamento”.


Figura 38: Tipos de parcerias entre os empreendedores da ASCOOP Fonte: Pesquisa de campo


O aspecto mais interessante destes dados sobre os tipos de parcerias entre os produtores esta o fato de que o prazo de pagamento não teve qualquer registro, depois de estar entre os dois mais freqüentes nas parcerias dos produtores com os seus fornecedores e com os seus clientes. Tal resultado pode ter acontecido em função de que estas parcerias teriam menos um papel de diretamente relacionadas a fechamento de negócios e mais uma abordagem de apoio aos negócios. Tal tendência ficou ainda mais forte pela alta freqüência das parcerias voltadas para desenvolver “políticas públicas”, que nada mais são do que ações voltadas para multiplicar canais de comercialização. O próprio tipo de parceria mais freqüente, a “comercialização”, também tem um sentido de apoio aos negócios, desde que busca ampliar os pontos de exposição dos produtos resultantes dos empreendedores da ASCOOP. Apenas a menor parte das parcerias entre produtores foi voltada diretamente para a realização de negócios, como a compra conjunta e a promoção. Aparentemente os produtores reconhecem uns aos outros mais como competidores e menos como parceiros, o que desestimularia parcerias diretamente voltadas para negócios. No entanto, se verdadeira esta afirmativa, valorizaria o nível de consciência coletiva das ações de parceria tomadas voltadas para o apoio aos negócios.

O forte senso de consciência coletiva nas ações de parceria entre os produtores parece ser confirmado pelo fato de que 62% (ver Figura ura abaixo) deles toma a iniciativa para a realização destas parcerias que não apresentam um objetivo financeiro imediato. Tal número é menor do que a iniciativa dos produtores para parcerias com os seus clientes, que foi de 86%, mas foi quase o dobro da freqüência das parcerias dos produtores com os seus fornecedores.


Figura 38: Iniciativa para parcerias com outros empreendedores da ASCOOP Fonte: Pesquisa de campo

Assim, pode-se concluir que são perfeitamente identificáveis muito visíveis e até mesmo variados elementos característicos da formação de uma cadeia vertical de empresas e instituições a partir dos empreendimentos têxteis e de acessórios da ASCOOP. Esta cadeia vertical teve como ponto de referência a “concentração de empresas semelhantes” da produção têxtil e de acessórios associados à referida cooperativa e se estendeu através de relações insumo-produção para trás e para frente, apresentando a forma abaixo expressa pelo fluxograma da cadeia vertical da produção têxtil e de acessórios de Belém:










Figura 40: Cadeia produtiva vertical de empresas e instituições têxtil e de acessórios, em Belém. Fonte: Pesquisa de campo, 2007.

Esta cadeia produtiva vertical à montante não é muito densa, pois não está instalada, em Belém, nenhuma indústria produtora de insumos industriais para a atividade têxtil e de acessórios. Praticamente, esta cadeia para trás resume-se aos negócios comerciais de abastecimento das indústrias de confecções e de acessórios. No entanto, para frente, esta cadeia é bem mais sofisticada e intensa, com uma enorme diversidade de atores clientes dos produtores, assim como sistemática agregação de valor localmente.

Desta maneira, já foi levantado não só o “ponto de partida”, mas também a “cadeia vertical de empresas e instituições” de um possível aglomerado do qual fariam parte os empreendimentos têxteis, de acessórios e moda associados à ASCOOP, em Belém. O próximo passo será a verificação da existência de uma cadeia horizontal de setores a partir da concentração de empreendimentos têxteis e de acessórios da ASCOOP.










7 A CADEIA HORIZONTAL DE SETORES A PARTIR DOS EMPREENDIMENTOS DE CONFECÇÃO E DE ACESSÓRIOS DA ASCOOP


No capítulo anterior foi demonstrado que são claramente identificáveis vários elementos característicos da formação de uma cadeia vertical de empresas e instituições à montante e à jusante dos empreendimentos participantes da ASCOOP. Neste capítulo, dando continuidade à investigação de uma possível inserção dos empreendimentos desta associação em um aglomerado, será verificada a existência de uma cadeia horizontal de setores a partir deste conjunto de negócios. As cadeias horizontais de setores são também chamadas de “cadeias horizontais de setores correlatos”, ao mesmo tempo em que os setores que formam as “cadeias horizontais de setores” são referidos como “setores correlatos”.

Uma cadeia horizontal de setores apresenta uma organização bastante diferenciada da estrutura da cadeia vertical de empresas e instituições. A identificação dos componentes desta última é feita, de acordo com Hirschman (1978), através da investigação das relações insumo-produto a partir de uma “dada linha de produto”, que permite levantar as unidades produtivas que operam como fornecedores da determinada “linha” e as unidades produtivas que operam como consumidores da mesma.

No entanto, as relações insumo-produto não têm absolutamente nenhum papel na identificação de uma cadeia horizontal de setores. Estes setores não são identificados por serem insumo ou por serem consumidores dos produtos do “ponto de partida” desta cadeia (no caso, os negócios de confecção e de acessórios da ASCOOP), mas, por apresentarem outros tipos de relações com este “ponto” que não a lógica input-output. Ademais, diferentemente da metodologia de Hirschman, o próprio elemento de referência da análise desta cadeia não é uma “dada linha de produto”, mas, setores. A cadeia horizontal de setores é estruturada através do setor que funciona como “ponto de partida” e “elos” (elementos parte de uma cadeia) com os quais apresenta relações específicas, que não são de insumo-produto.

Entre as relações que determinam se o setor “ponto de partida” estabelece algum tipo de “elo” com outros setores, materializando uma cadeia horizontal de setores, está aquela em que este “ponto” compartilha seus “distribuidores” ou clientes com qualquer outro setor. Se o setor “ponto de partida” fosse o de alimentos, poderia apresentar como “elo” qualquer setor que compartilhasse com ele os supermercados como sendo “distribuidor” dos seus produtos: o setor de bebidas, por exemplo.

Outra relação na qual o setor do “ponto de partida” apresentaria um “elo” com outro setor, formando uma cadeia horizontal de setores, é aquela em que os produtos e serviços deste “ponto” são complementares aos produtos e serviços de qualquer outro setor. Se o setor “ponto de partida” fosse o de alimentos, poderia apresentar como “elo”, neste caso, qualquer setor que oferecesse produtos e serviços complementares aos seus próprios produtos e serviços, como, por exemplo, o caso do setor de artefatos de cozinha.

 Mais uma relação que indica que o setor que funciona como “ponto de partida” apresenta um “elo” com outro setor, materializando uma cadeia horizontal de setores, é aquela em que os insumos e tecnologias deste “ponto” são semelhantes aos insumos e tecnologias de qualquer outro setor. De novo, tendo o setor de alimentos como “ponto de partida”, este teria como “elo” qualquer setor que consumisse insumos e tecnologias semelhantes ao que ele consome, como, por exemplo, o setor de ração animal.

Outra relação indicando que o setor que atua como “ponto de partida” tem um “elo” como um outro setor, concretizando uma cadeia horizontal de setores, é aquela em que os fornecedores deste “ponto” apresentam qualquer outra afinidade com qualquer outro setor. Se considerado o setor de alimentos como o “ponto de partida”, este teria como “elo” qualquer setor que apresentasse algum tipo de relação comum com seus fornecedores.

Finalmente, outra relação apontando que o setor que funciona como “ponto de partida” possui um “elo” com outro setor, materializando uma cadeia horizontal de setores, é aquela na qual este “ponto” e outro setor qualquer compartilham “mídias de marketing”, o que os leva a operar com “imagens semelhantes em segmentos de clientes similares” . Se considerado o setor de alimentos como “ponto de partida”, este teria como “elo” qualquer outro setor que, com ele, desenvolvesse um trabalho de mídia comum, como, por exemplo, a hotelaria: neste caso, um programa de marketing poderia ser desenvolvendo em conjunto pelos setores de alimentos e da hotelaria para divulgar, por exemplo, um tema como “férias nas Serras Gaúchas”, beneficiando estes dois setores, ao mesmo tempo.

A importância maior da cadeia horizontal de setores é que eles apresentam um grande potencial de cooperação entre si, já que seus papéis no jogo de mercado são, em geral, de complementaridade. Tal característica significa que quanto mais estes setores horizontais cooperarem entre si, melhor o ambiente de negócios em geral para a economia como um todo. Esta característica seria exatamente o contrário da situação de unidades produtivas da mesma linha de produção, que, para Porter (1999), melhor contribuem para a qualidade e competitividade do ambiente de negócios quanto mais competirem entre si.

A cooperação entre empresas correlatas (participantes de uma cadeia horizontal de setores) e a competição entre empresas semelhantes, em um dado ambiente de negócios, maximizaria as interações positivas voltadas para a promoção da produtividade e da inovação neste ambiente, onde também seriam criadas as melhores condições possíveis para a formação de novas empresas. No entanto, mesmo empresas de uma mesma linha de produção poderiam cooperar, desde que tal parceria não diminuísse a intensidade da competição entre as mesmas, o que poderia prejudicar a oferta de produtos de qualidade e melhor preço, além de inibir a inovação e formação de novos empreendimentos do mesmo tipo. 

A idéia da “benignidade” da cooperação e de sua simultaneidade com a competição, no mesmo ambiente de negócios, forma um paradigma radicalmente diverso daquele estabelecido pela teoria econômica ortodoxa. De acordo com a teoria econômica tradicional, o ambiente de negócios deve propiciar as condições ideais para que as empresas compitam e somente compitam entre si. No entanto, Porter (1999) tem identificado que existem outros tipos de relações, voltadas para a cooperação, que, em vez de criar cartéis, os quais dificultam a eficiência, a produtividade e a inovação, podem multiplicar a competitividade das empresas. O autor em questão diz que esta simultaneidade da competição e da cooperação seria possível porque tais processos contraditórios não seriam dominantes no mesmo tipo de compartimento de um mesmo ambiente de negócios, mas, sim, em diferentes destes compartimentos: a competição como a relação mais socialmente benigna dentro de um conjunto de empresas com a mesma linha de produto, enquanto que a cooperação seria mais benigna socialmente se dominante dentro de uma cadeia horizontal de setores, ou seja, quando ocorrendo entre empresas correlatas.

Esta benignidade social da cooperação entre as firmas dos setores da cadeia horizontal de setores, segundo Porter, dependeria, acima de tudo, de certo nível de relacionamentos pessoais, da comunicação face a face e da interação entre redes de indivíduos e instituições. Neste sentido, o referido autor sugere que a soma das partes de um conjunto interconectado de firmas e instituições pode ser menor do que o valor econômico criado pelo sistema deste conjunto como um todo (1999; 213).

Assim, para que este processo de cooperação entre setores de uma cadeia horizontal pudesse maximizar os ganhos econômicos e sociais para a sociedade, seria necessário uma “cola social” (social glue) que conectaria e aproximaria as empresas e instituições, contribuindo para um processo de criação de valor, através dos relacionamentos pessoais, das comunicações face a face e das redes. Desta maneira, a simples presença de firmas, clientes e fornecedores, apesar de criar um potencial para a geração de valor, não seria uma garantia de que este processo de agregação de valor viesse a se materializar, o que só poderia ser garantido com a presença dos elementos da “cola social”. Tal afirmativa concederia à estrutura social envolvida nas relações entre empresas e instituições correlatas uma importância central na discussão dos aglomerados (PORTER, 1999).

Ao examinar a significação do papel de “redes de relacionamento” para empresas e comunidades de sucesso, Porter afirmou que um crescente número de autores concluiu que as atividades econômicas estariam sempre sustentadas sobre relações sociais em andamento. Para ele, o acesso à informação e aos recursos é largamente facilitado pelo relacionamento social entre indivíduos, de acordo com investigações sobre a estrutura de redes tem revelado. A teoria do “cluster” (aglomerado) de Porter considera que “valor econômico” é gerado pelo “senso de comunidade” e pelo “engajamento cívico”: o crescimento da produtividade, a promoção das inovações e a criação de novos negócios estariam mais presentes em aglomerados que tem suas interações “azeitadas” pelo “benefício da confiança” e da “permeabilidade organizacional”, fortalecidas pelas repetidas interações e pelo “senso de dependência mútua” dentro de uma região ou cidade. O aglomerado seria um tipo de organização que se caracterizaria pela numerosa sobreposição de “conexões fluidas entre indivíduos, firmas e instituições”, que se moveriam além das “redes hierárquicas”.

A competitividade dos negócios e a prosperidade econômica, assim como suas expansões, seriam conectadas de forma muito próxima com as teorias de redes, capital social e de engajamento cívico, através da teoria de “cluster” (aglomerado). Ademais, esta teoria assumiria o papel de discutir os tipos de benefícios de cada um dos tipos de redes, como no caso de relacionamentos e confianças que resultam em cartéis, que, em princípio, diminuem o valor econômico do ambiente de negócios. Também discute como as interações ocorridas em função de relacionamentos formais e hierárquicos entre empresas ou entre instituições e companhias seriam menos eficientes e flexíveis do que as estruturas de rede construídas com base na proximidade e nos links locais informais. Esta discussão permitiria, até mesmo, atravessar questões dialéticas do tipo se os fortes relacionamentos surgiriam em função da existência de um aglomerado ou se este tipo de organização teria maior probabilidade de desenvolvimento a partir de redes pré-existentes (PORTER, 1999; 127).

Desta maneira, para identificar se o conjunto de empreendimentos de confecções e de acessórios da ASCOOP formaria cadeias horizontais de setores, através da formação de elos com quaisquer outros setores, foi necessário verificar com quais setores esta associação de empreendimentos apresentava, pelo menos, um dos seguintes tipos de relações: clientes comuns; produtos e serviços complementares; insumos e tecnologias semelhantes; publicidade e propaganda em conjunto. Ao serem indagados com quais setores apresentariam tais tipos de relações, os microempresários desta organização consideraram que a atividade que se enquadrava com mais intensidade dentro destas características foi o artesanato, que obteve 67% das repostas (ver Figura ura abaixo). Tal resultado sugeriu que o artesanato, em Belém, seria um elo deste conjunto de pequenas empresas da ASCOOP e que, juntos, formariam uma cadeia horizontal de setores.

Muitos dos produtos do setor de artesanato, em Belém, são bens complementares aos produtos da produção têxtil e de acessórios, com os quais seriam utilizados complementarmente, como, por exemplo, no caso do uso de um broche combinando com uma blusa. No caso, o consumidor não compraria apenas um dos produtos, mas os dois, ao mesmo tempo, pois seria melhor usá-los combinadamente, do que apenas um deles (como no caso do pão e da manteiga). Outra explicação para que o artesanato tenha sido indicado, com alta freqüência, como um elo dos empreendimentos da ASCOOP, formando com estes uma cadeia horizontal de setores, é que estes dois setores possuem fornecedores e tecnologias semelhantes. A terceira razão para que o artesanato e a produção têxtil e de acessórios formem uma cadeia horizontal de setores é que apresentam “distribuidores”, ou clientes, comuns, tanto no caso do consumidor final, como no caso do lojista/comerciante. Esta soma de fortes sinergias entre estes setores e quase nenhuma força de oposição diminui as barreiras para o estabelecimento de parcerias e eleva o nível de possibilidades de cooperação, que seria o combustível maior para o desenvolvimento e para a efetividade de um aglomerado.


Figura 41: Setores componentes da cadeia horizontal de setores. Fonte: Pesquisa de campo, 2007.

Com 54%, o setor “eventos de moda” foi o que apresentou a segunda maior freqüência de indicações que buscavam identificar um elo, a partir dos empreendimentos da ASCOOP, que tivesse relações do tipo que permitiriam materializar uma cadeia horizontal de setores. O setor “eventos de moda” foi aplicado nesta análise como sendo desfiles de moda, reuniões e debates sobre moda e festas para lançamento de novas coleções, entre outros eventos. O setor “eventos de moda” comporia com os empreendimentos da ASCOOP uma cadeia horizontal de setores porque, em primeiro lugar, são setores complementares, visto que o setor “eventos de moda” precisou incluir coleções de moda dos produtores da ASCOOP, como o 100%Amazônia, para se firmar como eventos regionais, enquanto estes empreendedores de confecções e acessórios dependeram da boa divulgação nos eventos para vender melhor. Ademais, os eventos de moda influenciaram os designs das roupas produzidas pelos empresários da ASCOOP, visto que cortes de roupas, cores de vestuário e tipo de acessórios que acompanham foram influenciados pelos “eventos de moda”, ao mesmo tempo em que a moda popular teve reflexos nas tendências da alta moda paraense. Ademais, existiram casos nos quais estes dois setores fizeram divulgação conjunta de seus produtos para públicos similares, como ocorreu por ocasião de eventos como feiras, desfiles e shows.

Com 17%, o setor chamado de “salão de beleza” foi o que apresentou a terceira maior freqüência de indicações que buscavam identificar um elo, a partir dos empreendimentos da ASCOOP, que tivesse relações do tipo que permitiriam materializar uma cadeia horizontal de setores. O setor chamado de “salão de beleza” foi utilizado no sentido de representar locais onde homens, mulheres e, ultimamente, até crianças: lavam, cortam, pintam e penteiam os cabelos; fazem unhas; limpam e pintam o rosto e até mesmo levam massagens. Este setor seria um elo do setor de confecções e de acessórios porque, em primeiro lugar, são produtos fortemente complementares. Quando uma consumidora ou um consumidor compra uma roupa para sair, também vai, quase que necessariamente, ao salão de beleza para fazer os cabelos e também as unhas. Outra razão para que estes dois setores formem uma cadeia horizontal de setores é que possuem uma grande quantidade de clientes comuns. Muitos daqueles que compram roupas e acessórios dos empreendedores da ASCOOP são aqueles que adquirem serviços de salões de belezas, no mesmo bairro. Ademais, algumas vezes, os salões de beleza e os produtores de confecções utilizaram mídia comum para promover seus produtos em segmentos similares.

Com 13%, o setor chamado de “alimentação” foi o que apresentou a quarta maior freqüência de indicações que buscavam identificar um elo, a partir dos empreendimentos da ASCOOP, que tivesse relações do tipo que permitiriam materializar uma cadeia horizontal de setores. O setor chamado de “alimentação” foi entendido como a produção de refeições comerciais por famílias e por bares e restaurantes nos locais próximos da produção têxtil. Apesar de apresentar o quarto maior nível de indicações, este setor dificilmente poderia ser enquadrado como um elo do setor de confecções e de acessórios para formar uma cadeia horizontal de setores. Estes dois setores não possuem distribuidores comuns, não são complementares (no sentido de que quem usa roupa “X” teria que, provavelmente, comer “Y”), não possuem fornecedores e tecnologia semelhantes, assim como não tiveram ações de mídia comum. A freqüência de indicações recebida pelo setor de “alimentação” ocorreu, provavelmente, porque os produtores da ASCOOP, quando realizam grandes jornadas voltadas para atender suas encomendas, em geral, adquirem refeições comerciais de bares, pequenos restaurantes e até de famílias dos bairros em que moram. Esta relação, no entanto, ficaria muito melhor caracterizada como sendo do tipo insumo-produto, já que o alimento, neste caso, se coloca mais como um requerimento do galpão da ASCOOP, portanto, necessário para a produção de confecções e de acessórios destes empreendedores; a refeição comercial não pareceu ser parte do consumo das famílias, pois era consumido pelos empreendedores enquanto trabalhavam no galpão da ASCOOP.

Por estabelecerem relações do tipo que permitiriam materializar uma cadeia horizontal de setores, os setores “shows de música”, “escola” e “manifestações culturais”, constaram como outros possíveis elos dos empreendimentos da ASCOOP na lista de sugestões das respostas sugeridas pelo questionário da pesquisa, mas não receberam nenhuma indicação. No entanto, todos eles, claramente, são setores correlatos, por apresentam relações com o setor de confecções e de acessórios do tipo que levam a uma cadeia horizontal de setores. Tal afirmação pode ser sustentada tanto do ponto de vista teórico como do ponto de vista de outras informações obtidas por observações de campo.

Shows de música foram entendidos como festas nos bairros, apresentações de sistemas de sons, particularmente de música “brega”, e apresentações de cantores populares. O setor de shows de música apresenta produtos complementares ao consumo do setor de confecções e de acessórios, pois, ao irem para os shows de música, os moradores dos bairros populares se vestem da melhor maneira e da maneira mais adequada possível. Na prática, os próprios artistas influenciam em modelos solicitados pelos consumidores.

Por sua vez, o setor chamado de escolas foi entendido como os estabelecimentos de ensino público do 1º e do 2º graus. Na prática, este setor e o setor de confecções e de acessórios são complementares, pois as crianças e os jovens não podem freqüentar as aulas nestas escolas sem estar vestindo o devido uniforme, o que gera, sazonalmente, uma grande demanda de roupas específicas para esta atividade. Ademais, as escolas não demandam apenas os uniformes de sala de aula, requerendo também roupas para educação física, roupas para festas comemoradas nas escolas, como as festas juninas, e roupas para jogos e para participação em bandas musicais.

Já o setor de manifestações culturais foi entendido como as festas populares, como o carnaval em geral (principalmente os desfiles de escola de samba e blocos), as festas juninas (particularmente as danças de quadrilhas e os bois bumbas), as procissões do Círio (que anualmente requer que pessoas e suas famílias se vistam “melhor” para todas as celebrações), as demais festividades religiosas e as festas no interior – motivando o deslocamento de pessoas da cidade. Portanto, o setor de manifestações culturais é complementar ao setor de confecções e de acessórios, pois a participação nestas manifestações enseja, necessariamente o consumo de produtos de confecções e de acessórios. As escolas de samba e blocos carnavalescos ensejam grandes demandas sazonais, da mesma forma que as festas juninas e o próprio Círio. Por outro lado, algumas vezes, atividades do setor de manifestações culturais utilizam mídia comum ao setor de confecções para um público similar, como quando se fazem vendas casadas da participação em escolas de samba e da confecção do vestuário carnavalesco.

Mas existem outros setores que não foram colocados na lista de opções do questionário da pesquisa, mas que, por muitas evidencias, são elos compondo a cadeia horizontal de setores com o setor de confecções e de acessórios. Os principais destes setores são: “confecção artesanal e concerto de calçados”, “cadernos e notícias de moda” (jornalismo), “alta costura” e “lavagem de roupa”.

Entende-se o setor de confecção artesanal e concerto de calçados como a elaboração manual de sapatos e sandálias, masculinos e femininos, assim como o reparo destes objetos. Este setor apresenta múltiplas e intensas relações com o setor de confecções e utensílios, de quase todos os tipos que materializam uma cadeia horizontal de setores. Em primeiro lugar, a confecção e concerto de calçados é um setor complementar ao setor de confecções e acessórios porque ao se usar roupas e seus acessórios sempre se usa calçados, sejam novos, sejam usados, sendo que estes últimos requerem, muitas vezes, devidos e adequados reparos. Em segundo lugar, o setor de confecção e concerto de calçados compartilha com o setor de confecção e acessórios vários canais de distribuição, como, por exemplo, no caso das barracas de feiras, pequenas lojas e as sacoleiras, que vendem de porta em porta. Em terceiro lugar, estes dois setores utilizam alguns insumos e tecnologias semelhantes, como no caso de peças de couro, instrumentos de costura e linhas de costura, particularmente quando se trata da elaboração de acessórios como bolsas e cintos. Em quarto lugar, estes dois setores, por consumirem alguns insumos semelhantes, também compartilham fornecedores.

Já o setor de jornalismo, mais especificamente cadernos e notícias de moda, é entendido como os cadernos de jornais de circulação em Belém que, crescentemente, noticiam eventos e fatos sobre a confecção de peças de vestuário na cidade e, em especial, eventos de moda, como ocorreu recentemente com o “Belém Fashion Week”. Este setor é complementar ao setor de confecção e acessórios na medida em que este último vende mais quando seus produtos e sua qualidade são apresentados pelo jornalismo da moda local, enquanto este precisa do setor de confecções e acessórios para fabricar suas notícias.

O setor de “alta costura” é, “em primeiro lugar, um savoir-faire (um saber fazer) ligado a um artesanato que perdura há cerca de cento e cinqüenta anos: a origem da alta costura remonta a Charles Frederic Worth, que criou, em 1858, no nº 7 da rue de la Paix, em Paris, a primeira verdadeira maison de alta costura, criando modelos originais para clientes particulares. A alta costura está ligada ao trabalho artesanal, tanto dos ateliês quanto dos fabricantes de adereços (plumas, bordados, etc...) que, a cada estação, criam os enfeites que vão fazer a exceção. ... O termo alta costura constitui uma denominação juridicamente protegida e ‘da qual só podem se prevalecer as empresas que constem da lista estabelecida todos os anos por uma comissão com sede no Ministério da Indústria’, observa a Câmara Sindical da Alta Costura”, na França (AMBRAFRANCE, 2007).

Em Belém a “alta costura” apresenta uma dinâmica cada vez maior, reunindo ateliers, costureiras e costureiros que fazem peças exclusivas ou quase exclusivas e que são lançadas anualmente em festivais e desfiles de moda. A “alta costura” é um elo horizontal para o setor das confecções e acessórios da ASCOOP porque, em primeiro lugar, apresenta alguns fornecedores comuns e, em segundo lugar, porque, algumas vezes, a “alta costura” vai buscar inspiração na moda popular, enquanto que a moda popular tem, outras vezes, a “alta costura” como indicativo para cores, cortes e tecidos de suas peças.

Exatamente no sentido de buscar se aproximar da “alta costura”, a ASCOOP relançou a grife 100%Amazônia, que esta se tornando uma “marca” comercial importante para a nova organização (ver Figura ura abaixo). Esta grife foi desenvolvida no sentido de permitir ganhos de escala em trabalhos de propaganda dos produtos da ASCOOP, como também para incentivar a qualidade e a diferenciação, no caso, usando nos produtos da grife apenas materiais primas oriundas da Amazônia.


Figura 42. Logo da grife criada pela ASCOOP. Fonte: ASCOOP

A grife 100% Amazônia foi um dos destaques de um dos mais importantes eventos de moda, no Pará, o Amazônia Fashion Week, realizado em outubro de 2007, em Belém. Este evento serviu para que vários produtores mostrassem seus trabalhos para um grande público, atraindo a atenção de muitos dos presentes, inclusive pela participação em desfiles de moda.


Figura 43 : Roupas da grife 100% Amazônia no Amazônia Fashion Week, 2007

O setor lavagem de roupa (familiar e através de lavanderia) é entendido como a atividade de lavagem de roupa feita por famílias (mulheres) em muitos bairros de Belém e, crescentemente, a lavagem de roupa por lavanderias empresariais, que utilizam máquinas específicas, e que começam a se localizar nos bairros mais populares. Este setor também é complementar ao setor de confecção, pois quanto mais facilidades as famílias têm para lavagem de suas roupas, mais fácil fica consumir roupas de forma mais diversificada, e vice-versa. Teria ficado muito difícil consumir mais peças de vestuário se não estivesse ocorrendo a expansão dos serviços de lavagem de roupa.

De todas as vezes que o setor de confecção e acessórios formou cadeias horizontais de setores, em apenas 48% das vezes os produtores da ASCOOP perceberam que elos haviam sido estabelecidos (ver Figura ura abaixo).

Figura 44: Percentual dos produtores da ASCOOP que reconheceram a existência de elos entre os setores de cadeias horizontais de setores. Fonte. Pesquisa de campo, 2007.


Esta razoável falta de reconhecimento das relações entre os setores de uma cadeia horizontal de setores de certa forma explica porque vários importantes elos dos produtores da ASCOOP com outros setores (relação que materializava este tipo de cadeia) não foram indicados nas respostas dos questionários sobre o assunto. Como já destacado, os empreendedores da ASCOOP não reconheceu relações de seu setor com setores como escola, manifestações culturais, shows de música e mesmo confecção e concerto de calçados eram correlatos ao setor de confecções e acessórios.

Ademais, segundo a pesquisa de campo, quando os produtores da ASCOOP reconheceram a existência de relações de seu setor com outros setores, formando cadeias horizontais de setores, em 42% destas vezes entendeu serem estas relações obrigatórias. Talvez seja esta a razão pela qual apenas 26% destes empreendedores consideraram que tomaram a iniciativa para materializar estas relações horizontais (ver Figura ura abaixo).

Figura 45: Percentual das vezes que empreendedor da ASCOOP entendeu ter tomado iniciativa para estabelecer elos com os setores da cadeia horizontal de setores. Fonte. Pesquisa de campo, 2007.


Na verdade, da mesma forma que uma unidade produtiva pode escolher um determinado fornecedor, similarmente, um setor como um todo pode escolher se aproximar mais de outro setor para se beneficiar das oportunidades de cooperação positiva, estruturando uma cadeia horizontal de setores, como expresso na figura logo abaixo, onde aparece integrada com a cadeia vertical explicitada no capítulo anterior. Mesmo se reconhecendo as limitações trazidas pela tradição do cooperativismo de se auto-definir como a busca de parcerias com pares de um mesmo setor, já se pode desenhar uma intensa e extensa cadeia horizontal de setores, organizada a partir dos empreendimentos de confecções e acessórios da ASCOOP. Na relação horizontal os setores não estão competindo diretamente no mercado de bens e serviços, ao contrário do que acontece entre agentes produtivos de um mesmo setor, o que permite que sejam maximizadas as oportunidades de cooperação.












Figura 46. Cadeia vertical das empresas têxteis e de acessórios da ASCOOP e cadeia horizontal de setores articulada a estas empresas. Fonte. Pesquisa de campo, 2007. Observação. Números explicam razão de serem correlatos: 1. clientes comuns; 2. produtos complementares; 3. fornecedores e tecnologias semelhantes; 4. outras relações com fornecedores; 5. publicidade e propaganda em comum.


Como pode ser observado, logo acima, diferentemente da cadeia produtiva vertical de empresas, a cadeia horizontal de setores não se estrutura a partir de relações insumo-produção, mas de relações de parcerias em que se evidenciam situações de “ganha-ganha” para ambos os lados, fórmula que é o “sonho dourado” de qualquer arranjo produtivo solidário e popular, mas que é muito rara ser revelada em um ambiente de negócios comum.

O fluxograma analisado evidencia a existência de uma diversificada e relativamente intensa cadeia horizontal de setores, o que enseja repetidas situações de cooperação positiva entre seus participantes, que são, além do setor de confecções e acessórios, os seguintes: “shows de música”, “escola”, “cadernos e notícias de moda”, “salão de beleza”, “confecção artesanal e concerto de calçados”, “lavagem de roupa”, “manifestações culturais”, “alta costura” e “eventos de moda”. Tal cadeia horizontal também pode ser chamada de “cadeia horizontal de setores correlatos” e os setores que a formam referidos como “setores correlatos”.

Assim, neste capítulo, foram claramente identificados elementos característicos da formação de uma cadeia horizontal de setores, representando um enorme avanço na identificação de indícios da possível inserção dos empreendimentos de confecção e acessórios da ASCOOP em um emergente aglomerado da moda, em Belém.





8 INSTITUIÇÕES DE APOIO AOS EMPREENDIMENTOS

No capítulo anterior foi demonstrado que eram claramente identificáveis vários elementos característicos da formação de uma cadeia horizontal de setores, expressando relações preponderantemente de cooperação entre o setor confecção/acessórios e outros setores. A revelação desta cadeia representou um enorme avanço na identificação de indícios da existência de um emergente aglomerado da moda, em Belém, onde os empreendimentos da ASCOOP estariam inseridos.

As identificações desta cadeia horizontal de setores, envolvendo o setor de confecções e acessórios e seus elos, que foi feita no segmento anterior, e da cadeia vertical de empresas, feita no capítulo seis, determinaram as empresas e os setores que comporiam a complexa estrutura econômica sob investigação nesta pesquisa. Já no presente capítulo são feitas análises para identificar e isolar instituições que apóiam, assistem e atendem não só as empresas da cadeia produtiva vertical erigida a partir dos empreendimentos de confecções e de acessórios da ASCOOP, como também aos setores da cadeia horizontal de setores, formada por relações entre estes empreendimentos da ASCOOP e os setores que lhe são correlatos. Estas instituições também apoiariam, assistiriam e atenderiam os demais empreendimentos em torno destas cadeias produtivas. Os tipos de serviços e bens que seriam oferecidos pelas instituições às empresas e setores seriam: qualificações especializadas, tecnologias, informações, capital e infra-estrutura.

Entendeu-se por qualificações especializadas todos os tipos de serviços prestados com o objetivo de oferecer, formar, e aperfeiçoar recursos humanos de forma a torná-los mais adequados e eficientes para o funcionamento de uma determinada indústria (esta, no sentido de negócio). Alguns dos tipos de instituições que prestariam este tipo de apoio às empresas seriam universidades, escolas técnicas, empresas de consultoria, empresas que terceirizam recursos humanos, SENAI e SESC.

Já tecnologia foi entendida como todos os tipos de serviços e bens oferecidos com o objetivo de alterar, aperfeiçoar e criar processos produtivos e formas organizacionais corporativas. Os tipos de instituição que prestariam este apoio às empresas seriam centros de pesquisa, universidades, escolas superiores de design, ONGs, empresas de pesquisa e desenvolvimento, departamentos de pesquisa e desenvolvimento, empresas de software e empresas de hardware.

Por sua vez, compreenderam-se por informações todos os tipos de serviços oferecidos com o objetivo de transferir estatísticas, indicadores, cenários, conjunturas, estruturas, legislação, jurisprudência, status de crédito, tendências, relatórios e orientações. As modalidades de instituição que prestariam este tipo de apoio às empresas seriam serviços de extensão das universidades e dos governos, centros de pesquisas, revistas especializadas, revistas de moda, banco de dados, sites de busca, serviços de proteção ao crédito, serviços de assistência e promoção do empreendedorismo, cadernos e revistas de moda, programas de TV falando de ou lançando moda, filmes falando de ou lançando moda, escolas de 2º grau, entre outros.

Entendeu-se por capital como todos os tipos de serviços voltados para o suprimento de recursos financeiros, máquinas e equipamentos, necessários à abertura, fortalecimento ou recuperação de empreendimentos. Os tipos de instituição que prestariam esta modalidade de apoio às empresas seriam bancos comerciais, bancos de crédito popular, bancos de fomento, bancos de desenvolvimento, agências de desenvolvimento, organizações de micro-crédito, cooperativas de crédito, programas de extensão universitária, programas de agências de promoção sócio-econômica, entre outros.

Finalmente, compreendeu-se como infra-estrutura todos os tipos de serviços voltados para a oferta pública de estradas, rodovias, pontes, aeroportos, portos, serviços básicos de saúde, serviços de educação básica, saneamento, água, esgoto, combate à incêndio, polícia, controle de trânsito, limpeza urbana, segurança nacional, controle e proteção ambiental e proteção ao consumidor. Os tipos de instituição que prestariam esta modalidade de apoio às empresas seriam governos municipais, governos estaduais, governo federal, agências de desenvolvimento, empresas públicas municipais, empresas públicas estaduais, empresas públicas federais, entre outros.

As informações apropriadas para servir de base da determinação de quais instituições estavam entre aquelas que mais apoiavam as empresas foram obtidas a partir de pergunta de um questionário respondido pelos produtores da ASCOOP. Nesta pergunta, estes empreendedores foram solicitados a indicar as instituições que, na opinião deles, mais ofereciam “qualificações especializadas”, “tecnologias”, “informações”, “capital” e “infra-estrutura”. As respostas oferecidas por aqueles empresários foram, de certa maneira, intrigantes.

A instituição que teve o maior número de indicações de que ofereceria apoio, assistência e atendimento às empresas e setores foi a “universidade”, no sentido de escolas de nível superior, que poderiam ser classificadas tanto no grupo de instituições provedoras de “informações”, como no grupo de instituições supridoras de “tecnologia”. A freqüência alcançada pela instituição mais reconhecida foi de 74%, ou seja, quase 8 indicações para cada 10 respostas, o que pode ser considerada como muito alta (ver Figura ura abaixo). O relativo nível de surpresa deste resultado adveio do fato de que, segundo os padrões usuais, ocuparia o primeiro lugar da lista de preferência dos empresários as instituições voltadas para prover apoio financeiro, principalmente pelo fato dos empreendedores em foco serem muito pequenos e necessitados, de quase tudo, mas, principalmente de capital.


   Figura 47: Instituições percebidas como sendo de apoio às empresas da ASCOOP
   Fonte. Pesquisa de campo, 2007.


Aliás, o destaque dado às instituições do tipo “informações” nas indicações dos produtores não se restringiu ao primeiro lugar. A segunda maior freqüência das escolhas dos empresários da ASCOOP, com 63%, foi referente às “ongs”, que também podem ser consideradas como instituições da modalidade de “informações”, desde que se dedicaram, particularmente, a fazer um trabalho social, educativo e ambiental, buscando elevar o nível de educação, de conteúdo e de consciência dos produtores, de seus clientes e fornecedores.

Mesmo a terceira maior freqüência de indicações dos produtores da ASCOOP não foi referente a uma instituição voltada para dar assistência de “capital” aos empreendedores populares. Esta colocação foi alcançada pelo “governo federal”, com 61% das indicações, que foi um nível de reconhecimento ainda muito alto. Esta instituição foi reconhecida principalmente pelo seu trabalho com um programa de transferência de renda, a “bolsa família”, e outro de combate à miséria, o “fome zero”. Apesar de, pela suas naturezas, não proverem recursos para investimentos pelos produtores, mas sim recursos para retirar as crianças do trabalho infantil, ajudar as famílias a não necessitar que seus filhos mendiguem nas ruas, permitindo que as famílias as coloquem nas escolas e para evitar que brasileiros e brasileiras sofram o constrangimento de não ter nenhum alimento em suas panelas, estes programas foram reconhecidos como de apoio aos produtores, o que pode ser compreensível, se for feita uma abordagem indireta dos seus efeitos.

Foi apenas em quarto lugar que apareceu, pela primeira vez, um nível de freqüência de indicações relativo a uma instituição provedora de “capital”, no caso, o Banco do Brasil, que foi lembrado por menos de 6 produtores a cada 10 que se manifestaram, com um total de 57%. Aliás, dentre as 8 instituições que foram destacadas pelos empreendedores da ASCOOP, apenas duas eram instituições voltadas para assistência com “capital”, sendo uma o próprio BB e, a outra, o Banco do Povo, este em sétimo lugar, com freqüência bem menor, de 39%. Outras instituições de crédito popular, como o Banco do Cidadão, ou bancos de desenvolvimento, como o Banco da Amazônia, não receberam qualquer indicação de que teriam sido de qualquer utilidade para os referidos empresários. Este baixo nível dedicado às instituições de crédito nas prioridades dos empreendedores da ASCOOP pode refletir dois problemas diametralmente opostos, que infelizmente não foram averiguados pela pesquisa, visto que a análise destes dados foi feita já na fase final da pesquisa.

Os resultados relativamente baixos obtidos pelas instituições que ofertam crédito no julgamento feito pelos produtores com respeito às instituições que lhes apóiam, pode ter ocorrido em função de duas razões bastante opostas. Por um lado, pode ter ocorrido que os bancos e demais empreendimentos do ramo não estavam respondendo às necessidades de capital dos referidos empresários. Neste caso, o sistema monetário nacional poderia não estar sendo capaz de se adaptar à realidade dos empreendimentos e/ou trazer o custo do dinheiro para patamares que pudessem dar a confiança a estes produtores de que valeria a pena tomar recursos, sem comprometer a sua capacidade de pagamento e mesmo de funcionamento de suas operações. Mas, ao contrário, poderia ter ocorrido simplesmente uma menor lembrança das instituições de crédito pelos produtores da ASCOOP em função de estarem sendo suficientemente e adequadamente supridos por capital.

O quinto lugar das freqüências das escolhas dos empresários da ASCOOP, com 54%, foi referente ao Fórum Brasileiro da Economia Solidária (ECOSOL), que também pode ser considerado como uma instituição da modalidade de “informações”, desde que apoiou os referidos produtores com um trabalho educativo e ambiental, buscando elevar o nível de educação e de consciência dos produtores e dos clientes e fornecedores daqueles. Os eixos de ação deste Fórum, como destacado em sua plataforma, são sete: 1) Organização Social do Movimento de Economia Solidária; 2) Redes de Produção, Comercialização e Consumo; 3) Finanças Solidárias; 4) Marco Legal; 5) Educação; 6) Comunicação; 7) Democratização do Conhecimento e Tecnologia. Mesmo tendo alcançado apenas a quinta colocação das indicações, as opiniões qualitativas dos produtores sobre o trabalho deste fórum foram de muito entusiasmo. O Fórum representa a estrutura nacional do movimento de economia solidária no Brasil. Os empreendimentos solidários caracterizam-se pelo exercício da autogestão na sua organização interna e o fato de serem atividades econômicas supra-familiares. Pode se manifestar, como, por exemplo, através de: cooperativas, empresas recuperadas de autogestão, agricultores familiares, bancos comunitários, grupos de trocas solidárias, cadeias produtivas solidárias, lojas de comércio justo, agências de turismo solidário, entre outras.

Apesar de não ter tido um resultado ruim, comparado, por exemplo, com o Banco da Amazônia, o maior banco de desenvolvimento da região, que não recebeu qualquer indicação, o sétimo lugar do SEBRAE também não foi uma excelente situação, particularmente pela natureza desta organização. O SEBRAE é uma entidade privada e de interesse público, que apóia a instalação e ampliação dos pequenos negócios e pretende mudar a vida de milhões de brasileiros através do empreendedorismo. O “desenvolvimento do Brasil através da geração de emprego e renda pela via do empreendedorismo” seria a sua missão. Esta organização tem tido o papel de realizar a “extensão urbana” da promoção de pequenos e médios negócios, mas, surpreendentemente, não foi das mais lembradas pelos empreendedores da ASCOOP entre aquelas instituições que eles consideravam como apoiando o desenvolvimento dos seus negócios, apesar de todos os membros desta associação se adequar perfeitamente ao perfil de “cliente típico” do Sebrae.

Em oitavo lugar entre as freqüências das escolhas dos empresários da ASCOOP, com 13%, foi apontado o Sistema de Seguridade Social do Governo Federal. Outras instituições estavam na lista para as indicações dos produtores da ASCOOP, mas nunca foram indicadas, como o Banco da Amazônia, a Igreja, a CEF, o Banco do Cidadão, a Prefeitura Municipal de Belém e “Grandes Empresas”. O fato de não terem sido apontadas certamente reflete que, comparativamente às instituições lembradas, estavam tendo uma atuação de menor repercussão ou utilidade para os produtores, ou, pelo menos, a utilidade de suas ações não estavam sendo percebidas pelos produtores. Mas, isto não quer dizer que não estivessem fazendo absolutamente nada, ou que não estivessem tendo nenhuma influência sobre o desenvolvimento da cadeia vertical de empresas e da cadeia horizontal de setores e dos demais agentes atuando em torno destas formações. A todas estas instituições ainda devem ser adicionadas outras, que, nas observações de campo, se evidenciaram como apoiadoras, mesmo que algumas vezes potenciais, das empresas das formações estudadas, entre as quais se destacaram as seguintes: Cartão VISA, DIEESE, IBGE, BNDES e ADA.

Então, revela-se neste capítulo que inúmeras instituições, que oferecem apoio às empresas e setores, estão integradas em um conjunto no qual se destaca a cadeia vertical de empresas (a partir da do conjunto de empresas da ASCOOP) e a cadeia horizontal de setores (a partir também destes empreendimentos da ASCOOP), acrescentando novas evidências de um emergente aglomerado da moda, em Belém, no qual estaria inserida a produção de confecções e de acessórios da ASCOOP, como pode ser visualizado no fluxograma a seguir.










Figura 48: Cadeia vertical das empresas têxteis e de acessórios da ASCOOP e cadeia horizontal de setores articulada a estas empresas e instituições de apoio a estas formações. Fonte. Pesquisa de campo, 2007.

Observação. Números explicam razão de serem correlatos: 1. clientes comuns; 2. produtos complementares; 3. fornecedores e tecnologias semelhantes; 4. outras relações com fornecedores; 5. publicidade e propaganda em comum.


O fluxograma acima já dá bastante conta da complexidade da estrutura de empresas e instituições na qual estão inseridos os empreendimentos da ASCOOP, que esta sendo revelada por esta pesquisa, composição que vem foi sendo revelada por esta análise.

9 OS ÓRGÃOS REPRESENTATIVOS DOS EMPREENDEDORES

O capítulo anterior revelou que inúmeras instituições, que oferecem apoio às empresas e setores, estão integradas em um conjunto no qual se destacam a cadeia vertical de empresas (a partir da do conjunto de empresas da ASCOOP) e a cadeia horizontal de setores (a partir também destes empreendimentos da ASCOOP), acrescentando novas evidências de um emergente aglomerado da moda, em Belém, no qual estaria inserida a produção de confecções e de acessórios da ASCOOP. Assim, após terem sido isoladas as empresas, os setores e as instituições de apoio aos empreendimentos da ASCOOP, foi dada seqüência, neste capítulo, à investigação visando identificar novos possíveis elementos do referido aglomerado, mais especificamente os órgãos coletivos envolvendo os participantes das empresas destas concentrações.

A principal destas organizações é a Cooperativa de Empreendedores Populares e Solidários de Confecção e Acessórios do Pará (ASCOOP) ainda está em processo de legalização, mas, que, informalmente, foi constituída em 2005. A ASCOOP é o produto da organização econômica de empreendedoras e empreendedores de vários bairros de Belém, que no período de 2000 a 2003 participaram das iniciativas do Banco do Povo de Belém, programa de microcrédito da Prefeitura da capital paraense. Naquele momento, a administração municipal estava implantando uma abordagem de ação que articulava o crédito às iniciativas de formação e de organização dos empreendedores financiados, através de um processo de acompanhamento integral do desenvolvimento do empreendimento.

O Banco do Povo nasceu, em Belém, como um órgão de fomento para o desenvolvimento da economia popular da Prefeitura Municipal de Belém, comandada pelo Prefeito Edimilson Rodrigues e pela Vice-Prefeito Ana Júlia Carepa, eleitos em 1996, representando o Partido dos Trabalhadores (PT). Este proposta foi implantada a partir de um programa de governo denominado de Governo do Povo, que foi a diretriz maior da gestão de Edimilson, por dois mandatos. Mais tarde, em 2006, Ana Júlia Carepa foi eleita governadora do Estado do Pará, (ARROYO, 2004). “Banco do Povo” era o nome de fantasia criado para a Figura ura jurídica Fundo de Solidariedade para Geração de Emprego e Renda Ver-O-Sol. Este nome foi inspirado na experiência na experiência do Grammen Bank, de Bangladesh (YUNUS, 2001). O objeto do trabalho era o microcrédito, tendo como principais clientes os empreendedores da economia popular: confecção, alimentação, abastecimento (mercearias), movelaria, artesanato, serviços e o comércio ambulante de industrializados e importados. Um conjunto de atividades que envolvem, segundo estimativas do IBGE, pelo menos 36% da PEA (População Economicamente Ativa) de Belém, se considerarmos como indicador a percentagem atribuída pelo DIEESE apenas à “economia informal”.

Com a precariedade das estatísticas dedicadas a este segmento e a decorrente falta de visibilidade, ocorria uma grave ausência de políticas públicas que pudessem potencializar o potencial da economia popular. Tal fato era agravado pelo preconceito que fazia com que o segmento fosse visto somente como um problema social e nunca como uma solução econômica, também.

As inovações estratégicas implantadas pelo Banco do Povo, no período, oportunizaram o surgimento do Fórum de Empreendedores Populares de Belém, dos Fóruns de Desenvolvimento Local Solidário nos bairros do município, do Conselho de Controle Social do Banco do Povo e dos Centros de Apoio à Economia Popular Solidária (CAEPS). Todos os instrumentos que colaboraram para o fortalecimento da Economia Popular e a efetivação, em seu seio, da perspectiva da Economia Solidária (Arroyo, 2004). Destes esforços surgiu a ASCAPA (Associação dos Empreendedores Populares e Solidários de Confecção e Acessórios do Pará), experiência que mais tarde geraria a ASCOOP.

Por sua abordagem inovadora, o Banco do Povo de Belém foi comunicado, em outubro de 2001, que, de um grupo de 757 casos, havia sido selecionado como um dos 20 agraciados pelo Prêmio Gestão e Cidadania promovido pela Fundação Getúlio Vargas e a Ford Foundation, em parceria com o BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social).


9.1 O FÓRUM DE EMPREENDEDORES POPULARES E SOLIDÁRIOS DO PARÁ


Partindo da idéia de que “o sucesso do negócio popular depende do maior grau de participação dos empreendedores e empreendedoras na comunidade/sociedade”, é que o Banco do Povo de Belém adotou a estratégia de fortalecer a organização dos ¬Fóruns de Desenvolvimento Local Solidário e do Fórum de Empreendedores Populares de Belém, entre outras iniciativas (ARROYO, 2004).

O objetivo era fortalecer o segmento e sua atuação junto à comunidade. Trabalhando a formação dos empreendedores, tanto para a compreensão da situação da economia local, como para enfrentar os desafios das organizações populares e da melhoraria das condições de vida da população. Antes, em 2000, na sede do Sindicato dos Bancários, realizou-se o I Encontro de Empreendedores Populares, promovido pelo Banco do Povo de Belém. Deste encontro, surgiram grupos de trabalhos que organizavam um grupo de participantes de cerca de 100 empreendedores, por ramo de atividade. Os dois maiores grupos foram do setor de alimentação e de confecção.

Em 2002, entre reuniões e grandes plenárias, foram mobilizados em torno de 3 mil empreendedores populares. A principal conseqüência deste processo foi a constituição e/ou consolidação de 13 Fóruns de Desenvolvimento Local Solidário, como um processo de acumulação de forças ao longo do processo de preparação do II Encontro do Fórum dos Empreendedores Populares de Belém. Tal encontro foi realizado em julho de 2002, com a presença de mais de 1.000 empreendedores, estabelecendo as novas bandeiras de luta, elegendo sua nova coordenação e apoiando duas características do movimento: autonomia e a complementaridade entre eles.

Figura: 49 : Arroyo, Joana Mora e Sr. Miguel, presidente da ASCOOP.

Surgiu assim um novo ator no cenário social de Belém – o empreendedor popular – com uma identidade capaz de reunir e articular diversos segmentos econômicos, como feirantes, autônomos, merceeiros, costureiras e camelôs; que passaram a encontrar nesta denominação uma maior dignidade e auto-estima, saindo da obscuridade das abordagens pejorativas para se assumir como sujeito político, passando a participar ativamente de fóruns e processos sócio-políticos na interlocução com o governo e com outros segmentos sociais. No campo político-organizativo, os empreendedores populares começam a constituir um movimento unificado, apresentando uma pauta retirada da discussão entre os vários segmentos específicos que os compunha e a constituir uma base mobilizada para pressionar os poderes constituídos, levantando questões sobre a tributação, a legislação trabalhista e previdenciária, entre outras.

Por outro lado, trabalham também na possibilidade de estabelecer uma nova relação entre quem produz e quem consome, diretamente, sem participação do Estado. Este esforço, no entanto, requer que se fortaleçam novos princípios e paradigmas para as relações econômicas, particularmente as de troca (de mercadorias, valores e conhecimentos), acrescentando, desse modo, novos significados para a moeda e tornando o mercado mais permeado dos vetores da cooperação.

Motivados por essa possibilidade, o conjunto dos atores sociais de Belém vinculados ao Fórum Paraense de Economia Solidária, começaram a aceitar o desafio de estabelecer uma nova pauta dentro da luta cotidiana do movimento popular, buscando avançar as estratégias para a dimensão “econômica” no desafio do Desenvolvimento Humano. A partir da constituição dos Fóruns e de sua interação com instituições acadêmicas, empresariais e políticas, inicia uma significativa rede de relações sociais, econômicas, políticas e culturais, Deste conjunto de relações estabelecidas, foi possível produzir algumas experiências inovadoras de forte simbolismo, tais como:

Atacadão solidário: projeto que estimulou, em especial as organizações dos merceeiros (mercearias residenciais, taberna, mercadinho, mini-mercados etc.) para as compras coletivas de seus produtos, quer seja nos mercados locais quer seja em outros mercados. Projeto também apoiado pela ADS (Agência de Desenvolvimento Solidário da CUT).

Moda popular: após a organização da Associação dos Empreendedores de Confecção e Acessórios do Estado do Pará – ASCAPA, criou-se uma nova situação em que os empreendedores deste segmento conseguiram avançar para um novo patamar de percepção sobre os mecanismos que inibem sua evolução, criando desse modo novas formas de se relacionar com o mercado e a sociedade, como, por exemplo, a criação de uma grife (100% Amazônia) e suas linhas, ou em outras palavras, saindo da produção de roupas para a produção de moda, ao incorporar uma perspectiva estratégica mercadológica.

Catálogo de Negócios Serviços e Produtos dos Empreendedores Populares: instrumento de divulgação das atividades empreendedoras dos empreendimentos solidários, experimentado em 2001 com sucesso, numa parceria entre o Banco do Povo e o Fórum dos Empreendedores Populares de Belém, tornando-se, assim, num dos primeiros meios de divulgação alternativa da Economia Popular, além de incentivar o consumo no próprio bairro. Neste processo a ASCAPA transformou-se na ASCOOP.

Cartão de Crédito dos Empreendedores Populares: baseado na experiência da comunidade do Conjunto Palmeira, na periferia de Fortaleza, que constituiu um banco popular, uma moeda chamada “Tupi” e um cartão de crédito popular, o Palma Card, como instrumentos de apoio à comunidade local e de fortalecimento dos negócios dos Empreendedores Populares do Conjunto. A Associação dos Empreendedores Populares do Complexo de São Braz, em parceria com o Banco do Povo de Belém e a Financeira Visa, estabeleceram uma parceria inédita, em 2002, para atender feirantes da Feira de São Braz, com cartões da bandeira Visa. A inspiração de Fortaleza e o sucesso do uso do cartão em São Braz, estimulou os empreendedores populares de Mosqueiro, a criarem o Sol Card, totalmente mantido e gerenciado pelos empreendedores organizados no Fórum daquele distrito. Diferentemente das outras experiências, esta durou pouco mais de um ano, encerrando meses após a troca no comando político da Prefeitura.

Descentralização do crédito popular e o Aval Comunitário: a partir da organização e consolidação dos Fóruns de Desenvolvimento Local Solidário inicia-se um processo de descentralização do Crédito Popular. O Banco do Povo passou a aceitar o Aval Comunitário, modalidade de aval em que a organização dos empreendedores, seja associação, cooperativa, grupo solidário ou outra, aprova em assembléia a indicação dos candidatos ao crédito para o banco, dando assim um aval moral que compromete todo o grupo com o sucesso do empreendimento para que este, quitando o financiamento, possa abrir a possibilidades de novos tomadores.

No entanto, foi uma grande lição entender-se que essa modalidade de aval requer, num primeiro estágio, que a comunidade estabeleça os critérios de transparência (os critérios técnicos eram estabelecidos em discussões conjuntas entre Banco e comunidade) onde a tônica seja o compromisso e a confiança de todos os envolvidos, levando assim à prática da solidariedade econômica, o que nem sempre ocorreu. Mesmo assim, vivenciou-se a possibilidade de novos parâmetros de balizamento para a aprovação de empréstimos financeiros, com base em novas necessidades, valores e princípios, que não os inspirados nos Acordos de Basiléia.(1988) Controle Social, pela sociedade civil, sobre o Banco do Povo: esta idéia refletiu concretamente a necessidade de democratizar o crédito público sob a premissa de “quanto mais próximo estiver o parceiro/tomador do Banco do Povo, melhor será a relação de parceria” e reciprocidade. Para tanto, a materialização dessa conquista foi a criação e o funcionamento do Conselho Popular de Controle Social do Banco do Povo, composto por representantes escolhidos pelos Fóruns de Desenvolvimento Local. Outra experiência que não resistiu a mudança eleitoral (ARROYO, 2004).

Centros de Apoio à Economia Popular Solidária: constituídos por professores e alunos de graduação universitária em Ciências Econômicas, Ciências Sociais, Ciências Contábeis, Ciências Jurídicas, Administração, Serviço Social, Comunicação, Psicologia e Pedagogia, que como bolsistas formaram equipes interdisciplinares de extensão universitária em apoio a cada Fórum Local.

Sintetizando o trabalho realizado naquele período, desenvolveu-se uma visão integradora da ação do Banco do Povo em torno de um tripé estratégico: Formação-Organização-Crédito (FOC), adotado como fundamento metodológico da prática adotada de Crédito Popular Assistido (Arroyo, 2004). Este trabalho veio a avançar em áreas até então impensáveis, como a ACP (Associação Comercial do Pará), tradicional entidade empresarial que teve a sensibilidade de criar uma Câmara de Economia Solidária, em 2005.


9.2 O DESAPARECIMENTO DO BANCO DO POVO

Com a vitória de Duciomar Costa, nas eleições para prefeito de Belém, em 2004, o Banco do Povo, enquanto tal, desapareceu, passando o Fundo Ver-o-Sol a utilizar como nome de fantasia o seu próprio nome formal. A mudança no Banco do Povo não foi só de nome, pois, enquanto a gestão petista disponibilizava seus serviços para o conjunto da população de empreendedores, a nova gestão privilegiava grupos de empreendedores específicos. Outro aspecto é que passou a assumir políticas de “geração de emprego e renda” tradicionais, trabalhando capacitação profissional sem interação obrigatória com a política de microcrédito.

No entanto, esta nova situação revelou uma importante característica da metodologia anterior. Mesmo sem a manutenção da marca, Banco do Povo, o conjunto dos empreendedores que participaram daquela política pública no período de 2000 a 2003, ainda o guardam como referência de apoio aos empreendedores da economia popular e solidária. Além disso, mesmo com a quebra da continuidade das linhas de crédito que apoiavam os empreendimentos coletivos que serviam de aglutinadores de empreendedores populares para que iniciasse uma vivência produtiva dentro dos parâmetros da Economia Solidária, estes prosseguiram. Demonstrando a correção em lhes conferir autonomia para que não se tornassem dependentes de governos e se firmassem como empreendimentos, de fato.

No entanto, sem o apoio institucional dado até 2003 pelo Banco do Povo, os empreendimentos menores sofreram descontinuidade e houve certa dispersão. Momento em que se processou uma depuração entre os empreendedores e técnicos de apoio, conferindo maior nitidez aos perfis que, de fato, internalizaram os princípios e estratégias da Economia Solidária. A ASCAPA foi um dos empreendimentos que resistiu e sobreviveu, mesmo diminuindo suas atividades, tendo avançado para o formato de cooperativa, como ASCOOP, e se articulado com a rede Justa Trama.

A sede da ASCOOP, em Belém, no bairro da Marambaia, teve suas instalações razoavelmente melhoradas (ver Figura ura abaixo), iniciando-se um processo de transformação de sua estrutura de madeira para alvenaria. No entanto, apesar das melhorias, as condições de trabalho no prédio ainda são bastante precárias.

Figura 50: Sede da ASCOOP em 2005 e, depois da reforma, em 2007


9.3 AVANÇOS DA ECONOMIA SOLIDÁRIA


O acúmulo do trabalho político dos empreendedores populares, no Pará e no Brasil, com a eleição de LULA em 2002, contribuiu fortemente para o surgimento da SENAES (Secretaria Nacional de Economia Solidária), como um coadjuvante de alto nível do Ministério do Trabalho e Emprego. Vale registrar que o mérito do trabalho desenvolvido no Banco do Povo de Belém e sua decisiva influência para a criação da ABCRED (Associação Brasileira de Entidades de Microcrédito e Crédito Popular Solidário) fez com que o Pará pudesse indicar um dos coordenadores da Secretaria, já em sua primeira formação.

Figura 51: Delegados da Amazônia no I Encontro Nacional de Empreendedores Populares, Distrito Federal, 2004.


Em seguida, a ADA (Agência de Desenvolvimento da Amazônia) prestou importante apoio à economia solidária na região, no período de 2003 a 2005, propiciando a criação do site Rede Amazônia Solidária para interação e comercialização eletrônica regional. No mesmo período a Faculdade do Pará (FAP) se somou a UNITRABALHO e diversas outras iniciativas de movimentos e ong’s, realizando o primeiro MBA em Economia Solidária e Microcrédito da região e instituindo o projeto de extensão “Fortalecendo a Economia Solidária”, projeto que propiciou o relançamento da 100% Amazônia pela ASCOOP na Amazônia Fashion Week. Neste mesmo período, a Fundação Banco do Brasil (FBB), através de edital da SENAES, doou modernos equipamentos industriais de confecção para incrementar a produção da ASCOOP.

Figura 52: Desfile coleção Justa Trama no Amazônia Fashion Week 2007

Assim, são reveladas, neste capítulo, inúmeras instituições que representam órgãos coletivos das empresas das formações verticais e horizontais organizadas em torno dos produtores de confecções e acessórios da ASCOOP. Estas revelações são novas evidências que vêm somar na investigação de identificação de um emergente aglomerado da moda, em Belém, no qual estaria inserida a produção de confecções e de acessórios desta associação, como pode ser visualizado no fluxograma a seguir.








Figura 53: Cadeia vertical das empresas têxteis e de acessórios da ASCOOP e cadeia horizontal de setores articulada a estas empresas, com instituições de apoio a estas formações e órgãos coletivos das empresas. e órgãos coletivos. Fonte. Pesquisa de campo, 2007.

Observação. Números explicam razão de serem correlatos: 1. clientes comuns; 2. produtos complementares; 3. fornecedores e tecnologias semelhantes; 4. outras relações com fornecedores; 5. publicidade e propaganda em comum.

As empresas das cadeias verticais e horizontais em torno da ASCOOP apresentaram órgãos coletivos representativos bastante dinâmicos, dentre os quais se destacaram a ASCOOP, a ASCAPA, o Fórum de Desenvolvimento Local Solidário, o Fórum de Empreendimentos Populares de Belém, a Associação Comercial do Pará, Centro de Apoio à Economia Popular Solidária e a Associação dos Empreendedores Populares do Complexo de São Brás, entre outros. Tal revelação agrega ainda mais à complexidade da estrutura de empresas e instituições na qual estão inseridos os empreendimentos da ASCOOP.









10 ÓRGÃOS REGULADORES DAS ATIVIDADES ANALISADAS


O grande número e o dinamismo dos órgãos coletivos, entre os quais se destacam a ASCOOP, o Fórum de Desenvolvimento Local Solidário, e a Associação Comercial do Pará, representativos das empresas das formações estudadas, foram aspectos revelados no capítulo anterior, adicionando ainda maiores evidências à caracterização de um emergente aglomerado da moda, em Belém, onde estariam inseridos os empreendimentos da ASCOOP. No presente capítulo, foi dado um novo passo que deu seqüência à investigação de novos prováveis componentes do aludido aglomerado, o que foi feito através da busca de identificação de agências governamentais e outros órgãos reguladores que exerciam significativa influência sobre os participantes das aglomerações estudadas nesta pesquisa.

Ao serem indagados quais instituições governamentais regulariam com mais intensidade suas atividades, os produtores da ASCOOP entenderam que, na maioria das vezes, não existe um aspecto ou pressão de fiscalização ou regulamentação específica que seja dominante. Na prática, estes empresários sofreriam a ação de todos os tipos de regulação, como no caso da ação dos fiscais da Secretaria Municipal de Saúde, do PROCON, da Delegacia do Meio Ambiente do Pará, do Ministério do Trabalho e da Justiça do Trabalho. No entanto, ainda na órbita de regulação destas empresas estão o Juizado de Pequenas Causas, o INMETRO, os Bombeiros, a Junta Comercial do Pará, Secretaria Municipal de Economia, a Secretaria Municipal de Meio Ambiente e a Delegacia de Crimes contra a Economia Popular.

A Secretaria Municipal da Saúde, gestora do Sistema Único de Saúde no Município, é responsável pela formulação e implantação de políticas, programas e projetos que visem a promover, proteger e recuperar a saúde da população. À Secretaria Municipal de Saúde cabe organizar e coordenar sua equipe técnica e segmentos com o auxílio do Conselho Municipal de Saúde. A Divisão de Vigilância Sanitária de Engenharia, que fiscaliza o licenciamento de estabelecimentos comerciais, industriais, de ensino, de saúde, de hospedagem e similares, de recreação, de prestação de serviços, entre outros. No caso dos produtores da ASCOOP, a atuação desta Secretaria tem como principal objetivo investigar infrações relativas à prevenção contra o desenvolvimento do mosquito da dengue, particularmente no caso a existência de depósitos de água parada, sem a devida cobertura.

Por sua vez, PROCON é a sigla que se tornou usual para designar os órgãos de defesa do consumidor, sejam municipais ou estaduais. Cada órgão desses integra, como se lê no Código de Defesa do Consumidor (CDC), o chamado Sistema Nacional de Defesa do Consumidor (SNDC), como vê no CDC e em sua regulamentação, o Decreto Federal nº 2181/97. O PROCON, então, é o local onde o consumidor tem apoio tanto informativo para efetuar um melhor consumo, quanto coibitivo, quando, por qualquer forma, tiver seus direitos violados. O PROCON, no caso dos produtores da ASCOOP, tanto serve para fiscalizá-los, como para protegê-los.

A questão relativa às reclamações dos consumidores contra os serviços e bens prestados por pequenos empreendimentos e mesmo artesões não é um assunto novo, nem de menor importância. Por exemplo, em 1997, as reclamações contra as fabricas de móveis foram o primeiro lugar na lista das queixas no PROCON de São Paulo, com aproximadamente 7.000 processos. Uma das justificativas dadas para que esta indústria tivesse sido a campeã no PROCON daquele Estado, no referido ano, era de que entre as mais de 13.000 fábricas que compunham este setor, naquele Estado, 60% eram micro e pequenas empresas. Segundo Nestor Bergamo, presidente da Abimóvel, a associação que reúne os produtores de móveis do Brasil, "Muitos fabricantes não têm conhecimento tecnológico e usam material inadequado" (REVISTA VEJA, 2007).

As reclamações no PROCON são sempre menores quando são tomadas iniciativas como a documentação de toda compra ou contratação de serviços. Para isto devem ser exigidos os seguintes documentos: nota fiscal (quando couber) ou um contrato contendo pedido, garantias, instruções, etc. Ademais, os pagamentos devem ter recibos serem pagos em cheques nominais, providencias que elevam o número de soluções amigáveis entre o empresário e o consumidor, sem necessidade de recorrer ao PROCON (GENTEPRAIAS, 2007). Por outro lado, os próprios empresários recorreram ao PROCON, principalmente em função de questões contra fornecedores.

No entanto, no caso específico do setor de confecções e acessórios da ASCOOP, não constou, nem por parte das informações dos produtores, nem de outras fontes, de que as reclamações teriam a grandeza da freqüência com que o público consumidor reclama contra os fabricantes de móveis. Em geral, estas reclamações ocorreram em níveis dos mais baixos, sendo que a maioria das reclamações dos consumidores aos trabalhos destes produtores foi resolvida diretamente entre as partes, através de ações de pós-venda.

A Delegacia Estadual de Meio Ambiente – DEMA - existe para investigar e apurar os crimes e as contravenções praticadas no território paraense contra a fauna, a flora e o meio ambiente de modo geral, na esfera de sua competência, procedendo a todos os atos processuais previstos na legislação em vigor. Esta Delegacia também utiliza cadastros atualizados das empresas e firmas que explorem quaisquer serviços sujeitos à fiscalização da DEMA, bem como fichários e prontuários de crimes e contravenções perpetrados contra o meio ambiente.

As poucas ações movidas por agentes da DEMA em relação aos produtores foram referentes à questão dos níveis de poluição sonora, particularmente devido ao trabalho noturno, após as 22 horas. Em geral, a atividade de confecções, na sua fase de fabricação de roupas, não apresenta outros problemas de ordem ambiental, a não ser o desperdício de aparas e a falta de coleta seletiva do lixo gerado pela produção.

O Ministério do Trabalho verifica o cumprimento, por parte das empresas, da legislação de proteção ao trabalhador, com o objetivo de combater a informalidade no mercado de trabalho e garantir a observância da legislação trabalhista. No caso dos produtores a ação deste Ministério tem sido muito mais de realização das visitas regulares para verificação do cumprimento da legislação.

Por sua vez, a Justiça do Trabalho tem o papel de julgar todos os conflitos individuais e coletivos resultantes da relação de trabalho, tais como ações que envolvam litígios entre trabalhadores e empregadores, servidores públicos e a administração pública, questões intra e intersindicais, direito de greve, acidentes de trabalho, indenização por dano moral, crimes contra a organização do trabalho e outros. A principal ação desta Justiça em relação aos empresários foi de julgar as questões trabalhistas originadas em função de conflitos entre os produtores e seus empregados e ex-empregados. Em relação aos conflitos trabalhistas há de ser considerado a muito complexa e louvável legislação do trabalho brasileira, que, no entanto, ainda tem dificuldades de adaptar-se à existência de diferentes níveis de desenvolvimento regional e enorme diferença entre a organização e estruturação das empresas.

Outro órgão que tem importante papel de regulação da produção dos micros empresários da ASCOOP é a Secretaria Municipal de Economia de Belém (SECON). Esta Secretaria busca fortalecer e desenvolver a economia deste município, através de ações e projetos de apoio e fomento à produção e à geração de emprego e renda à população. Também controla as atividades do poder público, voltadas para a economia do município e administra o sistema de abastecimento de feiras, mercados e portos, inclusive do licenciamento e controle do comércio em vias e logradouros públicos, da propaganda comercial em ambientes externos. Foi precisamente no âmbito do licenciamento e do controle das feiras, dos mercados, dos portos e do comércio em vias públicas, inclusive do artesanato, que a SECON teve a maior forte influência nas atividades dos produtores da ASCOOP. A fiscalização exercida por aquela Secretaria exigia um melhor preparo e maior organização dos distribuidores dos produtos da ASCOOP que usavam a via pública para comercializá-los.

Desta maneira, foram identificadas, neste capítulo, inúmeras agências governamentais e outros órgãos reguladores que exerciam significativa influência sobre os participantes das aglomerações estudadas nesta pesquisa, entre os quais se destacaram a Secretaria Municipal de Saúde, o PROCON, a Delegacia do Meio Ambiente do Pará, o Ministério do Trabalho, a Justiça do Trabalho e a Secretaria Municipal de Economia.

Estes organismos reguladores e fiscalizadores estão integrados ao conjunto no qual se destacam a cadeia vertical de empresas (a partir da do conjunto de empresas da ASCOOP) a cadeia horizontal de setores (a partir também destes empreendimentos da ASCOOP), as instituições de apoio às empresas destas formações e aos órgãos coletivos das mesmas empresas para a formação de um grande número de evidências da existência de um emergente aglomerado da moda, em Belém, no qual estaria inserida a produção de confecções e de acessórios da ASCOOP, como pode ser visualizado no fluxograma a seguir:








Figura 54. Cadeia vertical das empresas têxteis e de acessórios da ASCOOP e cadeia horizontal de setores articulada a estas empresas, com instituições de apoio a estas formações, órgãos coletivos das empresas e órgãos de regulação.. Fonte. Pesquisa de campo, 2007.

Observação. Números explicam razão de serem correlatos: 1. clientes comuns; 2. produtos complementares; 3. fornecedores e tecnologias semelhantes; 4. outras relações com fornecedores; 5. publicidade e propaganda em comum.

A clara e marcante presença de agências e órgãos reguladores governamentais voltados para controlar e aperfeiçoar a ação das empresas das cadeias verticais e horizontais erigidas em torno dos empreendimentos da ASCOOP, entre eles o PROCON, a Justiça de Trabalho, o Ministério de Trabalho, a Secretaria de Economia e a Delegacia do Meio Ambiente, agrega ainda mais à complexidade da estrutura de empresas e instituições na qual estão inseridos os empreendimentos da ASCOOP. Esta estrutura, segundo as evidências reveladas nesta pesquisa, pareceu demonstrar a existência de um emergente aglomerado da moda em Belém.








11 A INSERÇÃO DAS EMPRESAS DA ASCOOP NO EMERGENTE AGLOMERADO DA MODA

A clara e marcante presença de agências e órgãos reguladores governamentais voltados para controlar e aperfeiçoar a ação das empresas das cadeias verticais e horizontais em torno dos empreendimentos da ASCOOP só fez adicionar à complexidade da estrutura formada por empresas e instituições, na qual estão inseridas as empresas desta associação. A demonstração da existência destes órgãos se deu após uma série de outras revelações fruto de análise sistemática que seguiu o rigoroso caminho metodológico de Porter, permitindo, pouco a pouco, capítulo por capítulo, somar evidências da existência de um emergente aglomerado da moda em Belém, onde estariam inseridos os empreendimentos da ASCOOP.

Porter (1999, p.211) se remete ao termo emergente ao fazer a discussão dos aglomerados e dos novos papéis para os governos. Ele diz a este respeito que “A remoção dos obstáculos ao crescimento e a melhoria dos aglomerados existentes e (aglomerados – minha nota) emergentes revestem-se de importância prioritária.” Aqui, fica patente que o referido autor estabelece uma indiscutível classificação (no melhor sentido de separação e diferenciação) entre o que ele chama de aglomerado existente e o que diz ser o aglomerado emergente. Isto significa, claramente, que estes termos são duas categorias diferentes. Logo, o que é emergente não é existente e o que é existente não é emergente. Conseqüentemente, de forma alguma o aglomerado emergente já é um aglomerado de fato (“existente”): no máximo, ele é um fenômeno que esta prestes (a um passo, ou no limiar) de se tornar, de fato, em um aglomerado. Antes desta situação limite máxima, para o conceito de aglomerado emergente, este fenômeno esta, apenas, em algum ponto do caminho antes de estar prestes de existir, ou seja, muito próximo de se tornar um aglomerado existente. No mínimo, ou seja, na mais pessimista das abordagens, o aglomerado emergente é um fenômeno que tem algum, mesmo o mínimo, potencial de se transformar em um aglomerado existente.

É este o sentido de que se cobre de relevo prioritário a remoção das barreiras ao avanço e ao melhoramento dos aglomerados existentes (no sentido de que ocorre uma definitiva presença do fenômeno do aglomerado) e aglomerados emergentes (no sentido de que ainda não se dá uma efetiva presença de um aglomerado, mas um fenômeno que pode, até mesmo, estar no limiar de se tornar um deles).

Portanto, quando se diz que existem fortes evidencias de que os empreendimentos da ASCOOP estão inseridos no emergente aglomerado da Moda em Belém, está-se simplesmente afirmando que os referidos empreendimentos estão colocados em uma rede de empresas, instituições e órgãos públicos, concentrados espacialmente, que estão no limiar de se transformar em um aglomerado, devido, particularmente, à crescente intensidade da cooperação entre os participantes desta rede.

Em primeiro lugar, os dados disponibilizados pela pesquisa demonstraram, com muita ênfase, que os empreendimentos têxteis e de acessórios da ASCOOP apresentavam indícios de forte semelhança entre eles mesmos. Tal reconhecimento permitiu afirmar, com bastante realismo, que aquela formação de micro negócios se enquadrava com nitidez à categoria “concentração de empresas semelhantes”, que representa um dos dois possíveis tipos de “pontos de partida” para a identificação de um “aglomerado”, sendo o outro uma “grande empresa”.

Em segundo lugar, os dados levantados por esta investigação permitiram revelar uma cadeia produtiva vertical à montante dos empreendimentos da ASCOOP e outra cadeia à jusante das mesmas empresas. A cadeia produtiva à montante não apresentou alta profundidade, por carecer da instalação, em Belém, de indústrias produtoras de insumos industriais para a atividade de confecções e de produção de acessórios. No entanto, esta mesma cadeia produtiva revelou-se bastante intensa, desde que, entre outros elementos, era composta por um numeroso e diverso grupo de empresas comerciais de abastecimento das indústrias de confecções e de acessórios.

Por sua vez, a cadeia produtiva à jusante revelada caracterizou-se não apenas por ser bem mais profunda, ao levar a uma maior agregação de valor, localmente, como, igualmente, por ser bastante intensa, pelo número grande de atores. Desta maneira, somando-se ao “ponto de partida”, ficou também evidente a existência de uma “cadeia vertical de empresas e instituições” (à montante e à jusante), adicionando evidências para a identificação de um possível aglomerado da moda.

Em terceiro lugar, no capítulo sete, pode ser observada a existência de uma diversificada e relativamente intensa cadeia horizontal de setores, que ensejou repetidas situações de cooperação entre seus participantes, estando, lado a lado, o grupo de empresas de confecções e acessórios da ASCOOP e diversos outros setores, tais como: “shows de música”, “escola”, “cadernos e notícias de moda”, “salão de beleza”, “confecção artesanal e concerto de calçados”, “lavagem de roupa”, “manifestações culturais”, “alta costura” e “eventos de moda”. Tal cadeia horizontal de setores também pode ser chamada de “cadeia horizontal de setores correlatos” e os setores que a formam referidos como “setores correlatos”.

Observou-se que, diferentemente da cadeia produtiva vertical de empresas, a cadeia horizontal de setores não se estruturou a partir de relações insumo-produção, mas de relações de parcerias em que se evidenciaram situações de “ganha-ganha”, ou seja, favorável para todas as partes, reproduzindo uma fórmula que é o “sonho dourado” de qualquer arranjo produtivo solidário e popular, mas que sempre é muito rara de ser encontrada dentro do ambiente setorial de negócios. Assim, naquele capítulo, a identificação de elementos característicos da formação de uma cadeia horizontal de setores representou um enorme avanço na identificação de indícios da possível inserção dos empreendimentos de confecção e acessórios da ASCOOP em um emergente aglomerado da moda, em Belém. As identificações desta cadeia horizontal de setores e da cadeia produtiva vertical de empresas determinaram as empresas e os setores que compunham a estrutura econômica sob investigação, nesta pesquisa.

Em quarto lugar, no capítulo oito, foram identificadas inúmeras instituições que ofereciam apoio às empresas da cadeia vertical (desenhada a partir do conjunto de empresas da ASCOOP) e aos setores da cadeia horizontal de setores (também desenhada a partir dos empreendimentos da ASCOOP), evidenciando, ainda mais, a complexidade da estrutura de empresas e instituições na qual estavam inseridos os empreendimentos desta associação. Estas instituições de apoio às empresas e setores ofereciam serviços e bens tais como qualificações especializadas, tecnologias, informações, capital e infra-estrutura. Assim, as revelações do capítulo oito ofereceram novas evidências de um emergente aglomerado da moda, em Belém, no qual estaria inserida a produção de confecções e de acessórios da ASCOOP.

Em quinto lugar, foram identificados órgãos coletivos representativos dos interesses das empresas participantes das cadeias vertical e horizontal que, incluíam os produtores de confecções e acessórios da ASCOOP. Entre os órgãos coletivos representativos mais dinâmicos que foram identificados estão a ASCOOP, o Fórum de Desenvolvimento Local Solidário, o Fórum de Empreendimentos Populares de Belém, a Associação Comercial do Pará, Centro de Apoio à Economia Popular Solidária e a Associação dos Empreendedores Populares do Complexo de São Brás, entre outros. Estas revelações também foram evidências na investigação de identificação de um emergente aglomerado da moda, em Belém.

Finalmente, no capítulo anterior, foram identificadas inúmeras agências governamentais e outros órgãos reguladores que exerciam significativa influência sobre as empresas e instituições participantes das cadeias estudadas nesta pesquisa. Dentre as agências ou órgãos que apresentaram maior ingerência nas operações destas empresas se destacaram a Secretaria Municipal de Saúde, o PROCON, a Delegacia do Meio Ambiente do Pará, o Ministério do Trabalho, a Justiça do Trabalho e a Secretaria Municipal de Economia. Esta identificação foi mais uma importante evidência para a análise voltada para verificar a inserção dos empreendimentos de calçados e acessórios da ASCOOP em um possível emergente aglomerado da moda, em Belém.

A identificação de um claro e não modesto “ponto de partida” (representado pelos empreendimentos da ASCOOP); a revelação de uma cadeia vertical de empresas a partir destes empreendimentos, que se apresenta muito intensa, particularmente à jusante; o desvendamento de uma cadeia horizontal de setores em torno dos negócios da ASCOOP, que apresentou uma complexidade e sofisticação ainda maior do que a cadeia vertical; o levantamento de inúmeras e sólidas instituições de apoio às empresas e setores das cadeias tanto verticais quanto as horizontais; o mapeamento de órgãos coletivos com ação de intensa defesa dos interesses destas empresas e a identificação de agências e órgãos reguladores das mesmas empresas são, portanto, evidências suficientes para demonstrar, claramente, que existe o desenho de um emergente aglomerado da moda, em Belém, onde estão inseridos os empreendedores de confecções e de acessórios da ASCOOP, como pode foi visualizado no fluxograma apresentado no capítulo dez.

As evidências levantadas ao longo desta análise, seguramente, se referem a todos os elementos participantes de um aglomerado segundo a metodologia de identificação desta formação apresentada por Porter (1999). O que torna esta dedução ainda menos açodada é a observação deste autor de que não necessariamente todos os aglomerados devem possuir todos os tipos de elementos constantes da estrutura que ele desenhou como sendo as partes de um aglomerado. Os aglomerados poderiam ter diversas formas, o que significaria dizer que poderiam incluir mais ou menos elementos, dependendo dos seus níveis de “profundidade” e “sofisticação”.

Aliás, um dos destaques do aglomerado da moda em Belém diz respeito à profundidade e complexidade da sua cadeia horizontal de setores. Os elos horizontais distinguidos a partir dos empreendimentos da ASCOOP são dinâmicos e, alguns deles, muito sofisticados. A longa lista destes setores começa em um setor moderno, como “jornalismo de moda”, passa pela “alta costura”, pelos “shows de música”, as “escolas”, a “confecção artesanal e concerto de calçados”, as “manifestações culturais” (que são riquíssimas aqui no Pará), os “salões de beleza”, a “lavagem de roupa” e termina em um setor cada vez mais diversificado e profundo que é o “artesanato”.

Outro destaque na estruturação do aglomerado de Moda, em Belém, mesmo que limitado aos seus elos em torno dos empreendimentos da ASCOOP, é a qualidade e a quantidade das “instituições de apoio” às empresas das cadeias desta formação, que incluiu o Banco do Brasil, Cartões Visa, CEF, Governo do Brasil, Governo do Pará, o SEBRAE, o DIEESE, o Banco da Amazônia, as Universidades, a Prefeitura Municipal de Belém e o Banco do Cidadão. Porter (1999) chamou de “setores de apoio” uma visão mais ampliada das “instituições de apoio” e que dentro do aglomerado vinícola da Califórnia formava um grupo que incluía a Universidade da Califórnia em Davis (uma das mais importantes escolas do mundo na área de agricultura e alimentos), a Comissão do Vinho da Assembléia Legislativa do mesmo Estado e a Associação Comercial, também daquele Estado.

A idéia de que Porter (1999, p.246) elaborou a teoria do aglomerado apenas para fenômenos econômicos de países desenvolvidos, não se fundamenta, até mesmo porque o próprio autor lembra que, se estas formações são mais freqüentes e mais evoluídas nestes países, eles também existiriam em países em desenvolvimento, mesmo que “concentrados em setores de atuação local”. Este autor inclusive alerta que, em regiões mais pobres, ou, em desenvolvimento, devido à grande dependência de componentes, serviços e tecnologias procedentes de fora da economia, os aglomerados tendem a ser “superficiais”. Por tenderem a serem mais superficiais, os aglomerados, nestas regiões, tenderiam a apresentar um menor número de participantes.

Tal observação cabe muito bem no caso do aglomerado da Moda em Belém dado que a maioria dos insumos e da tecnologia são importados do Sul do Brasil, ou mesmo do exterior, em alguns casos. De todo modo, mesmo o fato de apresentar esta grande dependência externa não impediria a materialização de aglomerados localizados em regiões mais pobres, como é o caso do da moda na capital do Estado do Pará. Porter chega a refletir que, como geralmente não apresentam muitos elos com a economia em sua volta, as grandes empresas em regiões em desenvolvimento dificilmente fazem parte de algum aglomerado, funcionando mais como “ilhas”, que parece ser um sinônimo para o que Hirschman (1977) chamou de “enclave”.

Ainda em termos das especificidades apontadas por Porter (1999) para as características dos aglomerados em regiões em desenvolvimento, existe outra que também se aplica muito bem ao caso do aglomerado da moda, em Belém. Esta observação foi a de que as relações entre as empresas e as instituições, nos aglomerados, seriam muitas vezes inexistentes devido ao fato de que a “comunicação” entre estes atores tenderia a ser mais limitada nestas regiões. Assim, apesar das instituições de apoio no aglomerado da moda no aglomerado da moda nesta cidade serem bastante numerosas, as indicações dos produtores da ASCOOP foram muito claras em evidenciar que muitas delas ainda deixam muito a desejar no apoio que prestam às empresas. Apenas para ilustrar, o Banco da Amazônia, o banco voltado para a promoção do desenvolvimento regional, apesar de ser claramente uma instituição de apoio para a produção na região, não foi indicado por nenhum dos entrevistados da ASCOOP como entidade apoiadora. Ao contrário, haveria uma forte rede de comunicações e elos entre os atores em aglomerados de sucesso nas regiões mais desenvolvidas.

Mas existe outra característica do aglomerado da moda, em Belém, que requer outra séria reflexão, até para ajudar a entender o seu processo de revelação através de um grupo não tão numeroso quanto o conjunto de empreendedores da ASCOOP. Tal reflexão começa com a questão de como é possível que um grupo não tão poderoso financeira e tecnologicamente acabou, no final, estando fortemente interligado a uma formação muito maior e muito mais complexa, que é este aglomerado da moda. Porter, no entanto, alerta para o fato de que, para o desenvolvimento de um aglomerado, “os mecanismos organizacionais e de fortalecimento dos relacionamentos são imprescindíveis, uma vez que as vantagens dos aglomerados baseiam-se, sobretudo nos elos e conexões entre indivíduos e grupos”. Assim, apesar de pequeno, o grupo de empreendedores, parece apresentar uma imensa capacidade de organização, de articulação e de mobilização, o que o ajudou a se qualificar para aproximar de setores muito mais sofisticados e de maior poder financeiro. Na verdade, paradoxalmente, os empreendimentos da ASCOOP parecem estar, inclusive, contribuindo para a solidificação e fortalecimento de uma formação que inclui elementos muito maiores e mais sofisticados do que ele. O próprio elemento da cultura popular muito rica, que é a cultura popular paraense, tem contribuído para o enriquecimento da moda na cidade, como aconteceu com a grife 100%Amazônia, lançada com muito sucesso pela ASCOOP na Amazônia Fashion Week de 2007.

Finalmente, é importante frisar que o aglomerado da moda em Belém, deve ser, e certamente é menor, quando olhado pelo enfoque de seus elos com o conjunto de empreendimentos da ASCOOP, do que quando olhado a partir do enfoque dos elos de outros “pontos de partidas”, mais abrangentes, como seria uma análise envolvendo todas as unidades produtivas de confecções e de acessórios nesta cidade, inclusive as voltadas para um mercado de maior poder aquisitivo. Neste enfoque, outros importantes setores seriam incluídos na cadeia horizontal de setores deste aglomerado, como os seguintes: “restaurantes” (comer bem e vestir bem, vão juntos), “clubes sociais” (socializar e vestir bem vão juntos), “cinemas” (que vai junto com vestir bem), entre outros. Esta digressão, não é um argumento para diminuir a evidência da existência do aglomerado da moda, em Belém, mas, ao contrário, de que este aglomerado não apenas foi revelado por esta pesquisa, mas que, mais do que isto, é maior do que o desenho que os dados desta investigação elaboraram.

A opção pela abordagem a partir de um “ponto de partida” fisicamente menor deu-se pelo fato desta pesquisa ter a preocupação de discutir, em profundidade, as possibilidades de interação entre as categorias de “cooperativismo” e “aglomerado”.






12 AGLOMERADO: UMA NOVA ABORDAGEM PARA A SOLIDARIEDADE ECONÔMICA


Este trabalho constatou, empiricamente, o enorme relevo que a cooperação apresenta para que as pequenas empresas possam se desenvolver. Tão relevante foi constatar que a cooperação mais eficiente não se dá pela absoluta exclusão da competição, desde que a cooperação e a competição apresentam condições contraditórias mas, ao mesmo tempo, complementares, considerando a noção de competitividade contida na teoria de Porter. A cooperação é evidente tanto no nível dos trabalhadores/as que se articulam, formal ou informalmente, em torno de um mesmo objetivo produtivo, como também no caso das relações de empresas com outras empresas correlatas e com instituições de apoio, que tecem objetivos comuns não apenas em patamares relativos à produção, mas a uma noção coincidente e/ou complementar de desenvolvimento, em suas várias dimensões. Por sua vez, a competição, mesmo sendo, quantitativamente, uma parte menor, é indispensável para a qualidade das empresas que produzem um mesmo produto ou serviço, assim como para o desenvolvimento social, tecnológico e cultural da sociedade, como é fundamental, também, para o aglomerado.

Os/as trabalhadores/as quando reúnem seu capital produtivo em torno de uma organização empresarial, como na forma de uma cooperativa, vinculam-se em torno de objetivos produtivos imediatos e da busca de sucesso solidário inseridos no ambiente do mercado capitalista, que a determina, estabelecendo, em grande parte, parâmetros capitalistas de resultados para a experiência econômica solidária. Por outro lado, sem a experiência das cooperativas, redes e associações produtivas solidárias não teríamos acumulado a enorme quantidade de evidências que hoje comprovam a validade e a viabilidade de uma sócio-economia de novo tipo.

Quando, como no caso de um aglomerado, mesmo que “emergente”, como é o caso do aglomerado da Moda, em Belém, além da articulação cooperativa entre trabalhadores/as, também ocorrem cooperações entre entidades de diversos posicionamentos econômicos e de distintas naturezas institucionais, a pluralidade contida nesta articulação estabelece a elevação dos conceitos de economia solidária para além das fronteiras do cooperativismo tradicional, restrito a unidades produtivas que se dedicam ao mesmo tipo de produção, aproximando ainda mais os eventos reais dos paradigmas de uma sociedade supostamente ideal. Esta interação baseada na cooperação se torna muito mais difusa do que a visão costumeira de cooperativismo, potencializada muito menos pelos difíceis ajustamentos dos interesses econômicos dos produtores de mesma linha de produto, mas, muito mais por uma gama infinitamente maior e mais diversa de interesses quase que absolutamente comuns, que ganham maior expressão à medida do grau de identidade cultural entre os atores, daí a noção “miltoniana” de espaço com que trabalhamos.

A conformação de um aglomerado é um processo em que, por via da aproximação de interesses e identidades, atores de um mesmo espaço, forjam no dia-a-dia as condições de sua reprodução e, ao mesmo tempo, transformação – mediados pela interdependência, pelo intercâmbio e pela relação com outros sistemas do organismo sócio-econômico, aludindo à noção de complexidade em Bertalanfy.

Ao concluir pela inserção dos empreendimentos da ASCOOP no emergente aglomerado da Moda, em Belém, entendeu-se que parte do sucesso da experiência da referida associação se deve, justamente, ao ambiente economicamente solidário no qual está plantada, sem o que a superação dos percalços internos, isto é, das contradições entre agentes de mesma linha de produto, se tornaria intransponível, como ainda o são para tantas outras experiências solidárias similares. A observação e análise destas dificuldades no processo cooperativo são fundamentais para o aprimoramento da formatação da economia solidária, assim como para a elaboração de políticas públicas voltadas para o fortalecimento de micro e pequenos empreendimentos e mesmo de políticas voltadas para a promoção da eficiência empresarial e do desenvolvimento material, social e ambiental da sociedade como um todo.


Figura .55 : Dificuldades da cooperação. Fonte: Pesquisa de Campo, 2007.


Assim, fazendo a leitura dos dados obtidos quanto aos vetores que dificultam a cooperação econômica entre os empreendedores da ASCOOP destacam-se três elementos com mais de 40 citações, combinando questões como intereesses econômicos (crédito e comercialização) com aspectos relativos à processo mais intangíveis (relacionamentos). É interessante notar que as evideencias coletadas na pesquisa de 2007 vieram a coincidir com observações diretas feitas nos últimos 5 anos, através de acompanhamento da constituição e da evolução da experiência do que é hoje a ASCOOP.

Em primeiro lugar, é importante destacar que, mesmo que o “crédito” (ou seja, a sua falta) apareça empatado com “relacionamentos”, com 46% de freqüência, como a maior dificuldade à cooperação, em qualquer discussão das relações entre cooperativismo e o crédito as evidências são muito fortes no sentido de se considerar a cooperação muito mais uma solução para o acesso ao credito do que o contrário. Neste caso, provavelmente os entrevistados, ao responderem, focaram muito mais suas preocupações nas dificuldades das operações econômicas em geral do que propriamente em dificuldades geradas especificamente pela cooperação. O mesmo se pode dizer no que se refere às categorias denominadas de “fiador” e de “CNPJ/NF”, desde que as cooperativas tendem, igualmente, a serem muito mais uma oportunidade de resolução de problemas causados por estes fatores do que um vetor de dificuldades.

Assim, pode-se realçar que, incontestavelmente, “relacionamentos” acabaram sendo o principal obstáculo para a cooperação nas operações da ASCOOP, aparecendo com a respeitável freqüência de 46% dos empreendedores. Esse resultado, obviamente, refere-se muito menos às quizilas exclusivamente “pessoais” do que aos problemas “pessoais” gerados no processo de gestão da cooperativa. Um dos momentos que estes últimos tipos de problemas apresentariam maiores possibilidades de ocorrer seria na comercialização, pois, neste caso, isto pode significar vender “x” de dados produtores, em vez de “y”, de outros produtores. No mínimo, tais contradições entre produtores de um mesmo produto ou serviço tiveram um forte peso no fato de que a “comercialização” aparece com 43% de freqüência nas respostas dos empreendedores da ASCOOP referentes aos problemas encontrados na “cooperação”. As dificuldades relativas à “comercialização” podem, em alguns casos, estar relacionada à “regulamentação” do cooperativismo, questão que também apresentou uma ainda considerável freqüência nas respostas. As dificuldades relativas à “comercialização” causadas pela “regulamentação” podem aparecer, por exemplo, nas várias limitações ainda existentes para as cooperativas em vários tipos de licitação pública, vis-à-vis às empresas.

Mas os problemas causados pela “comercialização”, como já observado, ultrapassam os limites da “regulamentação”. Estes problemas, da mesma forma que as questões causadas pelos “relacionamentos”, sofrem uma forte influência do fator “concorrência interna”, principalmente pelo fato de que, formalmente, as cooperativas tradicionais têm o seu centro de atração voltado para compatibilizar interesses entre produtores que, no geral, produzem um mesmo dado produto ou serviço. Existem poucas dúvidas de que produtores de um mesmo produto ou serviço, na maioria das vezes, apresentarão alta rivalidade entre si, pela simples razão de que, freqüentemente, para um produtor vender a sua parte de um produto ou serviço, outro produtor precisa não vender, ou, no mínimo, vender bem menos do que o outro do referido produto ou serviço. Tais contraditórios aparecem em problemas tanto na “comercialização” como, principalmente, em “relacionamentos”, porque envolvem a intensa sensibilidade causada por questões que envolvem a própria sobrevivência de cada um dos produtores no mercado. Portanto, quando se esta falando em problemas de “comercialização” e “relacionamentos” se esta, acima de tudo, falando de outro problema, o qual sintetiza, ou agrega estes tipos de problemas, mesmo que tenha sido citado menos, 25% das vezes: “concorrência interna”. Aliás, não seria muito considerar que esta freqüência poderia estar subestimando dado que não deve ter sido fácil, para os membros da associação de cooperativas, apontar, publicamente, a existência de rivalidade interna como um problema, dado que, por definição, cooperativas existiriam para acolher a cooperação e não para abrigar “concorrência interna”.

Isto esta longe de dizer que as cooperativas com base em produtores de mesmo produto ou serviço não revelem a complementaridade entre motivações materiais e subjetivas, tornando razoável concluir que vetores sociais, psicológicos e culturais convivem com vetores baseados no desempenho econômico da cooperação. Tomando como exemplo o próprio caso dos produtores da ASCOOP, encontrou-se forte motivação econômica para a cooperação no sentido da busca do sustento imediato, portanto decorrente de forte apelo material, ao mesmo tempo em que constatou-se fortes vetores culturais, sociais e psicológicos, conjunção que se expande ainda mais na estrutura dos aglomerados. .

Como o tecido dos aglomerados é composto por uma grande maioria de instituições e empresas, formais e informais, que não produzem o mesmo produto ou serviço, portanto, sua maior parte tende a guardar o mínimo de relações de competição entre si, razão porque, neste último tipo de formação, há um maior distanciamento entre a sustentação material do empreendimento ou instituição e o tipo de relacionamento estabelecido. Ou seja, sem a ênfase de relações fortemente influenciadas pela rivalidade (gerando problemas com “relacionamentos”, “comercialização” e de “concorrência interna, como acima visto), surge um espaço maior para o crescimento do relacionamento baseado na identidade, aliás, principal fundamento do marketing de relacionamento, versão mais avançada das estratégias mercadológicas adotadas nos dias de hoje.

As oportunidades mais freqüentes do estabelecimento de relações baseadas na cooperação no aglomerado decorrem, portanto, do fato de que se trata de uma composição plural de agentes não apenas verticais (dentre estes os que produzem o mesmo tipo de produto ou serviço), mas, principalmente, de agentes produtivos horizontais, instituições de apoio, de representação e de regulação. Na maioria das relações estabelecidas a única possibilidade é o estabelecimento de pontos em comum entre os participantes, fortalecendo os valores subjetivos solidários com que grupos, partidos, movimentos comunitários, ou mesmo nações abstraem a representação da realidade para si e a partir daí projeta seu ideal de futuro.

As observações sobre o objeto deste estudo, a economia solidária e os aglomerados, constata-se que diferenças de escolaridade, ou mais adequadamente, de formação social, técnica e política pode estabelecer maiores obstáculos do que diferenças de renda. Também se observou que os empreendedores populares se aproximam por identidade de bairro mais do que por identidade de produto. Por mais irracional que isto possa parecer economicamente, o fato é que, na economia solidária há outros valores como segurança emocional, confiança pessoal e identidade cultural (até religiosa), que não podem ser convertidos monetariamente. Não por acaso, encontramos no estudo de campo o seguinte quadro quanto às motivações para a cooperação econômica.

Figura 56 : Vantagens na Cooperação. Fonte: Pesquisa de Campo, 2007.


Neste caso, o significado da partilha, implica necessariamente em relação de confiança pessoal e o reconhecimento da importância do outro para uma estratégia de expansão produtiva. O somatório entre confiança e estratégia é que fazem da cooperação um elemento chave para um novo tipo de competitividade.

Mais uma vez, se isto é válido para a dimensão de uma cooperativa, no aglomerado este processo ganha uma intensidade maior. O aglomerado permite o reconhecimento de oportunidades de cooperação que vão muito mais além daquelas cheias de restrições existentes entre produtores de mesmo produtos ou serviços, encontrada nas cooperativas tradicionais. No aglomerado, pode-se reconhecer, além destas usuais relações de colaboração outras nas quais estes produtores de mesmos produtos ou serviços colaboram quase sem restrições entre com empresas e setores correlatos, com instituições de apoio, representações políticas e agências reguladoras. Esta profusão da cooperação no ambiente do aglomerado, que contraditoriamente faz integralmente parte do mercado capitalista, mercado que até então desconhecia esse nível de colaboração entre seus elementos, é fundamental para a construção de estratégias que melhoram enormemente não apenas a eficiência micro econômica, mas, principalmente, os ganhos econômicos, sociais, culturais e até mesmo ambientais meramente pela incorporação à economia solidária de relações de contato antes inexpugnáveis.

Se antes, o que se imaginava ser o melhor modo de gerar maior ganho de solidariedade econômica era o mesmo agente econômico verticalizado da produção de ponta-a-ponta, ou cadeias produtivas verticalizadas, como diz Porter, hoje, pode-se apontar que foram encontrados na formatação do aglomerado novos modos de organização da solidariedade econômica muitas vezes mais eficientes na disseminação de relações de colaboração, que vão muito além das simples complicadas relações entre produtores de mesmo tipo de produtos e serviços. Aliás, este autor lembra, oportunamente, que esta multiplicação de oportunidades de cooperação, particularmente as informais, que teriam um enorme poder de promoção da colaboração, acaba por fazer com que o valor geral do conjunto das partes acabe sendo sempre maior do que a soma do valor de cada uma das parcelas adicionadas. Tal “milagre” ocorreria porque é gerado valor também em relacionamentos antes invisíveis para o mercado capitalista, como as relações horizontais entre empresas e setores, particularmente as relações de colaboração informais, como as relações de colaboração de instituições de apoio com empresas e setores, assim como as próprias relações de cooperação entre empresas e setores com organizações de representação e agências reguladoras. Este valor adicional só é possível ser gerado nos aglomerados, não somente porque neles fica mais visível, mas porque nele se ampliam as possibilidades de que sejam efetivamente proporcionados. Ademais, este valor adicional não tem origem na utilidade dos bens ou serviços ou qualquer outra abordagem diferente do valor trabalho. É um valor também fruto do trabalho, mas talvez não do trabalho formal, assalariado, mas das externalidades do fator trabalho, encontradas em relações entre agentes produtivos fora das conexões tradicionais de fornecedores e clientes formais e, na maioria das vezes, sem custo para pelo menos uma das partes. Os relacionamentos cooperativos geram economias e multiplicadores da produção e da melhoria do ambiente de negócios que não é possível de se entender com as abordagens tradicionais, particularmente as setoriais, vindo apenas a ter pleno sentido naquilo que Porter denominou de aglomerados.

Com os aglomerados, descobriu-se que avançando a cooperação, sem anular a competição entre os produtores de mesmos produtos, a rentabilidade cresce à medida que o grau de confiança entre os agentes se eleva e os custos com riscos tendem a cair significativamente. Note-se que isto recoloca a questão da cooperação não apenas como estratégia de produção, mas de desenvolvimento. Inclusive, alcançando a esfera política, no sentido trabalhado por Hirschman (1976), já que a diminuição dos custos com riscos implica na estabilidade social. Não por acaso, a responsabilidade social e ambiental tem sido pautada pelas empresas como elemento de investimento, para além do marketing, tanto mais seriamente quanto mais lúcidos tornam-se os empreendedores de que as instabilidades e diferenças sociais, acarretam custos sistêmicos que muito dificilmente podem ser debelados isoladamente, mas que podem ser evaporados através do fortalecimento de relações de cooperação entre os agentes sociais, econômicos e políticos.

Portanto, o combate a processos de tendência descendente, engendrando círculos viciosos que deprimem o desenvolvimento e o crescimento econômico, ganham maiores possibilidades a partir da sinergia gerada pela enorme expansão das oportunidades para a cooperação existente nos aglomerados. A fraqueza organizacional dos produtores da ASCOOP fica ainda pior em função dos problemas de “relacionamentos”, que se agravam em função de questões de “comercialização”, que pioram por causa de questões referentes à “concorrência interna”, que, por sua vez, enfraquece ainda mais a estrutura organizacional dos empreendedores (ver abaixo outra representação de círculo vicioso da produção popular e solidária em Belém). Restringir as possibilidades de cooperação à simples presença de produtores de mesmos produtos e serviços deixa de fora, por exemplo, a oportunidade de fazer cooperativas que incluam, também, empreendedores correlatos, como no caso dos empreendedores de desfiles de moda, das instituições de apoio, como institutos tecnológicos, de organizações de representação, como comunidades de bairro e sindicatos e fundos de pensão.
























Figura 57: Círculo vicioso da ASCOOP

Não obstante, pudemos também conferir a presença de outra circularidade, também referente à economia solidária e popular de confecções em Belém, oposta à primeira, portanto, de caráter virtuosa. Esta sucessão de fatores positivos cumulativos, referidos por Myrdal (1965), tem muito mais chances de ocorrer através de uma organização da colaboração econômica centrada no aglomerado e não apenas através de redes de solidariedade de produtores de produtos e serviços iguais. Portanto, este circulo virtuoso trata da presença de fatores cumulativos ascendentes propulsionados pela cooperação e pela competição, ao mesmo tempo, conforme o gráfico abaixo:












Figura 58: Círculo virtuoso da ASCOOP


Note-se que nesta circularidade positiva, os fatores relativos à cooperação e ao relacionamento com a comunidade e outros agentes, ganha peso especial. Estas interfaces com o ambiente social e econômico é que surgem dando estabilidade e sustentação às iniciativas, no caso concreto estudado.

O mais complexo deste processo é que essas contradições locais se dão dentro de um processo maior do avanço da reorganização da economia global. Este, nos últimos tempos, marcado pela articulação de blocos, não apenas econômicos – mas também políticos e culturais – como na Europa, o Nafta e o Mercosul. Este avanço da globalização ratifica a tendência que encontramos no cenário microeconômico que estudamos no qual revelam-se a abertura de possibilidades diversas, até mesmo antagônicas, que mais uma vez desafiam a percepção e consciência das nações, da qual depende nosso próprio futuro.

Este pequeno estudo ousa propor a idéia de que, mais uma vez, nos deparamos com a escolha entre dois campos de alternativas: a) a construção da humanização da economia através da subordinação (e não destruição) da competição diante da cooperação – com a migração de boa parte da lógica da produtividade e lucratividade empresarial para a lógica da rentabilidade social, que deve guiar as estratégias de desenvolvimento econômico, social, político, cultural e ambiental, ou;

b) a postura imediatista e mistificadora da deificacação do mercado como a base absoluta da construção do próprio processo civilizatório, fundada na “naturalidade” das desigualdades materiais, políticas, culturais e sociais da sociedade humana, levando à exclusão, ao racismo, ao colonialismo interno e ao imperialismo.









13 POLÍTICAS PÚBLICAS PARA O DESENVOLVIMENTO DO AGLOMERADO DE CONFECÇÃO DA ECONOMIA POPULAR E SOLIDÁRIA


Nossa conclusão confirma a questão colocada na sub-hipótese deste estudo:a falta de visibilidade do aglomerado o prejudica fortemente. Mergulhado no mar de desinformação e preconceitos que maculam a Economia Popular, até na academia, constatamos nesta pesquisa a raridade dos dados gerados sobre este segmento da economia que, quando gerados, são colocados sob o manto generalizador da informalidade econômica, conceito este que além de impreciso reforça a percepção social distorcida do conjunto de atividades que sustenta economicamente parcela significativa dos brasileiros.

Esta invisibilidade estatística reforça o preconceito de que se trata de uma economia que em nada contribui com o desenvolvimento do país, que na verdade não é uma economia e sim um problema social, como se pudesse apartar, no mundo real, estas duas dimensões entre outras, que conformam a totalidade aberta da existência humana.

Sem visibilidade estatística, não temos parâmetros cabais da contribuição da Economia Popular na contabilidade social do país, e muito menos da Economia Solidária.

Sem informações tecnicamente consistentes, os discursos políticos contra o apoio a esta parte da economia se fortalece, a revelia das evidências das ruas. Fazendo com que mesmo aquilo que salta aos olhos nas praças e no cotidiano da sociedade, não seja enxergado, entendido e considerado como alternativa estratégica.

Sem esta natureza de visibilidade a conquista de apoio político da sociedade às suas causas específicas fica mais renhidas, demoradas e instáveis, portanto, passíveis de reversão a cada momento.

Sem apoio político-social suficiente, a produção de políticas públicas adequadas à Economia Popular e Solidária torna-se tarefa hercúlea e, quando alcançada, nada garante sua execução prática, a não ser a própria capacidade de Controle Social dos seus agentes.

Portanto, concluímos que enquanto a Economia Popular e a Economia Solidária não se estabelecerem na pauta e na agenda das arenas políticas centrais, estaremos perdendo a grande oportunidade de alavancarmos o desenvolvimento nacional de maneira sustentável, combinando crescimento e distribuição econômica, valorando nossa cultura e ambiente.

Neste sentido sugerimos, no plano das políticas públicas:

O reforço ao Sistema de Informações da Economia Solidária (SIES), coordenado pela Secretaria Nacional de Economia Solidária (SENAES) do Ministério do Trabalho e Emprego do Governo Federal. Com sua absorção pelo IBGE e pelo IPEA.

O avanço da metodologia da Contabilidade Social, incidindo particularmente sobre o cálculo e desagregação do PIB (Produto Interno Bruto), entre outros indicadores estratégicos.

Geração sistemática do cálculo do impacto tributário gerado direta e indiretamente pelas atividades da Economia popular e Solidária.

Considerando o diagnóstico dos fatores limitantes apurados no campo, em diálogo com os agentes do Aglomerado de Confecção da Economia Popular e Solidária em Belém do Pará, elaboramos a tabela abaixo.


TABELA 8 : PERCEPÇÃO DOS EMPREENDEDORES DE CONFECÇÃO POPULAR QUANTO AOS FATORES LIMITANTES DO DESENVOLVIMENTO DO AGLOMERADO, EM BELÉM DO PARÁ

Principais fatores Limitantes Demanda de Políticas Públicas % dos entrevistados Crédito Falta oferta adequada 100% Exigência de fiador 86%

Cultura da Cooperação Relacionamento nos empreendimentos 100% Concorrência interna 54% Faltam oportunidades de Comercialização 93% Inserção no mercado Falta Legalização (CNPJ / NF) 63% Falta acesso à mídia 30% Regulamentação adequada 17%

Suporte Falta Formação, Capacitação e Treinamento 67% Faltam incentivos econômicos e Tecnológicos 41%

A partir dos elementos postos na tabela acima, sugerimos a sintonização do conjunto das políticas públicas e da legislação com as seguintes referências estratégicas:

a) Crédito Adequado

• ofertado ao setor em proporção de sua colaboração com o PIB e a geração de ocupação econômica; • aplicado ao potencial do negócio e não sobre a capacidade de pagamento já instalada, com teto de valor relativo à produtividade e ao número de ocupações geradas; • com especificações de prazo, juros e carência a partir da realidade, rentabilidade e potencialidade de cada negócio e sua capacidade de participação e transbordamento econômico em cadeias e aglomerados estratégicos, definidos democraticamente na região; • com sistema de garantias aberto à fiança solidária, em grupo ou comunitária.

b) reforço da cultura da cooperação

• incentivo aos clubes de trocas solidárias, com e sem moeda social; • incentivo à compra conjunta, ao cooperativismo e ao associativismo, a universalização da educação econômica nas escolas, destacando o papel da Economia Popular e Solidária.

c) apoio à inserção no mercado • incentivo e educação ao consumo consciente • emissão de Selo especial para referência legal e de mercado • massificar o acesso aos benefícios do simples, do novo Estatuto da Pequena e Micro Empresa e das Leis Estaduais de economia Solidária. • garantir cota mínima para ocupação da mídia para divulgação da economia popular e Solidária e seus produtos e serviços. • garantir cota mínima para compras governamentais. • incentivo fiscal para empresas que estabeleçam contratos de fornecimento junto aos empreendimentos da Economia Popular e Solidária.

d) Incentivos econômicos e tecnológicos aos aglomerados • incentivo fiscal direto e indireto aos aglomerados de empreendedores da economia popular e solidária; • incentivo ao crédito com juros negativos em situações estratégicas definidas democraticamente, proporcional ao número de ocupações geradas e transbordamento econômico local; • cota mínima de investimento em pesquisas e desenvolvimento tecnológico para solução de problemas de produção e/ou gerencial dos empreendimentos da economia popular e solidária; • incentivo e apoio às práticas de incubação diretamente proporcional à geração de ocupação e transbordamento econômico local dos empreendimentos assistidos e inversamente proporcional ao tempo de incubação, a partir de parâmetros estabelecidos democraticamente.

e) estratégias mercadológicas para o desenvolvimento do aglomerado de confecção da economia popular e solidária

• a partir dos elementos mercadológicos estratégicos expostos nas tabelas abaixo, passamos a considerar possibilidades de iniciativas pertinentes aos próprios empreendedores do aglomerado.


TABELA 9: PRINCIPAIS AGENTES DO AGLOMERADO DE CONFECÇÃO DA ECONOMIA POPULAR E SOLIDÁRIA EM BELÉM

Cadeia Produtiva da Confec. Popular Empreendimentos e Instituições Correlatas Fornecedores Clientes Sistemáticos Eventuais Polít. Públicas Tecidos Consumidor ind. Salão de beleza Alimentação Governos Máquinas Ambulantes Empr. Culturais Mercearias Ong´s Armarinho Feirantes Empr. de Moda Segurança Igrejas Sementes Regionais Peq. Lojistas E. de Artesanato Ensino Universidades Crédito Méd. Lojistas Empr. de Som Emp.Uniforme Sistema S Formação Galerias Emp. de Eventos Teledramaturgia Fórum de Ecosol Designe Shopping Emp. Esportivos Empr. Gráfico Legislativo Outros insumos Outros Clientes Outros Empr. Outros Empr. Fórum de Empreendedores


TABELA 10: PRODUTOS DEMANDADOS E MOTIVAÇÕES DECLARADAS PELOS CLIENTES DA CONFECÇÃO POPULAR Produtos Demandados Motivações declaradas Confecção adulto 100% Acompanhar a moda 58% Lingerie 63% Preço e condições de pagamento 53% Moda Praia 43% Venda em domicílio ou trabalho 31% Confecção para Bebê 31% Datas Festivas(Círio, aniversário...) 39% Uniformes 13% Qualidade 37% Acessórios 31% Sob encomenda e exclusividade 27% Uniforme de trabalho 24% Férias 27%

A rica tessitura do Aglomerado de Confecção da Economia Popular e Solidária em Belém do Pará ganha maior relevância e possibilidades estratégicas de inserção e fortalecimento no mercado, se considerarmos que a realidade econômica é muitas vezes maior do que se poder perceber nas tabelas acima. Por exemplo, na tabela que apresenta o posicionamento dos agentes no aglomerado, na verdade é uma representação parcial já que vários agentes cumprem mais de um papel naquele contexto. Agentes colocados como Correlato, podem também, e ao mesmo tempo, estar na cadeia produtiva, por exemplo.

Portanto, para uma plena percepção das possibilidades estratégicas deve-se ter um olhar sistêmico e integrado do aglomerado e suas interações. Assim é que apresentamos a seguir algumas sugestões de estratégias mercadológicas:

a) em função da escala produtiva da média dos empreendimentos e na própria natureza da Economia Popular, sugerimos que as estratégias sejam focadas no público adequado ao produto ofertado e que se privilegie a parcela dele que está no entorno do empreendimento, para que mais valor seja agregado na forma de serviços e benefícios:

 de outro lado, é preciso casar a estratégia anterior, centrada na relação direta entre produto e cliente, com estratégias de massificação de marcas e da causa da Economia Popular e Solidária, no sentido de conquistar uma atitude positiva do público em geral diante de suas ofertas, criando um contra-ponto ao preconceito ainda muito forte nas manifestações públicas na mídia, através da:  criação de um selo de garantia de qualidade;  patrocinar mídias alternativas que associem o produto ao projeto da economia solidária(geração de emprego e renda, distribuição de riquezas e oportunidades, justiça social, sustentabilidade ambiental, segurança social etc.).

b) desenvolver promoções e outras estratégias de marketing que potencializem a capilaridade do aglomerado:  cartão de crédito popular;  desconto casado;  plano de milhagem/fidelidade;  compra conjunta de insumos comuns;  patrocínio conjunto (solidário) de programação na mídia comercial;  incentivo à organização de consumidores na base das instituições correlatas.

c) desenvolver agenda de eventos promocionais/comerciais, sintonizados com o calendário e a sazonalidade da cultura de consumo local, buscando envolver todos os segmentos do aglomerado como feiras, desfiles, shows etc.

d) organizar controle de qualidade para a participação produtos nos eventos promocionais e comerciais, oferecendo serviços agregados de customização.

e) organizar consórcios para aquisição de máquinas, equipamentos e matéria prima, para o fortalecimento da aglomeração a partir do setor.









CONCLUSÃO


Porter (1999, p.211) se remete ao termo emergente ao fazer a discussão dos aglomerados e dos novos papéis para os governos. Ele diz a este respeito que “A remoção dos obstáculos ao crescimento e a melhoria dos aglomerados existentes e (aglomerados – minha nota) emergentes revestem-se de importância prioritária.” Aqui, fica patente que o referido autor estabelece uma indiscutível classificação (no melhor sentido de separação e diferenciação) entre o que ele chama de aglomerado existente e o que diz ser o aglomerado emergente. Isto significa, claramente, que estes termos são duas categorias diferentes. Logo, o que é emergente não é existente e o que é existente não é emergente.

Conseqüentemente, de forma alguma o aglomerado emergente já é um aglomerado de fato (“existente”): no máximo, ele é um fenômeno que esta prestes (a um passo, ou no limiar) de se tornar, de fato, em um aglomerado. Antes desta situação limite máxima, para o conceito de aglomerado emergente, este fenômeno esta, apenas, em algum ponto do caminho antes de estar prestes de existir, ou seja, muito próximo de se tornar um aglomerado existente. No mínimo, ou seja, na mais pessimista das abordagens, o aglomerado emergente é um fenômeno que tem algum, mesmo o mínimo, potencial de se transformar em um aglomerado existente. É este o sentido de que se cobre de relevo prioritário a remoção das barreiras ao avanço e ao melhoramento dos aglomerados existentes (no sentido de que ocorre uma definitiva presença do fenômeno do aglomerado) e aglomerados emergentes (no sentido de que ainda não se dá uma efetiva presença de um aglomerado, mas um fenômeno que pode, até mesmo, estar no limiar de se tornar um deles).

As evidências são muito fortes no sentido de concluir-se que os empreendimentos de confecções e de acessórios da ASCOOP estão inseridos em um aglomerado emergente da Moda, em Belém. Com explicado detalhadamente no capítulo 11, no mínimo, ou seja, na mais pessimista das abordagens, o aglomerado emergente é um fenômeno que tem algum, mesmo o mínimo, potencial de se transformar em um aglomerado existente. No mesmo capítulo, ficou claro também que, no máximo, o aglomerado emergente é um fenômeno que esta prestes (a um passo, ou no limiar) de se tornar, de fato, em um aglomerado. De todo modo, um aglomerado emergente não é ainda, segundo a teoria de Porter sobre o fenômeno (aglomerado), um aglomerado existente. Assim, o desenho dos elementos pesquisados ensejou uma reprodução muito aproximada de uma concentração geográfica de empreendimentos semelhantes que não apenas competem, mas, sobretudo, cooperam entre si.

Ficou demonstrada a existência de um “ponto de partida”, que no caso foram os próprios empreendimentos da ASCOOP. Este ponto serviu como elemento básico do desenho de uma cadeia vertical de empresas, para a trás e para frente. Também foi revelado que este mesmo ponto fazia parte de uma outra cadeia, chamada de cadeia horizontal de setores. Mapearam-se em torno das empresas destas cadeias instituições que lhe davam apoio e sustentação tecnológica, financeira, de infra-estrutura, de capacitação e de informações. Também foi conFigura urada a presença de órgãos coletivos representativos das empresas das cadeias vertical e horizontal, que defendiam os interesses destes empreendimentos. Como, finalmente, foi obtida a evidência de que agências e outros órgãos governamentais reguladores exerciam grande influência sobre as empresas das mesmas cadeias.

A revelação da inserção de que formações econômicas solidárias e populares em um aglomerado em Belém não é uma boa notícia apenas no sentido de que micro e pequenos empreendedores desta cidade podem tirar proveito de relações de cooperação com empreendimentos de maior complexidade e sofisticação econômica, ou, ainda, porque o aglomerado é uma sofisticada formatação de organização espacial da economia, que, segundo Porter, seria de maior eficiência na economia contemporânea, como no caso do aglomerado do cinema, em Los Angeles, ou o da moda, em Milão, ou ainda o da informática, no Vale do Silício, no norte da Califórnia. A melhor notícia de todas é mesmo que os empreendedores de confecções e acessórios da ASCOOP também estão contribuindo para o fortalecimento do aglomerado da Moda, em Belém, como ficou evidenciado pelo sucesso da coleção grife 100%Amazônia, lançada na Amazônia Fashion Week.

Se este estudo permitiu uma discussão da participação da economia popular e solidária em um aglomerado emergente, dialeticamente, também concluiu que esta economia popular e solidária, em torno da ASCOOP, esta contribuindo para construir este aglomerado. Igualmente levou a uma reflexão de como o aglomerado pode ser um meio da própria organização do cooperativismo, pois traz a oportunidade de multiplicar, neste movimento, um número muito maior de formatações econômicas propensas à cooperação, ao invés da simples estruturação em torno de produtores de um mesmo produto ou serviço. A estruturação do cooperativismo sob a forma de um aglomerado contribuiria, em muito, para dissipar as freqüentes tensões das organizações solidárias com base em produtores de uma mesma linha de produto e serviços, ao fortalecer as relações francamente de colaboração destes produtores com seus fornecedores e clientes; destes produtores com setores e empresas correlatas; destes produtores com instituições de apoio; e ainda a colaboração dos mesmos produtores com organizações que os representam e agencias que o regulam.

Embora seja possível a colaboração entre empresas de uma mesma “linha de produto”, pela própria lógica do mercado, estes tipos de empresas apresentam uma “natural” tendência para enfatizar a competição entre elas, em detrimento da cooperação. Tais empresas de uma mesma linha de produção vivem e morrem por um mesmo e único tipo de demanda, que enfraquece as complementaridades nas relações entre unidades produtivas de produtos iguais ou similares.

Não se trata, obviamente, de desqualificar “o produto” como “eixo” para a organização das estruturas de cooperativas. Trata-se, acima de tudo, de adicionar, a esta abordagem, outra, a do aglomerado, que não anula a forma tradicional, pois convive com ela no seu interior, pois, o aglomerado, é simplesmente muito mais amplo, tendendo a tornar subsidiária a estruturação tradicional do cooperativismo, por ser o aglomerado, em geral, um vetor muito mais forte da cooperação e, também, da eficiência, segundo os estudos de Porter. Este autor, inclusive, tem sido um crítico incisivo de políticas industriais típicas, ou seja, aquelas que se resumem a beneficiar empresas de uma mesma linha de produto, sem qualquer medida complementar que possa evitar o corporativismo e a diminuição da competição entre os iguais, prejudicando os consumidores e a sociedade em geral.

Ademais, as discussões da economia solidária e popular não podem ser detidas pela crença de que a tradicional organização das cooperativas, na forma de linha de produto, definiria o próprio conceito de cooperativismo. Tem mais sentido imaginar que o objetivo maior da economia solidária e popular não é simplesmente garantir, a qualquer preço, a reprodução de fórmulas tradicionais, mas o fortalecimento e a expansão (não o domínio absoluto) do princípio da solidariedade, por ser uma organização econômica, social e ambiental não apenas mais eficiente como mais justa e humana, portanto.

Mesmo o capitalismo em suas manifestações mais avançadas (e a custa da aceleração de sua transformação em outro sistema mais avançado e eficiente) tem sido obrigado a se render à cooperação para encontrar formas mais eficientes para a reprodução do capital e da própria sociedade democrática e burguesa – soluções que, algumas vezes, tem passado ao largo do próprio esquema baseado no capitalismo de Estado. Mais recentemente, para enfrentar uma séria crise energética que gerou “apagões” devastadores e enormes altas do preço da energia, o governo da Califórnia, Prefeituras deste Estado, as empresas geradoras e as empresas distribuidoras, criaram uma ong para fazer a transmissão da energia, diminuindo as influências negativas da competição na elevação dos preços, o que ocorria inevitavelmente quando cada empresa de distribuição ou produção investia para ter o seu próprio “linhão” de transmissão.

A sociedade e os agentes governamentais e privados envolvidos na discussão da crise energética da Califórnia entenderam que a competição na “transmissão” da energia era um importante fator agravante dos “apagões” e da elevação dos preços da energia para o consumidor. Era um fator agravante dos “apagões” porque o investimento individual em caras linhas de transmissão tornava muito cara a expansão destas linhas para onde havia “gargalos” de oferta, pois cada empresa tinha que arcar individualmente com estes gastos. Por sua vez, era um fator agravante de elevação dos preços finais para o consumidor porque cada distribuidor tinha que imputar, individualmente, nos seus custos operacionais, todo o custo da “transmissão”.

A conclusão foi que era um desperdício social que empresas produtoras e distribuidoras de energia utilizassem diferentes linhas de transmissão para transportar energia, arranjo que, em nenhuma hipótese, melhorava a eficiência da cadeia produtiva, mas que, ao contrário, dificultava a expansão das linhas e elevava custos para o consumidor final. Ademais, a estruturação do mercado de energia existente não só favorecia os “apagões” e tornava cara demais o serviço, como, paradoxalmente, tornava este negócio pouco rentável, criando ainda mais problemas para a expansão das linhas de transmissão e para os preços ao consumidor. Esta estrutura prejudicava não só a própria transmissão de energia de pontos com folga na demanda para os pontos com “gargalos” na oferta, como ainda a transmissão de energia a partir de novas “fontes” de produção de energia, como a eólica e a solar.

No Japão, particularmente nas décadas de 50 e 60, as empresas de mesma linha de produto eram levadas pelo governo a cooperar na instalação e desenvolvimento de plantas pilotos para desenvolver novas tecnologias, vindo a competir apenas a partir do momento em que as descobertas estavam prontas para serem transformadas em “produtos” (WADE, 1999).

Aliás, o exemplo do aglomerado da Moda, em Belém, deve servir, também, de reflexão para a tentação de imaginar que a única maneira de sobrevivência do cooperativismo é sua inserção em espaços “alternativos” ao do mercado capitalista, dada sua suposta “incapacidade” de concorrer com as formas tradicionais de mercado, baseadas unicamente na abordagem setorial. Ao contrário, são estas abordagens tradicionais ao tratamento do mercado, como o é a organização por dada linha de produto, uma importante fonte de dificuldades para a economia popular e solidária, quando esta fórmula é usada sem os devidos “contra-pesos”, como, por exemplo, a convivência com outras formas organizativas da produção de muito maior potencial de materializar a colaboração entre os agentes, a exemplo do aglomerado.

Neste sentido, seria interessante a realização de estudos sobre outras experiências de cooperativas que vão além da simples colaboração com produtores de produtos e serviços iguais, mas que, ao contrário, considerem como cooperados clientes, fornecedores, empresas e setores correlatos, instituições de apoio, etc. Tais pesquisas permitiriam avançar ainda mais a discussão das possibilidades do aglomerado não só como uma forma a mais de organização da economia popular e solidária, mas como, hipoteticamente, uma forma que abarca as formas tradicionais e as supera em eficiência econômica, social e ambiental, o que permitiria avançar as políticas voltadas para a construção de uma sociedade mais humana e mais justa.














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ANEXOS





1. Questionário da Pesquisa Aglomerado de Confecção da Economia Popular e Solidária de Belém-PA - Setor

Parâmetros qualitativos da coleta 1. 46 associados da Ascoop, 100% dos cooperados 2. Pólo Sede(Água Cristal, Marambaia) 20, Pólo Tapanã 14, Pólo Sacramenta 12.


Perfil do empreendimento entrevistado

A) Tipo de atividade: Produção( ) Serviço( ) Comércio( )

Prod e Com( ) Prod e Serv( ) Serv e Com( ) Prod, Serv e Com( )

B) Tipo de local de atividade: Ambulante( ) Residência( ) Via Pública( ) Estabelecimento( ) Feira( ) Galeria( )

C) Tempo de empreendimento Até 2 anos ( ) 2 a 5 anos ( ) 5 a 10 anos ( ) mais de 10 anos ( )

Questões sobre os empreendimentos:

1. Como se relaciona com fornecedores? a. Quais os principais fornecedores demandados i. Tecidos( ) ii. Armarinho(agulha, linha, peças de metal etc)( ) iii. Máquinas e equipamentos( ) iv. Lâmina de Borracha (Sola, Revestimento)( ) v. Crédito( ) vi. Formação e Treinamento( ) vii. Outro:______________________________________

b. Estabelece parcerias i. Sim( ) ii. Não( )

c. Quais? i. Promoção ii. Compra conjunta iii. Prazo de pagto (Fiado)( ) iv. Comercialização( ) v. Formação, Treinamento, Capacitação( ) vi. Demanda de Políticas Públicas vii. Outra:___________________________________________

d. Toma a iniciativa? i. Sim( ) ii. Não( )

2. Como se relaciona com clientes? a. Quais os principais clientes? i. Parentes, amigos, vizinhos e colegas de trabalho(Sacola)( ) ii. Contatos no interior( ) iii. Encomendas( ) iv. Pequenos lojistas( ) v. Feirantes e camelôs( ) vi. Lojas de Galerias( ) vii. Lojas de Shopping( )

b. Estabelece parcerias? i. Sim( ) ii. Não( )

c. Quais? i. Promoção ii. Compra conjunta iii. Prazo de pagto( ) iv. Comercialização v. Formação, Treinamento, Capacitação vi. Demanda de Políticas Públicas vii. Outra:_Encomenda()___________

d. Toma a iniciativa? i. Sim () ii. Não ()

3. Se articula com seus pares(associados/concorrentes)? a. Com que outros empreendedores se articula, e como? i. Costureiras com equipamentos próprios() ii. Costureiras sem equipamentos próprios() iii. Atelieres montados() iv. Revendedores estabelecidos v. Sacoleiras(os)() vi. Outro____________________________________________

b. Estabelece parcerias? i. Sim () ii. Não()

c. Quais? i. Promoção() ii. Compra conjunta() iii. Prazo de pagto iv. Comercialização() v. Formação, Treinamento, Capacitação() vi. Demanda de Políticas Públicas () vii. Outra:___________________________________________

d. Toma a iniciativa? i. Sim () ii. Não()


4. Quantas ocupações econômicas diretas permanentes são mantidas? a. 1 a 5() b. 6 a 10() c. 10 a 20 d. 20 a 50 e. 50 a 100

5. Quantas ocupações econômicas diretas temporárias são demandadas? a. 1 a 5() b. 6 a 10 c. 10 a 20 d. 20 a 50 e. 50 a 100

6. Qual o faturamento bruto médio por mês? a. Até R$500() b. R$500 a R$1.000() c. R$1.000 a R$5.000 d. R$5.000 a R$10.000 e. R$10.000 a R$20.000 f. Mais de R$20.000

7. Quais são os principais insumos demandados? (Marcar até 3 alternativas, identificando 1º, 2º e 3º) a. Tecidos, linhas e agulhas ( ) b. Máquinas ( ) c. Crédito ( ) d. Formação, Treinamento, Capacitação ( ) e. Políticas Públicas ( )

8. Quais outros negócios também ganham com sua atividade? a. Salão de Beleza () b. Alimentação () c. Cultura d. Moda / Modelos() e. Mercearia f. Artesanato() g. Segurança h. Som i. Ensino

Outro:_________________


9. Quais órgãos e instituições ajudam o desenvolvimento do empreendimento? a. Banco do Povo() b. Banco do Cidadão c. Basa d. CEF e. Banco do Brasil() f. Prefeitura:__________ g. Gov. do estado:__ h. Gov. Federal:___ i. Univers./Facul() j. Igrejas k. Ong´s () l. Grandes empresas m. Sebrae() n. Sesi, Sesc, Senai() o. Fórum de Ecosol() p. Outro:_____________

10. Quais as principais vantagens de cooperar com outros empreendedores do mesmo ramo? a. Escala de produção() b. Partilha de saberes() c. Partilha de equipamentos() d. Compra conjunta() e. Marketing (Promoção)() f. Força Política() g. Acesso a Crédito() h. Feiras / Desfiles() i. Outro:________________


11. Quais as principais dificuldades enfrentadas? a. Ver o outro como concorrente() b. Falta crédito() c. Fiador() d. CNPJ / Nota Fiscal () e. Formação Gerencial() f. Comercialização() g. Incentivos Econômicos / Tecnológico() h. Regulamentação do segmento() i. Relacionamento() j. Acesso aos meios de comunicação()


Nome do Entrevistador:__________________________ Nº da entrevista:_____

Bairro / Local de Referência:____________________________Data: / /



2. Questionário da Pesquisa Aglomerado de Confecção da Economia Popular e Solidária de Belém-PA - Clientes

Parâmetros qualitativos da coleta 3. Clientes de Empreendedores de produção, serviço e/ou comercialização de vestuário, cama, mesa e banho, acessórios, bijuterias, bolsas e sapatos. 4. Consumidor individual, Pequenos lojistas, lojas de galerias, de shopping, feirante etc.

Perfil do empreendimento entrevistado

A) Tipo de atividade: Consumidor indiv.( ) Instituição( ) Loja pequena( ) Feirante( ) Outro ( )

C) Tempo de empreendimento Até 2 anos ( ) 2 a 5 anos ( ) 5 a 10 anos ( ) mais de 10 anos ( )

Questões sobre os empreendimentos:

12. Como se relaciona com fornecedor de confecção? a. Quais os principais fornecedores demandados viii. Roupa feminina e masculina ix. Roupa de trabalho x. Lingerie xi. Moda praia xii. Confecção para Bebê xiii. Acessórios(Bolsas, sandálias bijouterias)

b. Estabelece parcerias i. Sim ii. Não

c. Quais? i. Promoção ii. Compra conjunta iii. Prazo de pagto (Fiado) iv. Comercialização v. Formação, Treinamento, Capacitação vi. Demanda de Políticas Públicas vii. Outra:___________________________________________

d. Toma a iniciativa? i. Sim ii. Não

13. Principais Motivações a. Quais as principais motivações para comprar confecção da Economia Popular? i. Data festiva(aniversário, casamento, carnaval, círio, natal, São João etc) ii. Acompanhar a moda iii. Férias iv. Exigência do trabalho v. Preço baixo vi. Atende em casa vii. Sob medida / Exclusividade viii. Qualidade ix. Outro____________________________________________ 14. Quantas ocupações econômicas diretas permanentes são mantidas? a. 1 a 5 b. 6 a 10 c. 10 a 20 d. 20 a 50 e. 50 a 100

15. Quantas ocupações econômicas diretas temporárias são demandadas? a. 1 a 5 b. 6 a 10 c. 10 a 20 d. 20 a 50 e. 50 a 100

16. Qual o faturamento bruto médio por mês? a. Até R$500 b. R$500 a R$1.000 c. R$1.000 a R$5.000 d. R$5.000 a R$10.000 e. R$10.000 a R$20.000 f. Mais de R$20.000



Nome do Entrevistador:__________________________ Nº da entrevista:_____

Bairro / Local de Referência:____________________________Data: / /







3. Questionário da Pesquisa Aglomerado de Confecção da Economia Popular e Solidária de Belém-PA - Fornecedores

Parâmetros qualitativos da coleta 5. Fornecedores de Empreendedores Populares de produção, serviço e/ou comercialização de vestuário, cama, mesa e banho, acessórios, bijuterias, bolsas e sapatos. 6. Lojistas de tecidos, máquinas e armarinhos(linha, linha, zíper etc).

Perfil do empreendimento entrevistado

A) Tipo de insumo: Tecido ( ) Máquinas ( ) Armarinho ( ) C) Tempo de empreendimento Até 2 anos ( ) 2 a 5 anos ( ) 5 a 10 anos ( ) mais de 10 anos ( )

Questões sobre os empreendimentos:

17. Como se relaciona com clientes? a. Quais os principais clientes? i. Produção caseira – sem fins comerciais ii. Costureiras e alfaiates - autônomos iii. Atelieres e pequenas fábricas de confecção iv. Fábricas de médio porte v. Produção institucional – eventos culturais próprios vi. Outro:___________________________________________

b. Estabelece parcerias? i. Sim ii. Não c. Quais? i. Promoção ii. Compra conjunta iii. Prazo de pagto iv. Comercialização v. Formação, Treinamento, Capacitação vi. Demanda de Políticas Públicas vii. Outra:___________________________________________ d. Toma a iniciativa? i. Sim ii. Não 18. Se articula com seus pares(associados/concorrentes)? a. Com que outros empreendimentos se articula? i. Lojistas do mesmo ramo ii. Lojas de máquinas iii. Armarinhos iv. Tranportadoras v. Outro____________________________________________ b. Estabelece parcerias? i. Sim ii. Não

c. Quais? i. Promoção ii. Compra conjunta iii. Prazo de pagto iv. Comercialização v. Formação, Treinamento, Capacitação vi. Demanda de Políticas Públicas vii. Outra:___________________________________________

d. Toma a iniciativa? i. Sim ii. Não

19. Quantas ocupações econômicas diretas permanentes são mantidas? a. 1 a 5 b. 6 a 10 c. 10 a 20 d. 20 a 50 e. 50 a 100

20. Quantas ocupações econômicas diretas temporárias são demandadas? a. 1 a 5 b. 6 a 10 c. 10 a 20 d. 20 a 50 e. 50 a 100

21. Qual o faturamento bruto médio por mês? a. R$5.000 a R$10.000 b. R$10.000 a R$20.000 c. R$20.000 a R$50.000 d. R$50.000 a R$100.000 e. Mais de R$100.000

22. Quais órgãos e instituições ajudam o desenvolvimento do empreendimento? a. Banco do Povo b. Banco do Cidadão c. Basa d. CEF e. Banco do Brasil f. Prefeitura:__________ g. Gov. do estado:______ h. Gov. Federal:________ i. Univers./Faculdades j. Igrejas k. Ong´s l. Grandes empresas m. Sebrae n. Sesi, Sesc, Senai o. Fórum de Ecosol p. Outro:_____________

Nome do Entrevistador:__________________________ Nº da entrevista:_____

Bairro / Local de Referência:____________________________Data: / /


4. Questionário da Pesquisa Aglomerado de Confecção da Economia Popular e Solidária de Belém-PA - Correlatos

Parâmetros qualitativos da coleta 7. Instituições de apoio aos Empreendedores de produção, serviço e/ou comercialização de vestuário, cama, mesa e banho, acessórios, bijuterias, bolsas e sapatos. 8. Outros Empreendedores, formais e informais, que ganham com a atividade do setor de confecções – mesmo sem comprar ou vender diretamente ao setor.

Perfil do empreendimento entrevistado

A) Tipo de atividade: q. Salão de Beleza r. Alimentação s. Cultura t. Moda / Modelos u. Mercearia v. Artesanato w. Segurança x. Som y. Ensino z. Banco do Povo aa. Banco do Cidadão bb. Basa cc. CEF dd. Banco do Brasil ee. Prefeitura:__________ ff. Gov. do estado:______ gg. Gov. Federal:________ hh. Univers./Faculdades ii. Igrejas jj. Ong´s kk. Grandes empresas ll. Sebrae mm. Sesi, Sesc, Senai nn. Fórum de Ecosol oo. Outro:_____________

C) Tempo de empreendimento Até 2 anos ( ) 2 a 5 anos ( ) 5 a 10 anos ( ) mais de 10 anos ( )

Questões sobre os empreendimentos:

23. Como se relaciona com a atividade de confecção popular? a. Qual a natureza da relação? xiv. Complementar obrigatório xv. Acessório opcional xvi. Compõe o ambiente xvii. Estimulante do consumo xviii. Público Alvo xix. Política Pública xx. Crédito xxi. Outro:_______________________________________

b. Estabelece parcerias com o setor de confecções? i. Sim ii. Não


c. Quais? i. Promoção ii. Evento iii. Comercialização iv. Formação, Treinamento, Capacitação v. Demanda de Políticas Públicas vi. Outra:___________________________________________

d. Toma a iniciativa? i. Sim ii. Não

24. Se empreendimento particular, quantas ocupações econômicas diretas permanentes são mantidas? a. 1 a 5 b. 6 a 10 c. 10 a 20 d. 20 a 50 e. 50 a 100

25. Quantas ocupações econômicas diretas temporárias são demandadas? a. 1 a 5 b. 6 a 10 c. 10 a 20 d. 20 a 50 e. 50 a 100

26. Qual o faturamento bruto médio por mês? a. Até R$500 b. R$500 a R$1.000 c. R$1.000 a R$5.000 d. R$5.000 a R$10.000 e. R$10.000 a R$20.000 f. Mais de R$20.000


Nome do Entrevistador:__________________________ Nº da entrevista:_____

Bairro / Local de Referência:____________________________Data: / /


Ficheiro:Exemplo.jpg

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